Os altos e baixos de 'Dele e dela', série de suspense da Netflix
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Se o leitor estiver em busca de um suspense bem realizado e livre de grandes pretensões de romper padrões dramatúrgicos, pode conferir “Dele & dela” sem susto. Aliás, há sustos — mas só aqueles previstos nas clássicas aventuras que misturam assassinatos, drama familiar, cidades pequenas, investigações policiais e jornalistas retratados como se fossem urubus profissionais. A minissérie da Netflix tem seis episódios, pode ser devorada numa maratona de fim de semana e prende até o fim. É um formato cada vez mais frequente e bem-vindo pelo público que tem pouco tempo.
Ambientado em Dahlonega, no interior da Geórgia, o enredo se baseia num best-seller de Alice Feeney. A grande referência urbana para os personagens é Atlanta, a capital. O sotaque sulista impera e o lugar, como na maioria das histórias de assassinato, é cercado por uma floresta.
É em meio às árvores e sobre o capô de um carro que aparece o corpo de Rachel (Jamie Tisdale). A morta foi esfaqueada inúmeras vezes e não há sinais de luta, o que sugere que ela conhecia quem a atacou e foi surpreendida.
Jon Bernthal e Tessa Thompson/Dele e dela, Netflix
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Jack (Jon Bernthal, de “The walking dead” e de “O urso”) lidera a investigação ao lado de sua parceira, Priya (Sunita Mani). Já nas primeiras cenas entendemos que ele mora com a sobrinha pequena e a irmã alcoólatra, Zoe (Marin Ireland), mãe relapsa e pessoa complicada no trato.
Paralelamente, somos apresentados a Anna (Tessa Thompson). Repórter de um canal de notícias sediado em Atlanta, ela volta à cidade natal para cobrir o crime. Cerca de um ano antes, era âncora do principal telejornal da emissora, porém perdeu o lugar ao tirar uma licença depois de uma tragédia familiar. É amargurada, mas tem fibra e quer recuperar o posto, agora ocupado por Lexy Jones (Rebecca Rittenhouse). As disputas profissionais, os dramas familiares e o trabalho da polícia impulsionam a ação.
Anna e Jack foram casados. O público sabe que uma desgraça os marcou (eles perderam uma filha). Esse fato ao mesmo tempo os mantém ligados e os separa, mas a maneira como isso acontece fica no ar. O pulo do gato do roteiro é conseguir manter a ambiguidade na relação dos dois protagonistas quase até o último episódio.
Falta uma figura por quem torcer. Nenhum personagem é totalmente positivo e “Dele & dela” sofre com essa antipatia que todos eles provocam. Há uma dose de caricatura e, no penúltimo episódio, longas cenas de melodrama esvaziam a força da série. Do ponto de vista estético, a produção aposta numa fotografia sombria que reforça o luto dos protagonistas e a sensação de estagnação da cidade. A direção segue o caminho seguro, sem enquadramentos extravagantes. Tudo cumpre seu papel de sustentar a narrativa evitando as distrações. O desfecho é bem-construído e o espectador tem sua chance de desvendar o crime: não há aqueles elementos irrevelados que surgem de surpresa no final — e isso é uma qualidade.
