O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) divulga hoje (2) um relatório sobre o estouro do limite de aquecimento global preconizado pelo Acordo de Paris.
O documento propõe uma postura mais emergencial e realista para lidar com a inevitabilidade desse fenômeno, vendo com ceticismo as tecnologias para remoção de CO2 do ar.
O chamado overshoot ("extrapolação", numa tradução livre) é o termo adotado para descrever o acréscimo de mais de 1,5°C à temperatura do planeta, que deve ocorrer em poucos anos, quando se considerada a média de cada década.
Essa expressão, que se popularizou entre cientistas da área, designa o período durante o qual o planeta ficará com o termômetro acima desse limiar, até que se consiga-fazê-lo recuar novamente.
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A esperança de que é possível resfriar o planeta depois de esquentá-lo é que a atual crise do clima surgiu como função direta da concentração do CO2 no ar.
Se conseguirmos retirar um bocado de carbono da atmosfera, a temperatura cairá.
Mas isso não será fácil.
O novo relatório do Pnuma é um compilado de argumentos de climatologistas, economistas e pesquisadores de outras áreas para mostrar que, sim, o planeta será obrigado a lidar com o overshoot, mas os esforço que antes era feito para evitá-lo continua sendo válido para torná-lo o menos grave possível.
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Uma das principais mensagens desse trabalho da ONU voltado a líderes políticos é que, uma vez que os países deixem a temperatura subir até um certo nível, o esforço necessário para fazê-la descer será exponencialmente maior.
Baixar o termômetro vai requerer o plantio de florestas em áreas que podem não estar disponíveis e o emprego maciço de tecnologias que ainda não estão maduras, o que eleva a incerteza sobre o sucesso da empreitada.
"Evitar cada fração adicional de grau de aquecimento global e reduzir o tempo em que a temperatura ultrapassa os limites estabelecidos diminui os riscos e danos, além de aumentar as chances de reduzir as temperaturas", diz o documento produzido por cientistas comissionados pelo órgão.
"A meta global continua sendo limitar o aquecimento médio de longo prazo a 1,5°C.".
'Cada fração de grau'
Para sistematizar a resposta ao overshoot, os pesquisadores propõem que o esforço seja dividido em três fases.
A primeira seria de resposta imediata, desenhada para acelerar cortes de emissão de CO2 e outros gases-estufa o máximo possível).
A segunda seria de resistência e contenção, lidando com as consequências do overshoot e zerando as emissões "líquidas" (emissões subtraídas das remoções).
A terceira, para resiliência de longo prazo, seria a consolidação das estratégias de remoção de CO2.
O relatório, diferentemente de outros documentos do Pnuma, não suger em detalhe um calendário de implementação de tais medidas, mas realça que elas precisam ser rápidas o suficiente para que, após overshoot, a temperatura média do planeta esteja abaixo do limiar de +1,5°C antes do fim do século.
— Cada fração de grau evitada e cada ano de overshoot que conseguirmos evitar vão salvar vidas, proteger ecossistemas e reduzir perdas econômicas —, afirmou em entrevista coletiva Inger Andersen, diretora-executiva do Pnuma.
— Precisamos realizar corte rápido e profundo em CO2, metano e outros gases-estufa imediatamente, buscando zerar as emissões líquidas, com governos enviando os sinais políticos corretos para instituições financeiras e o setor privado."
Andersen não fez na ocasião menções a países específicos, mas sua crítica se dirigiu a políticas climáticas que colocam muito peso em ações futuras de remoção de carbono e pouco peso em cortes de emissão no curto prazo.
O órgão também critica a ideia de que a produção de combustíveis fósseis pode sofrer pouca ou nenhuma redução caso iniciativas para remover CO2 sejam ampliadas.
Mesmo sem apontar culpados, o relatório do Pnuma contrasta com o discurso de desenvolvimento de países com metas de exploração fóssil de longo prazo, incluindo grandes potencias como EUA, Rússia e Brasil.
Mesmo na China, país que mais amplia seu potencial de energia verde, as fontes renováveis vêm surgindo de modo adicional, em uma redução acentuada da base fóssil na matriz.
Enterrando carbono
Hoje, as duas maneiras que existem de tirar carbono do ar são essencialmente o plantio de árvores (a receita ancestral 100% comprovada), e um tipo de operação conhecida como "captura e armazenamento de carbono" (CCS), que consiste basicamente enterrar CO2 da produção de petróleo e gás a grandes profundezas.
O CCS é o grande argumento das empresas do setor fóssil para prolongar a alta presença desses combustíveis na economia global mesmo diante da crise do clima.
Para os cientistas do Pnuma, porém, contar com a ampliação do CCS como contribuição significativa para resolver o overshoot é pouco realista.
"A remoção convencional e inovadora de dióxido de carbono será necessária em adição, e não em substituição, à redução sustentada das emissões residuais de gases de efeito estufa", diz o relatório.
"E os métodos de remoção apresentam riscos e compensações que podem limitar seu potencial."
Segundo os cientistas, o potencial que existe para CCS no mundo é suficiente para, no máximo, compensar o que a produção de petróleo já associada a essa atividade emite em gases-estufa.
Essa técnica deve para efetivamente remover carbono do ar.
(Em poços de gás, o CCS é realizado para facilitar a exploração, não só para enterrar o CO2).
No longo prazo, além disso, essa proposta não se sustentaria, pois o potencial de reservas geológicas para CCS acabaria no ano 2200, a seguir pelo ritmo atual, que não é muito intenso.
Outra tecnologia recente de remoção de CO2, batizada com o nome de Captura e Armazenamento de Carbono Direto do Ar (DACCS), não está atrelada à produção de combustível fóssil, mas é muito cara e consome mais energia, algo que limita sua implementação.
Plantando remoções
Segundo o Pnuma, esperar que grandes projetos de reflorestamento deem conta de baixar muito a temperatura da Terra também é pouco realista.
As preocupações são que, num planeta mais quente, o crescimento de plantas pela captura carbono pode ser menos eficiente, e a busca do território necessário para implementá-la pode conflitar com a necessidade de terras para produzir de alimentos.
O que existe de reflorestamento no mundo hoje, de todo modo, é numa escala irrisória, e precisa aumentar, diz o Pnuma.
"Seriam necessários cem anos de reflorestamento e manejo florestal na escala atual, com zero emissões residuais de CO2, para baixar a temperatura global em 0,1°C", diz o relatório.
Adaptação para já
Todas essas dificuldades técnicas reforçam o argumento que o Pnuma vem fazendo em outros relatórios: o de que prevenir o aquecimento sai mais barato do que remediá-lo.
O atraso no corte de emissões, de todo modo, já torna inevitável que um plano de adaptação a um aquecimento além de 1,5°C seja implementado.
E é possível que exista uma canibalização de recursos financeiros entre essas das frentes de atuação.
Segundo Andersen, é preciso encontrar maneiras de otimizar recursos nessas duas frentes, sobretudo em países em desenvolvimento.
— Medidas interconectadas de adaptação poderiam ter maior impacto, e a justiça e equidade precisam estar no cerne de cada ação — afirmou.
— Isso significa que países com maior responsabilidade histórica pelo aquecimento façam a maior parte do trabalho.
Um desafio particularmente grande para o Pnuma, mencionou sua diretora, é o de colocar o mundo de volta em uma trilha de negociações multilaterais, que perderam força na última década, sobretudo com o isolamento dos EUA na diplomacia climática.
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