A Organização das Nações Unidas afirmou nesta quarta-feira (2) que a meta de evitar chegar em 1,5°C do aumento da temperatura da Terra não será atingida e delinearam como as temperaturas globais poderiam ser reduzidas em uma avaliação inédita, recebida com consternação em nações vulneráveis às mudanças climáticas.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, reconheceu no ano passado a inevitabilidade de ultrapassar o limite de 1,5°C nos próximos anos, mas esta avaliação é a primeira de uma agência da ONU a afirmar diretamente que a meta será ultrapassada.
Os cientistas concordam que o aquecimento acima de 1,5°C em relação aos tempos pré-industriais representa riscos graves e quase 200 nações se comprometeram, há uma década, a tentar manter o aumento da temperatura global dentro desse limite mais seguro.
Mas, em um relatório, Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente afirmou que a melhor opção restante passou de 'evitar a ultrapassagem para lidar com ela'.
'É um choque de realidade.
Temos que conviver com este mundo mais quente...
mas ainda há muito que podemos fazer para limitar o aquecimento', disse à AFP Richard Betts, coautor do relatório e professor da Universidade de Exeter.
COP30 em Belém, no Pará
Alex Ferro/COP30
O relatório 'tratava de respostas, e não apenas de afirmar que algo está acontecendo', disse ele aos jornalistas.
Com o aumento das emissões de gases de efeito estufa, o PNUMA alertou que atingir a meta de 1,5°C estava se tornando cada vez mais improvável.
Mas este último relatório marca uma mudança, afirmando em termos inequívocos que 'a ação global para reduzir as emissões de gases de efeito estufa não foi suficientemente rápida para evitar que o aquecimento global ultrapasse 1,5°C'.
A mensagem direta 'impactou profundamente aqueles que vivem em atóis de baixa altitude', disse Maina Talia, ministra do Clima de Tuvalu, uma nação do Pacífico que está entre as mais ameaçadas pela elevação do nível do mar.
Os ativistas climáticos têm se mobilizado em torno da meta de 1,5°C desde que ela foi confirmada como o objetivo mais ambicioso do Acordo de Paris, há uma década, e o relatório do PNUMA foi recebido com frustração e decepção.
'Este é um momento de partir o coração, mas ultrapassar a meta não é motivo para desistir e renunciar a 1,5°C', declarou Jasper Inventor, do Greenpeace Internacional
Bill Hare, cientista climático e CEO do instituto de políticas Climate Analytics, afirmou que o relatório 'não consegue nos mostrar que existe uma saída' e corre o risco de se tornar 'um apelo à apatia'.
O mundo já aqueceu cerca de 1,4°C desde 1850-1900, principalmente devido à queima de combustíveis fósseis, e os últimos três anos foram os mais quentes já registrados.
Cientistas afirmam que qualquer ultrapassagem de 1,5°C ameaça causar eventos climáticos extremos e acarreta o risco de mudanças irreversíveis, como o derretimento das calotas polares e dos recifes de coral.
Mesmo no cenário mais otimista do relatório, as temperaturas globais ainda atingiriam um pico de 1,8°C antes de caírem para 1,5°C até o final do século.
Mas, para alcançar esse objetivo, a remoção do dióxido de carbono — o processo de extrair carbono do ar — seria necessária em uma escala enorme, juntamente com cortes importantes e rápidos nas emissões de gases de efeito estufa, afirmou o relatório.
Onda de calor no verão europeu
WOJTEK RADWANSKI / AFP
Atualmente, a remoção de carbono desempenha um papel ínfimo no combate às mudanças climáticas e é fortemente contestada por ativistas que defendem, em vez disso, a eliminação gradual dos combustíveis fósseis que aquecem o planeta.
'A única maneira de minimizar os danos é reduzir as emissões agora...
e não adiar a ação com soluções tecnológicas especulativas', disse Lili Fuhr, da organização de campanha CIEL.
ONU afirma que aumento das temperaturas globais acima de 1,5ºC é 'realidade'
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