Organizações humanitárias se mobilizam para atender até 200 mil afetados por terremotos na Venezuela
Organizações humanitárias estão se preparando para uma operação de grande escala para fornecer abrigo, água e itens básicos a até 200 mil pessoas que podem ter sido afetadas pelos dois grandes terremotos que atingiram o norte da Venezuela na noite de quarta-feira, segundo o representante de uma organização não governamental de ajuda humanitária em Caracas.
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Os terremotos de magnitude 7,2 e 7,5 que atingiram o norte do país na quarta-feira deixaram um cenário de devastação, com dezenas de edifícios desabados, especialmente na região de La Guaira, cidade costeira vizinha a Caracas. Jankiel Rosenwald, assessor na Venezuela da World Vision, organização humanitária de base religiosa, disse que sua entidade e outras organizações de ajuda estão elaborando planos para fornecer abrigo, água e kits de higiene aos desabrigados.
— Tenho amigos, pessoas que conheço, que passaram a noite passada em praças públicas sem nada além da roupa que estavam vestindo — disse, acrescentando que, mesmo antes dos terremotos, o sistema de saúde e a rede elétrica do país já estavam em condições precárias, enfraquecidas após décadas de dificuldades econômicas. — Isso vai levar tudo ao limite.
Autoridades venezuelanas informaram que centenas de edifícios foram destruídos, muitos deles na cidade portuária de La Guaira. Também há preocupação de que as áreas de ocupação precária na região afetada, onde moradias frágeis são construídas em encostas, tenham sofrido danos severos. A crise econômica que o país enfrenta há uma década enfraqueceu os serviços de resgate e, em algumas das áreas mais devastadas pelos terremotos, moradores disseram ter visto poucos socorristas e uma presença mínima do governo.
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Rosenwald contou que estava na festa de aniversário de 2 anos do filho de um amigo, em um apartamento no décimo andar, quando os terremotos atingiram a região. Segundo ele, as crianças e suas mães gritaram de desespero. Ele foi até seu próprio apartamento para buscar sua cadela, Macarena, e encontrou uma grande rachadura na parede externa do edifício, o que fez o prédio parecer inabitável. Em seguida, ajudou uma vizinha que estava presa em seu apartamento porque a porta havia emperrado. De acordo com Rosenwald, tremores secundários continuaram sendo sentidos com frequência na quinta-feira.
— Eu podia ver, por toda a cidade, as pessoas do lado de fora, nas ruas, completamente abaladas, emocionalmente sobrecarregadas e sem saber o que fazer ou como reagir — disse Rosenwald. — As pessoas perguntavam: “Podemos voltar para casa? Deixei tudo lá dentro, as chaves, o celular. Posso subir de novo? Devo?”.
Principais desafios
Na manhã desta sexta-feira, a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, afirmou que o número de mortos pelos terremotos subiu para 589, enquanto 2,9 mil pessoas ficaram feridas. Ela também disse que decidiu “militarizar” a área do estado de La Guaira, indicando que militares venezuelanos já estão no estado. Delcy não especificou, no entanto, o que a medida significará na prática.
Ao mesmo tempo, a chegada contínua de ajuda internacional e de equipes de resgate não resolve um dos principais desafios do país: a falta de maquinário pesado. Durante a crise econômica da Venezuela, tratores, escavadeiras e outros equipamentos pesados pertencentes ao Estado se deterioraram por falta de peças de reposição e manutenção.
Equipes internacionais de busca e resgate de pelo menos 17 países estão sendo mobilizadas para ajudar, anunciou a ONU nesta sexta-feira. Socorristas de El Salvador e do México já desembarcaram em Caracas. A imprensa venezuelana também informou sobre a chegada de equipes e suprimentos enviados pelo Chile e pela Suíça. As operações de resgate avançam lentamente, e ainda há corpos visíveis sob os escombros.
Países como Espanha, Portugal e China anunciaram mortes e desaparecimentos de seus cidadãos. A Espanha confirmou quatro mortos e 99 desaparecidos. Portugal informou nove mortos e 56 cidadãos ainda não localizados. Enquanto isso, a líder da oposição e vencedora do Prêmio Nobel da Paz, María Corina Machado, pediu a libertação de “todos os presos políticos”, civis e militares, “para que possam estar com suas famílias nestas horas trágicas”.
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Os terremotos também interromperam os serviços de comunicação e de internet em algumas áreas, e muitas pessoas ainda enfrentam dificuldades para restabelecer contato com familiares e amigos. Há também quem recorra à internet em busca de pessoas desaparecidas. Em um dos sites criados para esse fim, quase 50 mil pessoas foram registradas como desaparecidas.
Após o presidente Donald Trump prometer ajudar seus “novos e grandes amigos”, os Estados Unidos anunciaram um pacote de US$ 150 milhões em ajuda e o envio de dois navios de guerra, aviões de transporte e helicópteros para apoiar a Venezuela. Um general do Comando Sul dos EUA, Kevin J. Jarrard, já está em Caracas para “supervisionar” as operações e prestar “assistência humanitária nas áreas afetadas”.
A maior parte dos países da América Latina também manifestou solidariedade e ofereceu ajuda. Espanha, Alemanha, Itália, China e Índia igualmente prometeram enviar equipes de resgate. O primeiro terremoto ocorreu às 18h04 de quarta-feira, no horário local, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). Quase um minuto depois ocorreu o segundo tremor, de magnitude 7,5, o mais forte registrado na Venezuela desde 1900. A força dos terremotos foi sentida até na Colômbia. Desde então, já foram registradas mais de 130 réplicas.
(Com AFP)
