Operação da PF contra a Refit respinga em ex-secretários de Castro que são pré-candidatos no Rio

 

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A operação deflagrada pela Polícia Federal (PF) na sexta-feira contra o dono da Refit, Ricardo Magro, e o ex-governador Cláudio Castro (PL), postulante ao Senado, respingou ainda em ex-secretários estaduais que serão candidatos neste ano. Na decisão em que autorizou os mandados de busca e apreensão, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), apontou um “engajamento multiorgânico” da máquina estadual em prol de Magro, e citou o envolvimento de pastas como a secretaria de Meio Ambiente, chefiada por Bernardo Rossi (União), e de Polícia Civil, que foi comandada por Felipe Curi (PP). Ambos devem concorrer ao Legislativo.

A investigação detectou ainda que policiais federais sediados em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, atuaram como “rede de apoio e braço operacional da organização criminosa” montada por Magro. Em 2022, esses policiais participaram da campanha de um aliado do ex-secretário estadual de Transportes, Juninho do Pneu (PSDB), pré-candidato à reeleição na Câmara dos Deputados.

Segundo a PF, integrantes do primeiro escalão do governo do Rio colocaram a gestão estadual a serviço de Magro, seja facilitando a atuação de empresas do grupo Refit — que deve R$ 9,4 bilhões em impostos ao estado —, ou atrapalhando investigações e a atuação de concorrentes.

Um dos exemplos citados pelos investigadores foi a conduta do policial civil Maxwell Moraes Fernandes, designado em fevereiro de 2025 para apurar denúncia anônima de suposto favorecimento à Refit por integrantes da Fazenda estadual. A PF apontou que Fernandes mantinha contato com um lobista ligado à Refit, e “optou por prontamente” informar sobre as acusações, prejudicando a apuração.

Promoção

Em janeiro, Fernandes foi promovido a comissário de polícia “por merecimento”, de acordo com a portaria assinada pelo então secretário Felipe Curi. Na sexta-feira, a PF encontrou uma caixa com R$ 500 mil em dinheiro vivo na casa de Fernandes. Procurado, Curi, que deve concorrer a deputado federal, não retornou os contatos do GLOBO.

Portaria assinada pelo então secretário Felipe Curi

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Outro episódio citado pela PF foi a atuação do ex-presidente do Instituto Estadual do Meio Ambiente (Inea), Renato Jordão. No início deste ano, ele se manifestou de forma contrária ao esvaziamento de tanques de combustível da Refit, determinado pela Agência Nacional de Petróleo (ANP), após a refinaria ser alvo de interdição judicial.

Segundo a ANP, a medida era necessária “em razão da ausência de autorização para armazenamento de combustível naqueles reservatórios”. O Inea, porém, alegou que o uso de caminhões para retirar o material “seria muito arriscado”, numa tentativa de barrar o procedimento. O argumento de Jordão foi criticado pela ANP, que observou que a retirada em questão era compatível com a atuação habitual da própria Refit.

O então presidente do Inea, aliado do ex-secretário Bernardo Rossi, também cancelou a licença de operação de uma concorrente da Refit, segundo o despacho de Moraes. Rossi, um dos aliados mais próximos a Castro, pretende concorrer a deputado federal. Como revelou a revista Piauí, Rossi já foi flagrado em um jantar com Ricardo Magro em maio do ano passado, em um hotel cinco estrelas de Nova York. Procurado, ele não retornou.

A investigação detectou ainda que dois policiais federais da delegacia de Nova Iguaçu, Márcio Pereira Pinto e Marcio Cordeiro Gonçalves, mantinham contato com o auditor fiscal Carlos Eduardo França de Araújo, alvo de operação em maio de 2025 por suspeita de favorecimento à Refit. Araújo chefiava a inspetoria da Receita estadual responsável por municípios da Baixada, e atuava para bloquear rivais da Refit e facilitar a obtenção de licenças por empresas do grupo de Magro, segundo a PF.

Os dois policiais fizeram parte do comitê de campanha do delegado da PF Ricardo de Carvalho, que foi candidato a deputado estadual pelo MDB em 2022. Márcio Pinto, por exemplo, aparece ao lado de Carvalho no evento de filiação ao partido, com ficha abonada pelo ex-secretário estadual de Transportes, Washington Reis (MDB)— que está inelegível. Na campanha de 2022, Carvalho pediu votos em dobradinha com Juninho do Pneu.

Procurado, Carvalho afirmou que foi “pego de surpresa” com o envolvimento da dupla de policiais aliados no caso da Refit, e disse que os chamou para sua campanha por considerá-los “de confiança”:

— Eles vieram me ajudar na campanha porque trabalhávamos juntos em Nova Iguaçu. Não tenho nada a falar do caráter deles.

Ricardo Carvalho (E) e Juninho do Pneu (D)

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