Os 7 momentos mais quentes do debate da TV Gazeta... e o contexto por trás de cada um

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Fonte da notícia: A Gazeta A Gazeta

Abaixo, destacamos e contextualizamos os sete grandes momentos, mais acalorados, de enfrentamento entre Ricardo Ferraço (MDB) e Lorenzo Pazolini (Rep) no debate final da TV Gazeta, realizado na noite desta quinta-feira (22).  Em pelo menos quatro ocasiões, Pazolini procurou expor contradições nas palavras de Ricardo, sempre olhando para a câmera e se dirigindo aos telespectadores: “Você, telespectador, também deve estar confuso”.

O ex-prefeito questionou Ricardo repetidamente sobre o conceito de “policiamento ostensivo” e corrigiu o governador quando este disse que eles estavam num “programa”. “É um debate, candidato.”

Durante o debate sobre segurança pública, Ricardo afirmou que os líderes das facções no Estado ou estão presos ou foragidos. Pazolini ironizou:

“Ora, isso é óbvio... Fica difícil debater assim.

Fica difícil debater com seriedade.” Em meio ao debate sobre segurança pública que tomou a maior parte do primeiro bloco, Ricardo contestou as credenciais (ou o distintivo) de Pazolini, delegado de carreira da Polícia Civil.

“Você não é mais delegado porque está afastado há muito tempo. Você virou um político profissional.”

Ricardo deu com isso uma abertura para Pazolini, que aproveitou a oportunidade, devolvendo-lhe a pecha: “Quando eu nasci, o candidato já era vereador de Cachoeiro de Itapemirim”. Pazolini nasceu em 1982, mesmo ano em que Ricardo, aos 19, fez sua estreia na política, iniciando seu primeiro mandato, como vereador da cidade natal.

  O ex-prefeito também exortou o público: “Busque saber qual é a formação do candidato.

Isso é um político profissional nato!” A alusão foi ao fato de que Ricardo não possui diploma universitário. Em seu registro no site do TSE, consta que o governador tem ensino superior incompleto.

“Vejam quanto preconceito e agressividade...”, reagiu Ricardo, destacando que tem uma vida forjada no trabalho, nas entregas e na busca por resultados. “Os capixabas me conhecem.”

Escolas militares: “bolsonarista” ou “surfista”? O terceiro bloco reservou um momento surpreendente.

Eu, pelo menos, não esperava essa abordagem de Ricardo. O governador questionou Pazolini pelo fato de Vitória não ter aberto nenhuma escola cívico-militar, modelo defendido e propagado pelo Ministério da Educação (MEC) durante o governo Bolsonaro.

Os dois primeiros anos de gestão de Pazolini (2021 e 2022) coincidiram com a presidência de Bolsonaro. “Você é bolsonarista.

Você ficou cinco anos lá. Por que, sendo um bolsonarista convicto, você não pôs de pé uma escola cívico-militar?”

Inicialmente, Pazolini fugiu da pergunta. “Não responde porque não tem convicção.

É um oportunista, é um surfista de ocasião”, carimbou Ricardo. Na terceira ou quarta repetição da pergunta, Pazolini respondeu que sua administração procurou aderir ao modelo, mas, com a mudança de governo (de Bolsonaro para Lula), houve descontinuidade do programa.

Ricardo rebateu que municípios como Viana, Cariacica e até Montanha chegaram a adotar o modelo em unidades escolares. A abordagem foi curiosa pelo pano de fundo ideológico.

Ricardo se declara um político de centro-direita. Ideologicamente, os dois não estão tão distantes.

Pazolini está posicionado na direita conservadora. O ex-prefeito jamais chegou a se dizer um “bolsonarista”.

Não apoiou Bolsonaro abertamente em 2022. Porém, ao longo desta campanha, aliançado com o PL, o candidato do Republicanos 

“bolsonarizou”: sobretudo no segundo turno, abraçou por inteiro o bolsonarismo, fez campanha casada com Flávio e farto uso das imagens dos dois juntos no último sábado (17), durante o grande ato de campanha do presidenciável na orla de Camburi (o “Bloquinho 22”). Com esse questionamento, Ricardo buscou colocar em xeque o compromisso e a real identidade de Pazolini com o bolsonarismo...

Ao que parece, foi um meio de convidar simpatizantes da família Bolsonaro a repensar o “voto automático” em Pazolini... Conseguir “virar” parte desses votos pode ser fundamental para Ricardo. 

Pazolini usa argumento de Helder contra Ricardo Este destaque é da série “Cenas Impossíveis” ou “Vivi para Ver Isso”.

No avesso do avesso do avesso, não é que Pazolini, digamos, tomou emprestado de Helder um argumento usado pelo petista contra Ricardo, em mais de um debate, durante o primeiro turno? O candidato do bolsonarismo “lembrou” ao governador que ele foi o relator no Senado da reforma trabalhista do governo Temer, aprovada no Congresso em 2017, um ano antes da eleição de Jair Bolsonaro (o que é verdade).

É impossível imaginar o ministro da Economia de Bolsonaro, Paulo Guedes, criticando a reforma trabalhista. Na verdade, é difícil até imaginar qualquer bolsonarista raiz, “liberal na economia”, esboçando alguma ressalva à reforma em questão.

Essa é, sempre foi e segue sendo uma pauta da esquerda. A fala de Pazolini se deu como revide a uma investida de Ricardo.

O governador criticou o ex-prefeito por ter feito, em seus primeiros dias de mandato na Prefeitura de Vitória, em janeiro de 2021, uma reforma previdenciária que instituiu uma alíquota de 14% descontada dos contracheques dos aposentados do município (o que também é verdade). Posteriormente, a alíquota foi revista, mas não houve pagamento retroativo.

Ricardo usou uma expressão pesada, que remete a roubo: “Você botou a mão no bolso dos aposentados”, repetiu o governador. “É isso que você vai fazer com os aposentados do estado do Espírito Santo?”

Pazolini reagiu soando como um candidato de esquerda: “Candidato, você foi o relator da reforma trabalhista [...], precarizando as relações trabalhistas. Retirou direitos básicos elementares do trabalhador brasileiro.

De forma cruel e covarde, foi penalizar os trabalhadores mais humildes, querendo inclusive obrigar gestantes a trabalhar em ambientes insalubres”. Pazolini falou em “falta de sensibilidade e de humanidade”.

Ricardo partiu para outro tema. Na sequência do embate anterior, Pazolini ironizou: “Colocar a mão no bolso dos outros não é minha especialidade”.

Trouxe à tona, então, o caso da crise financeira atravessada pela empresa Apex Partners, insinuando relação de Ricardo com ambas: a empresa e a crise. “Não tenho relação com a Apex, com fundo de investimento”, disse o ex-prefeito, pedindo ao público para procurar saber quem estava à frente da Apex e de uma empresa que emitiu debentures (menção à Rhino Securitizadora S.A.).

“Isso, sim, é colocar a mão no bolso das pessoas. Não me meça pela sua régua”, afirmou Pazolini.

O ex-prefeito ainda chamou o atual governador de “homem de negócios”, acrescentando que o patrimônio de Ricardo triplicou (desde 2022). Ricardo não respondeu especificamente sobre a Apex, mas contragolpeou:

“São as suas ilações que fizeram de você um indiciado. [...] É por essas e outras que você tá indiciado pela Polícia Federal, por calúnia e difamação”.

A alusão foi ao episódio, em maio de 2022, no qual Pazolini, discursando num equipamento da prefeitura em Jardim Camburi, insinuou publicamente que Casagrande lhe teria proposto uma licitação fraudulenta para o Governo do Estado fazer um investimento em Vitória. “Foi chamado a provar e amarelou”, disse Ricardo, repetindo algo que ele já dissera no debate de A Gazeta e CBN no primeiro turno.

Na ocasião, a coluna teve acesso a uma notificação a Pazolini, datada do início de agosto, na qual a Polícia Federal comunicou oficialmente ao ex-prefeito seu indiciamento por denunciação caluniosa. No debate de ontem, Pazolini retrucou: “Quem foi indiciado foi o ex-governador”.

Mas não entrou em detalhes. Ricardo rebateu que é mentira.

E ficou por isso. Em tempo: um meio usado pela Apex para expandir seus negócios foi recorrer ao mercado de debêntures.

Os títulos de dívidas de R$ 452,1 milhões que constam no passivo da empresa foram emitidos pela Rhino. Pedro Chieppe Moura de Rezende Ferraço, filho de Ricardo, é um dos sócios e diretores da Rhino – empresa que não integra o quadro de sócios da Apex.

Pedro também se identifica no Linkedin como head (líder) da Apex desde 2019. Em entrevistas à imprensa, posicionava-se como vice-presidente e cofundador da Apex.

Em debates e sabatinas no primeiro turno, Ricardo afirmou que a crise da Apex é uma “crise privada” que não envolve dinheiro público, que confia na boa-fé de seu filho e que defende investigação total pelos órgãos competentes.  Para colocar em xeque a imagem de “nova política” vinculada por Pazolini a si mesmo, Ricardo o questionou, repetidamente, sobre o papel que caberá ao senador Magno Malta em eventual governo do adversário, caso este vença a eleição.

Chegou a chamar Magno de “mentor” de Pazolini. “A ‘nova política’ dele é com Magno Malta e com muita gente do lado dele que tá enrolado...”

Pazolini reagiu trazendo de volta o caso Apex. Disse que, “no mínimo, temos tráfico de influência pesado ali”.

O oposicionista afirmou que o escândalo lesou muita gente e gerou prejuízo para a imagem do Espírito, afastando investimentos. Ricardo tornou à carga: “Qual o protagonismo que seu mentor Magno Malta terá? A política nova é com Magno Malta? A política nova é acompanhada da velha política?”

O ex-prefeito replicou que o governador estava demonstrando preconceito, atacando pessoas que nem sequer estavam ali para se defender. Com ironia, também disse que Ricardo estaria antecipando a vitória dele.

“Só falta dizer quem vai ganhar na Mega-Sena...” A bem da verdade, Pazolini não respondeu especificamente sobre Magno – como passou a campanha inteira sem responder.

De modo mais genérico, repetiu que, se eleito, governará e dialogará com todos, inclusive com todos os prefeitos.  Falando em Magno e bolsonarismo, Ricardo resgatou o episódio da “invasão” (ou “inspeção”) do Hospital Dório Silva, usado pelo Governo do Estado para internação e tratamento de pacientes com Covid-19, em junho de 2020, quarto mês da pandemia.

Na ocasião, Pazolini era deputado estadual de oposição ao governo Casagrande. Com outros quatro oposicionistas, esteve no hospital, no que ele mesmo sempre chamou de “inspeção” ou “fiscalização”.

Os cinco fizeram e divulgaram foto em frente ao Dório Silva. Na véspera do episódio, Jair Bolsonaro conclamara apoiadores Brasil afora a encontrar uma maneira de entrar em hospitais públicos e de campanha para filmar as instalações e mostrar que seria uma “farsa” a existência de um grande número de pacientes internados em UTIs por causa da doença (“Arranja um jeito de entrar e filmar”, disse o então presidente, numa live).

Bolsonaro questionava os dados oficiais relativos a mortes pela doença respiratória sem cura (e, àquela altura, sem vacina), bem como a taxa de ocupação de leitos, alegando sem provas que os números estariam sendo inflados pelos governadores e prefeitos para prejudicar seu governo e obter mais recursos.

Desde então, Pazolini sempre afirmou que houve apenas fiscalização das condições de trabalho dos profissionais de saúde, em cumprimento a uma de suas prerrogativas como parlamentar. Já o governo Casagrande sempre tratou o ato como uma “invasão” e, poucos dias depois, entrou com representação criminal em face dos cinco deputados.

No debate, Ricardo disse a Pazolini: “Invadiu um hospital em busca de protagonismo e da lacração”. Pazolini respondeu que a Justiça entendeu que “não houve nenhuma invasão”.

E acrescentou:  “Quem estava conosco era o líder do seu governo.

Você confia no seu líder de governo?” Ricardo não respondeu a essa pergunta.

De fato, um dos cinco “invasores” ou “inspetores” (dependendo do ponto de vista) foi o deputado Vandinho Leite. Então opositor de Casagrande pelo PSDB, Vandinho depois voltaria a ser aliado do ex-governador.

É, também, grande aliado de Ricardo, desde os tempos em que eram correligionários no PSDB. Desde o início deste ano, é colega de partido de Ricardo no MDB.

Vandinho realmente é, desde o início do ano passado, o líder do governo no plenário da Assembleia Legislativa.  Ressalvas: um pesou no sarcasmo; o outro, na exaltação

Em pelo menos dois momentos, parece-me que Pazolini passou um pouco do ponto no emprego da ironia. Exagerou na dose de sarcasmo, flertando perigosamente com o deboche (como ao corrigir o oponente até no emprego da palavra “programa”).

Dizem os especialistas em marketing político que esse tipo de postura, digamos, “superior”, não costuma agradar ao público, que se sente solidariamente atingido. Por sua vez, Ricardo, na minha avaliação, também pesou um pouco a mão no tom mais contundente em alguns momentos, ultrapassando aquela linha tênue que separa “assertividade” de “agressividade”.

Aqui e ali, soou um pouco exaltado. Isso também não costuma ser muito bem recebido pelo público, segundo os entendedores de marketing político.  

O debate também foi marcado por algumas “bolas quicando” que Ricardo simplesmente não pôde ou não quis chutar. Fazê-lo seria também chutar para longe qualquer potencial voto bolsonarista.

Mas tomemos um exemplo. Pazolini enalteceu o trabalho de vacinação massiva desenvolvido pela Prefeitura de Vitória durante a pandemia (de fato, correto e importante).

Num dos poucos compromissos assumidos por ambos no debate, fez uma promessa grandiosa (anotem aí): “Teremos o SUS mais forte do Brasil”. Ótimo e que assim seja se ele for eleito.

Mas cabe uma ponderação. Pazolini agora é Flávio – logo, é Jair Bolsonaro.

“Valorização do SUS”, “vacinação” e Jair Bolsonaro não cabem na mesma frase. Como presidente, no mais crítico momento para a saúde dos brasileiros em 100 anos, Bolsonaro não só desencorajou como sabotou a estratégia de vacinação em massa da população.

Mais de uma vez, chegou a debochar das vacinas desenvolvidas contra a Covid-19 para conter a disseminação da pandemia do novo coronavírus (a mesma que ceifou mais de 700 mil vidas só no Brasil). Não tomou a vacina para dar o bom exemplo à nação, enquanto propalava “tratamentos” sem nenhuma base científica, como o uso de cloroquina, e enquanto colaboradores do governo defendiam a tétrica tese de “imunização de rebanho”.

Em outubro de 2020, Bolsonaro desautorizou publicamente seu então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello (colocado ali a dedo por ele, mesmo não sendo especialista na área), após o general ter anunciado a intenção de comprar quase 50 milhões de doses da vacina CoronaVac (desenvolvida em parceria com o Instituto Butantan): “Um manda, e o outro obedece”, aquiesceu Pazuello, em entrevista.

Foram várias as demonstrações de desdém (“vachina”, “vacina do Doria”), além da desinformação difundida pelo próprio gabinete da Presidência: “Se você virar um jacaré, é problema de você”, disse Bolsonaro, em dezembro de 2020, no auge da pandemia. Em 2021, o então presidente chegou ao cúmulo de associar vacinas contra a Covid-19 ao risco de contaminação por Aids. 

Pazolini gosta desse advérbio. Usou-o quase 20 vezes ao longo do debate.

Publicação Original A Gazeta agazeta.com.br
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