Oriente Médio: efeito da alta do petróleo não deve ser imediato no Brasil, explica Padovani, do BV
Na escalada de tensões e conflitos no Oriente Médio, sem sinal de apaziguamento, o preço do petróleo voltou a subir nesta segunda-feira (9). No momento, se aproxima de US$ 120 o barril. Em entrevista ao CBN São Paulo, o economista-chefe do banco BV, Roberto Padovani, explica que o efeito do aumento não será imediato no Brasil. A maior possibilidade, por hora, é de afetar as decisões de consumidores e investidores.
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“Todo mundo está assustado, isso acaba afetando as decisões de consumo, investimento e crédito. Pensando no nosso bolso, o que teremos que avaliar é a extensão do conflito. Quanto mais o petróleo ficar em US$ 100 o barril, maior a chance da Petrobras reajustar os preços dos combustíveis. O Banco Central pode cortar menos a taxa de juros, então, o crédito fica mais caro e teremos, com o aumento da inflação, menos poder de consumo da população e valores mais elevados. Não estamos nesse momento ainda, mas há essa preocupação”, explica.
Há uma relação entre o aumento e o Estreito de Ormuz, por onde passa boa parte do petróleo internacional e que está fechado desde o início da guerra. O que prevalece no momento, porém, é a noção de que o fechamento do estreito e o conflito não devem ser duradouros.
“O governo iraniano é diplomaticamente fraco, com baixa capacidade militar. Já os Estados Unidos também não podem prolongar o conflito, pois ele traz um custo no ano eleitoral. Existe um desconforto global com o aumento oriental da inflação. O mundo está olhando com muita atenção para ver o que acontece com o cenário dos próximos meses”, disse.
Instabilidade dos EUA
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, minimiza essa alta do petróleo, destacando que é importante eliminar a ameaça nuclear do Irã. Mesmo que a guerra não se estenda, os impactos desse período serão sentidos globalmente.
Como Padovani explicita, a sucessão de temas relacionados ao governo norte-americano demonstra uma política externa de “conflito permanente”.
“É um ambiente geopolítico muito instável. Teve o episódio da Venezuela, a história grave da Groenlândia, agora o Irã… Então, há um redesenho da ordem global com instabilidades muito pronunciadas e um quadro de baixa previsibilidade”, disse.
Há também uma dificuldade ao tentar avaliar quais são os impactos no Brasil. Se por um lado o ambiente é cauteloso, o que desfavorece fluxos capitais para o país, por outro, os investidores têm reduzido a atuação na economia dos EUA, dada a instabilidade, e favorecendo mercados emergentes como o Brasil.
“Nesse momento, a situação está relativamente controlada. O dólar está pressionado, mas, para padrões históricos, bem comportado”, explica o economista.
Bolsa de Valores
O Ibovespa abriu em queda nesta segunda-feira (9), aos 178.880 pontos, diante da permanência das tensões geopolíticas entre EUA e Irã. O viés, portanto, é negativo para o mercado acionário brasileiro.
“Enquanto o aumento do preço do petróleo valoriza a Petrobras e ajuda a Bolsa, o cenário global instável favorece fluxos capitais para mercados emergentes, o que segura a Bolsa. Também prevalece a leitura de que a imprevisibilidade do cenário e uma eventual pressão inflacionária farão com que o corte de juros pelo Banco Central seja limitado. A taxa de juros elevada não ajuda a Bolsa de Valores, pois torna a vida financeira das empresas mais complicada e há investidores que preferem ficar aplicados em renda fixa e variável. Então, o que está prevalecendo no final é essa leitura mais negativa, de que há um ambiente instável, imprevisível, juros mais altos e isso, historicamente, não é bom para as Bolsas em lugar nenhum do mundo, mas principalmente aqui no Brasil”, elucida.
