Em uma empresa de logística, o expediente termina, mas a operação continua. Caminhões seguem na estrada, novos pedidos entram no sistema e mudanças no estoque podem tornar obsoleto, em poucas horas, um plano de entregas preparado durante o dia.
Foi com esse exemplo que a Oracle apresentou, nesta segunda-feira (26/10), no keynote de Mike Sicilia durante o Oracle AI World, em Las Vegas, sua visão para o Fusion Claw. A tecnologia permite que agentes de inteligência artificial analisem o que mudou, refaçam o planejamento e executem as alterações autorizadas enquanto os funcionários estão fora do escritório.
Na demonstração conduzida por Chris Leone, vice-presidente executivo de desenvolvimento de aplicações da Oracle, o sistema analisou 154 cargas de uma empresa de logística. O agente propôs combinar duas delas, em uma mudança que produziria uma economia estimada em US$ 12 mil no cenário apresentado.
Cinco cargas foram encaminhadas para avaliação humana; as outras 149 seguiram pelo processo automatizado. O Fusion Claw chegou ao mercado em setembro, integrado inicialmente a 25 aplicações empresariais da Oracle.
No evento, a companhia ampliou a oferta com três novas aplicações para a cadeia de suprimentos, voltadas à distribuição de estoques e capacidade produtiva, ao planejamento de cargas e à análise de gastos com fornecedores. Sicilia apresentou essa passagem da assistência para a execução como uma das principais mudanças na adoção empresarial da IA.
Em vez de apenas responder a perguntas ou preparar recomendações, o sistema recebe um objetivo, os dados necessários e os limites dentro dos quais está autorizado a agir. A operação não encerra o expediente
Dentro dos sistemas de gestão da Oracle, os agentes podem acompanhar uma operação por várias horas, rever seus cálculos conforme chegam novas informações e realizar as transações necessárias para concluir uma tarefa. Antes de alterar o planejamento de cargas mostrado no keynote, por exemplo, o agente consultou novamente os dados da operação para verificar se as condições usadas no cálculo permaneciam válidas.
As cinco cargas que exigiam decisões fora de sua alçada foram então separadas para análise de um planejador. Os limites de atuação são registrados no chamado Enterprise Operating Envelope, que reúne objetivos, procedimentos, permissões, restrições, níveis de risco e situações que exigem aprovação.
É ali que cada empresa determina quanto da operação pretende delegar e em que momento o agente precisa chamar uma pessoa. Ao concluir o trabalho, o Fusion Claw gera o Outcome Receipt.
O documento registra a autoridade usada pelo agente, as informações consultadas, as decisões tomadas, as transações executadas e o resultado alcançado. Leone definiu o mecanismo no palco como “IA com recibos”.
A rastreabilidade ganha peso quando a inteligência artificial sai da conversa e entra nos sistemas que movimentam dinheiro, mercadorias e contratos. Uma carga reorganizada ou um lançamento contábil reconciliado precisa deixar um histórico que possa ser consultado por gestores e auditores.
Adrián Durán, vice-presidente sênior de aplicações para a América Latina, retomou o exemplo mais tarde, em conversa com jornalistas, para explicar o que chama de “efeito das 17h”. O funcionário encerra o expediente, mas estoques, rotas e pedidos continuam mudando.
Segundo Durán, o Fusion Claw permite manter um planejador digital operando continuamente, como se a empresa tivesse esse profissional disponível 24 horas por dia. O agente acompanha as mudanças, recalcula o plano e executa as decisões que estejam dentro da autoridade recebida.
As novas aplicações apresentadas no Oracle AI World levam esse modelo a três frentes da cadeia de suprimentos. Uma distribui materiais escassos e capacidade industrial entre pedidos concorrentes.
Outra compara possibilidades de consolidação de cargas. A terceira cruza compras, contratos e dados de fornecedores para identificar despesas fora dos acordos negociados.
Elas se somam às 25 aplicações com Fusion Claw anunciadas pela Oracle em setembro. O conjunto inclui ferramentas para conciliação contábil, planejamento de equipes, distribuição de territórios comerciais e operações logísticas.
Mais de 80% dos clientes da América Latina já ativaram agentes A Oracle tem cerca de 3,6 mil clientes de seus sistemas de software como serviço na América Latina, de acordo com Durán.
Mais de 80% já mantêm agentes de inteligência artificial ativados em ambientes de produção. Nos ambientes de teste e desenvolvimento, segundo o executivo, a tecnologia está habilitada em toda a base.
A expansão do Fusion Claw acontece enquanto a companhia tenta simplificar o acesso a esses agentes. Entre as novidades anunciadas no Oracle AI World estão o Fusion Companion e o Fusion Agentic Home.
Com o Fusion Companion, o funcionário descreve o resultado que pretende alcançar, e o sistema escolhe as transações, os fluxos de aprovação e os agentes necessários para realizar o trabalho. O recurso poderá ser acessado por ferramentas compatíveis, como o ChatGPT, sem retirar dos sistemas da Oracle o controle sobre os dados, as permissões e a execução.
O Fusion Agentic Home leva essa mesma lógica para dentro das aplicações da companhia. O usuário poderá delegar tarefas, acompanhar o andamento do trabalho e intervir nas decisões encaminhadas para aprovação.
A Oracle anunciou os dois recursos durante o evento, mas ainda não informou quando eles estarão disponíveis aos clientes. A companhia também apresentou o Fusion Setup and Configuration Registry, criado para acelerar a implantação e a configuração de seus sistemas.
O conteúdo foi disponibilizado em um repositório público no GitHub, no qual instruções antes concentradas em documentos técnicos aparecem organizadas como habilidades que podem ser interpretadas e executadas por agentes. Por trás da ampliação do portfólio está também uma tentativa de controlar o custo da IA.
A arquitetura do Fusion Claw separa o momento em que um modelo de linguagem analisa o problema da etapa em que milhares de operações precisam ser realizadas nos sistemas empresariais. Durán afirma que o consumo de tokens fica concentrado no raciocínio, enquanto a execução ocorre na camada computacional da Oracle.
“Para o raciocínio, o cliente paga tokens. Para a execução, não”, disse o executivo durante o Oracle AI World.
*O repórter viajou a Las Vegas a convite da Oracle Mais Lidas
Epoca Negócios