Oreshnik: Míssil russo com capacidade nuclear usado contra a Ucrânia foi apontado por Putin como impossível de ser interceptado

 

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O anúncio do Ministério da Defesa da Rússia sobre o disparo de mísseis hipersônicos Oreshnik contra "alvos estratégicos" na Ucrânia, em ataque realizado entre a noite de quinta e a madrugada desta sexta-feira, confirma o retorno de uma das armas mais modernas do arsenal russo no campo de batalha do Leste Europeu — em uma demonstração da operacionalidade de equipamentos com capacidade de carregar ogivas nucleares.

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O primeiro uso confirmado do Oreshnik em campo de batalha foi em novembro de 2024, quando o próprio líder russo, Vladimir Putin, anunciou um ataque bem-sucedido contra Dnipro e tratou das capacidades do equipamento de guerra publicamente. Àquela época, Putin afirmou que o míssil tem capacidade para atingir dez vezes a velocidade do som (Mach 10), detalhando que isso corresponde a "2,5 km a 3 km por segundo".

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O presidente também detalhou que o míssil tem capacidade para carregar "dezenas de ogivas", incluindo teleguiadas, e que está incluído na categoria de míssil de médio alcance (MRBM) — o que, de acordo com a Associação para o Controle de Armas, significa um limite operacional entre mil e 3 mil quilômetros, além de uma margem de erro de cerca de 150 metros em relação ao alvo determinado. As classificações quanto à capacidade operacional diferem a depender da fonte consultada, com algumas indicando um alcance de até 5,5 mil km.

Sergei Karakayev, comandante das Forças de Mísseis Estratégicos da Rússia — que controlam o arsenal nuclear de Moscou e o programa de mísseis balísticos intercontinentais — afirmou que o Oreshnik pode atingir alvos "em toda a Europa".

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Embora Putin tenha dito que "atualmente não há maneiras de conter" a arma, especialistas dizem que o míssil não pode ser manobrado da mesma forma que os mísseis hipersônicos típicos, o que comprometeria parte da capacidade ofensiva projetada.

— Assim como outros mísseis balísticos intermediários e intercontinentais, suas ogivas entram na atmosfera e atingem seus alvos em velocidades hipersônicas — disse Marcin Andrzej Piotrowski, analista do Instituto Polonês de Assuntos Internacionais (PISM), em 2024. — Mas, diferentemente das armas hipersônicas, as ogivas do Oreshnik não realizaram nenhuma manobra em velocidades hipersônicas, o que complicaria a operação das defesas antimísseis.

Devastador

Também em 2024, Putin disse que os elementos destrutivos do míssil podem atingir uma temperatura próxima à da superfície do Sol.

— Portanto, tudo no epicentro da explosão se fragmenta em partículas elementares, essencialmente em pó — declarou, acrescentando que poderia atingir "até mesmo alvos altamente protegidos e localizados a grandes profundidades".

No local do primeiro ataque do Oreshnik em Dnipro, em 2024, a AFP constatou danos limitados: o telhado de um prédio foi arrancado e árvores foram queimadas. Autoridades ucranianas também relataram apenas destruição limitada, sugerindo que o míssil estava equipado com ogivas simuladas. Moradores relataram um "ruído infernal" e clarões intensos durante o ataque.

Análises sobre a arma

Em seu canal no Telegram, Yan Matveev, analista militar russo, disse acreditar que o Oreshnik seja uma adaptação do projeto de míssil balístico de alcance intermediário (IRBM) RS-26 Rubej, que tem alcance de até 5,8 mil km e capacidade de levar até quatro ogivas nucleares de 0,3 megaton cada (a bomba Little Boy, usada pelos EUA contra Hiroshima, em 1945, tinha poder explosivo de 0,015 megaton).

Oficialmente, o programa de desenvolvimento do RS-26 havia sido paralisado em 2018, e uma decisão final sobre a continuidade ou não não seria tomada antes de 2027, afirmou o site militar russo Top War, citando o orçamento militar do país. No passado, os EUA afirmaram que o projeto violava o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário, assinado em 1987 por Washington e Moscou e que previa a eliminação dos mísseis balísticos e de cruzeiro com alcance entre 500 km e 5,5 mil km. O acordo foi abandonado em 2019.

Entre as semelhanças operacionais com o RS-26, o Oreshnik, afirmam especialistas e fontes dos serviços de inteligência dos EUA e Reino Unido, poderia levar uma carga conhecida como MIRV (Veículo de Reentrada Múltiplo Independentemente Direcionado, em inglês), que lhe permite transportar múltiplas ogivas, inclusive nucleares.

— Este é um grande foguete com capacidade de carga útil, presumivelmente MIRVs, e tem a capacidade associada a ele de transportar cargas nucleares — disse à CNN Tom Karako, diretor do Projeto de Defesa de Mísseis do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), apontando que provavelmente foi a primeira vez em que o sistema de múltiplas ogivas foi usado em combate.

Contudo, Matveev destaca que lançar um míssil balístico é caro e ineficiente em um cenário como o conflito na Ucrânia — não há informações detalhadas sobre os danos provocados em Dniéper, e um vídeo divulgado pelo vice-presidente do Conselho de Segurança russo, Dmitry Medvedev, não mostra grandes explosões. As autoridades locais afirmam que três pessoas ficaram feridas, e houve danos em um centro de reabilitação e "uma unidade industrial". Mais cedo, Putin disse que o míssil destruiu uma fábrica de armamentos.

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Para Pavel Povdig, analista nuclear independente baseado em Genebra, a escolha pode ter sido mais simbólica do que prática.

— A ideia principal é demonstrar que a Rússia está pronta para usar esses mísseis, inclusive para os fins a que se destinam. O sinal é que, se necessário, serão utilizadas com uma ogiva nuclear — disse ao site independente russo iStories.

O argumento foi corroborado por Fabian Hoffmann, pesquisador na Universidade de Oslo.

— O que eles querem nos dizer hoje é "vejam, o ataque da noite passada tinha uma ogiva não nuclear, mas vocês sabem, se o que quer que vocês estejam fazendo continuar, o próximo ataque pode ser com uma ogiva nuclear" — opinou ao New York Times.

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Handout / Russian Defence Ministry / AFP

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Ele afirma que os russos já cogitam realizar um teste atômico (envolvendo seus mísseis) há algum tempo, mas optaram pelo ataque "convencional" para não incomodar aliados regionais, especialmente a China, e ao mesmo tempo enviar um sinal claro ao Ocidente.

— Isto é uma escalada — disse Tatiana Stanovaya, pesquisadora do Centro Carnegie, citada pelo New York Times. — Eu realmente acredito que a situação é muito perigosa.