O ex-primeiro-ministro de Israel e líder de centro-esquerda Yair Lapid afirmou nesta sexta-feira que a coalizão opositora conquistou uma "vitória por pontos" nas eleições realizadas na última terça-feira, após a conclusão da apuração das urnas apontar que as forças governistas ficaram com apenas 53 cadeiras no Parlamento, abaixo das 61 necessárias para conquistar maioria.
A oposição deu início a conversas sobre a formação de um futuro Gabinete, enquanto o premier Benjamin Netanyahu força uma campanha de pressão sobre a legitimidade no pleito, apontando interferência estrangeira vinda do Catar. Autoridades eleitorais afirmaram nesta sexta que uma investigação está em curso, mas refutaram qualquer indício "fraude sistêmica", prometendo a apresentação dos resultados certificados ao presidente Isaac Herzog em 4 de novembro.
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Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp "Não é uma vitória por nocaute.
É uma vitória por pontos. Essa também conta.
Vitória é vitória", disse Lapid em uma publicação na rede social X, apontando que apesar da coalizão governista ter sido a mais votada, o grupo de Netanyahu perdeu cadeiras na Knesset e não pode voltar ao poder sozinha. "Agora vem a parte realmente difícil: tentar formar um governo.
(...). Mas temos uma coisa que não tínhamos na manhã de segunda-feira: uma maioria israelense enorme que declarou que é isso que quer [mudança].
Então, preciso pedir-vos algo que é difícil pedir a israelenses: paciência". O fim da contagem dos votos, na noite de quinta-feira, confirmou o cenário que vinha se desenhando com o avançar da apuração: o bloco de partidos de direita e extrema direita apoiando o atual premier conquistou 53 cadeiras, contra 48 da coalizão anti-Netanyahu — uma coalizão heterogênea, que une siglas da direita à esquerda no espectro político israelense, em apoio ao ex-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas do Estado judeu Gadi Eisenkot.
Os outros 19 assentos ficaram com os dois partidos árabes, que passaram a ser parte chave da formação de um novo governo. As projeções matemáticas, porém, são mais simples do que o cálculo político, considerando que parte da oposição — incluindo o próprio Eisenkot — demonstraram resistência em governar com dos árabes-israelenses (em sua maioria, descendentes dos palestinos que permaneceram em suas terras após a fundação do Estado judeu).
O ex-chefe militar declarou, durante a campanha, que não governaria com quem se opõe a denominar o grupo palestino Hamas como terrorista, mas lideranças dos partidos árabes, como Mansour Abbas (da sigla Ra'am), mantiveram otimismo com as possíveis negociações no período pós-eleitoral — definido por Lapid, em sua postagem desta sexta-feira, como "a hora do relojoeiro".
"Uma campanha eleitoral é a coisa mais extrovertida que existe. Tudo é para fora, tudo é rápido, tudo é para agora, uma manchete a cada hora.
Formar um governo é exatamente o oposto. Isso se faz em salas pequenas, devagar, sem câmeras.
Quem fala sobre o assunto geralmente não está de fato envolvido no processo", escreveu a liderança opositora. "Esta é a hora dos relojoeiros, não dos que batem o gongo".
À sombra da 'fraude' Os cálculos para formação de governo se tornaram ainda mais meticulosos em meio às alegações de fraude eleitoral levantadas pelo Likud, partido de Netanyahu, ainda durante o dia de votação, citando a prisão de supostos representantes do Ra'am que estariam envolvidos em um esquema de compra de votos, relacionando irregularidades à participação recorde do eleitorado árabe.
A narrativa ganhou força após o presidente da comissão eleitoral, juiz Noam Sohlberg, enviar uma carta ao diretor do Shin Bet, David Zini, pedindo que fosse feito "tudo ao seu alcance" para investigar "suspeitas graves" de interferência estrangeira nas eleições, dando prazo de uma semana para manifestação.
A descoberta sobre a carta, na quinta-feira, levou os partidos a rapidamente se manifestarem sobre a questão. Netanyahu apontou a suposta influência externa era equivalente a um "roubo nas eleições", enquanto seu aliado de extrema direita Itamar Ben Gvir pediu a prisão dos líderes dos partidos árabe-israelenses.
A coalizão de oposição tentou se equilibrar em uma linha mais delicada, indicando apoio ao esclarecimento das denúncias, mas rejeitando a anulação da eleição e exigindo o reconhecimento e nomeação dos eleitos. O diretor-geral interino da Comissão Central de Eleições, Dean Livne, rejeitou na noite de quinta-feira as alegações de fraude generalizada, classificando-as como "infundadas".
Em uma carta a um deputado do Yesh Atid, partido de Lapid, obtida pelo jornal israelense Times of Israel, Livne afirmou que “as eleições para a Knesset foram conduzidas de acordo com a lei", que a "integridade do pleito nos locais de votação foi rigorosamente preservada" e que "até onde sabemos, não há fundamento para alegações de violações sistemáticas da integridade eleitoral" O Shin Bet, por sua vez, esclareceu que a investigação sobre interferência estrangeira na votação tem "escopo limitado".
Mesmo que não anule a eleição, as alegações de fraude eleitoral se tornaram um fato político. Ainda na quinta-feira, Netanyahu afirmou que "nenhum partido sionista" poderia colaborar com os árabes-israelenses diante da suspeita de fraude — o que inviabilizaria a formação de um bloco de oposição com maioria.
A tática foi descrita por analistas como uma tentativa do atual premier de forças deserções entre os deputados eleitos no campo oposicionista. Em contrapartida, dentro da coalizão de oposição, as posturas até aqui são cautelosas.
O líder do Democratas (esquerda), Yair Golan, tem sido o mais vocal ao expressar apoio a um governo apoiado pelos árabes. Ativistas de esquerda fizeram um ato em frente a uma residência de Eisenkot na noite de quinta-feira, em Herzliya, pedindo para que ele negociasse a entrada das listas árabes no governo.
A expectativa é de que os resultados finais sejam apresentados no dia 4 de novembro ao presidente Herzog, e que os novos deputados sejam empossados no dia 10. É papel do presidente indicar quem será o responsável por tentar formar governo.
(Com AFP e Bloomberg)
O Globo