Operações de Trump no Caribe já custaram quase US$ 3 bilhões aos cofres dos EUA, aponta levantamento

 

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Quando as Forças Armadas dos EUA capturaram o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores, no início do ano, o governo Donald Trump anunciou a operação como concisa e planejada: com apoio aéreo, cerca de 60 soldados das forças especiais desceram de helicóptero em Caracas, enfrentaram os seguranças de Maduro, capturaram seus alvos e foram transportados para os EUA em um navio de guerra posicionado a 160 km da costa. Tudo resolvido em questão de horas, com custo mínimo para o contribuinte americano. Acontece que a presença militar dos EUA no Caribe está custando bilhões de dólares — aproximadamente US$ 3 bilhões (R$15,6 bilhões, no câmbio atual).

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O custo operacional dos navios destacados para a região chegou a mais de US$ 20 milhões por dia (R$ 104,4 milhões) no seu auge, de meados de novembro a meados de janeiro, de acordo com cálculos realizados pela Bloomberg. Embora a maior parte dos custos esteja coberta por verbas de defesa já alocadas, as operações de combate — de horas de voo a armas disparadas e pagamentos extras — aumentam o valor final.

— Não há fundo de contingência no orçamento do Departamento de Defesa para operações não esperadas — disse Mark Cancian, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês), um think tank americano bipartidário. — Conflitos [criam] custos extra.

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Dezenas de navios da Marinha dos EUA, caças, drones e embarcações de logística começaram a se concentrar na América Latina no ano passado, parte de uma operação denominada Lança do Sul. No auge, o destacamento representou 20% da frota de superfície da Marinha, imobilizando meios militares críticos mesmo enquanto crises eclodiam em outras partes do mundo.

A Casa Branca afirmou que as operações na Venezuela não custaram mais aos contribuintes, porque as forças envolvidas já estavam mobilizadas. Um grupo de ataque de porta-aviões separado foi enviado ao Oriente Médio em meio à violenta repressão do governo iraniano contra protestos em todo o país, e o USS Gerald R. Ford — peça central da operação no Caribe — foi designado na sexta-feira para se juntar a ele.

— Nenhuma dessas tropas está parada em dique seco esperando por ação — disse o secretário de Estado Marco Rubio após uma reunião com parlamentares em janeiro sobre a Operação Resolução Absoluta, como foi batizada a ação de captura de Maduro. — Elas estão mobilizadas em algum lugar do mundo. Se não estão aqui, estão em algum outro lugar.

O Pentágono e a Casa Branca não responderam aos pedidos de comentários na sexta-feira.

Apesar da partida do porta-aviões Gerald Ford para o Oriente Médio, a missão na Venezuela não tem uma data final definida. O presidente americano, Donald Trump, afirmou que os EUA "governarão o país" até que seja possível realizar uma transição "segura, adequada e criteriosa".

Uma análise da Bloomberg, utilizando informações do Pentágono sobre custos operacionais, dados de rastreamento de navios, fotos de satélite e anúncios públicos de destacamento, mostra como navios e aeronaves foram desviados para o Caribe meses antes da operação, consumindo silenciosamente bilhões de dólares e potencialmente restringindo o poder dos EUA em outras áreas.

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Gasto verificável

Dos navios e embarcações que aguardavam nas águas da Venezuela antes do ataque, o porta-aviões Gerald Ford era o mais poderoso, liderando um grupo de ataque — uma formação de navios da Marinha dos EUA que pode incluir contratorpedeiros, cruzadores e submarinos.

O Gerald R. Ford é o maior porta-aviões do mundo, com capacidade para mais de 4 mil militares e dezenas de aeronaves de combate. O custo para manter a frota ali, juntamente com seus contratorpedeiros, submarinos e cruzadores de mísseis guiados, chegou a US$ 11,4 milhões por dia (R$ 59,5 milhões), segundo cálculos baseados em dados do Escritório de Orçamento do Congresso, do orçamento de defesa dos EUA e do CSIS.

Existem pelo menos dois grupos de prontidão anfíbia — forças-tarefa da Marinha dos EUA para atacar a costa a partir do mar. A presença do USS Iwo Jima (para onde Maduro e Flores foram levados após a captura), do USS Fort Lauderdale, do USS San Antonio e da 22ª Unidade Expedicionária de Fuzileiros Navais totalizou um custo de US$ 8,59 milhões (R$ 44,8 milhões) por dia. Navios de logística e embarcações de apoio acrescentaram cerca de US$ 1 milhão por dia ao cálculo.

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— Estimamos que a Operação Lança do Sul, que inclui a Operação Resolução Absoluta, provavelmente custou cerca de US$ 2 bilhões desde agosto de 2025 — disse Elaine McCusker, ex-controladora do Pentágono e agora pesquisadora sênior do American Enterprise Institute. — [As estimativas baseiam-se em informações públicas e são] limitadas aos custos incrementais de operação dos navios, aviões e plataformas remotamente pilotadas envolvidas nos ataques e na reposição de munições provavelmente utilizadas.

Essa estimativa não cobre os gastos com inteligência ou seleção de alvos, incluindo suporte cibernético e ensaios operacionais. Como esses custos já estavam no orçamento do Pentágono, eles não podem ser alocados em outro lugar e não representam fundos retirados de outras áreas.

No entanto, as despesas excederão o que foi antecipado no orçamento do ano fiscal de 2026, disse Cancian. As embarcações deslocadas têm um nível de operação superior ao planejado e o pessoal receberá benefícios adicionais, como auxílio por separação familiar, estimando-se um acréscimo de cerca de 10% ao custo orçado.

Poder militar dos EUA no Caribe

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Mudança de planos

Um custo menos tangível é como a indisponibilidade desses navios e aeronaves afeta operações em outros lugares. O Gerald R. Ford estava no meio de uma missão no Mar Mediterrâneo quando recebeu ordens de seguir para o Caribe e a Venezuela em outubro de 2025. O porta-aviões já havia participado de pelo menos dois exercícios navais com parceiros da Otan nos mares Jônico, Adriático, do Norte e Báltico, restando meses para o retorno programado para casa.

Os grupos de prontidão anfíbia, incluindo o Iwo Jima e dois navios de transporte que viajam com ele, estavam programados para serem enviados à Europa quando suas ordens os desviaram para o Caribe. O USS Stockdale, um contratorpedeiro com mísseis guiados, estava no leste do Pacífico, na costa da América Central, quando recebeu ordens para se juntar ao reforço. Um cruzador, o USS Gettysburg, estava destinado a operações na costa leste dos EUA quando também foi instruído a seguir para o sul.

Desde então, caças F-35 da Guarda Nacional Aérea de Vermont, que estavam em Porto Rico no momento da incursão, partiram para os Açores com uma escala no Reino Unido. Eles estão agora a caminho do Oriente Médio para se juntarem à nova mobilização americana.

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Avaliação e fiscalização

O Pentágono não compartilhou uma estimativa oficial dos gastos. Parlamentares das comissões de Orçamento e Serviços Armados disseram que não foram apresentados aos números, e nem foram solicitados fundos adicionais.

— O custo é substancial, obviamente, devido à disposição de todas as forças lá — disse o senador Jack Reed, de Rhode Island, o democrata mais graduado na Comissão de Serviços Armados do Senado. — Eles relutam muito em fornecer detalhes sobre qualquer coisa. Esta é uma proposta muito cara em termos de como estamos conduzindo essas operações.

O senador Mike Rounds, republicano de Dakota do Sul e membro sênior da mesma comissão, disse não estar ciente de custos extras devido ao destacamento, e que era cedo demais para fornecer estimativas.

— Quer estejam lá ou no Caribe, esse custo permanece praticamente o mesmo — disse. — O custo do planejamento e assim por diante é uma pequena parte disso. O fato de que essa força esmagadora foi mobilizada e todos os recursos foram disponibilizados salvou vidas.