Às vésperas de sua 81ª Assembleia Geral, a ONU vive sua maior crise. Sem conseguir encontrar soluções para a série de conflitos atuais e sem recursos financeiros, a Organização das Nações Unidas vive um dilema existencial. A tensão geopolítica de fora rebate dentro: a três meses de se encerrar o mandato do português António Guterres, os membros do Conselho de Segurança não entram em acordo sobre seu sucessor ou sua sucessora.
No sábado (19 de setembro) a ex-presidente do Chile Michelle Bachelet anunciou a decisão de retirar sua candidatura. Foi um reflexo ao baixo apoio e à alta rejeição – na véspera, na votação informal do Conselho de Segurança, obteve apenas um voto a favor e 11 contrários.
Sua candidatura era apoiada pelo Brasil e pelo México, mas tinha forte oposição, principalmente dos Estados Unidos.
O alto índice de rejeição também afeta as outras sete candidaturas, o que parece indicar que nenhuma tem chance e que surgirão novos nomes na disputa.
Quem tem desempenhado melhor, por assim dizer, é a economista Rebeca Grynspan, ex-vice presidente da Costa Rica e ex-secretária-geral da Unctad, a organização de comércio e desenvolvimento da ONU. Na última votação informal teve nove votos a favor, mas cinco contrários, o que indica que seu nome não inspira.
O segundo lugar é de Carolyn Rodrigues Birkett, ex-ministra de Relações Exteriores da Guiana (oito votos de apoio e seis contra). O diplomata argentino Rafael Grossi, atual diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica tem o apoio dos EUA e forte oposição dos demais (cinco votos a favor e oito contra). Os outros nomes têm desempenho ainda pior.
A indefinição não é algo insólito a esta altura do processo, mas o alto índice de rejeição dos candidatos, sim.
A eleição de um novo secretário-geral segue regras não oficiais, por mais estranho que pareça. É assim há 80 anos.
A primeira regra não-oficial é que deve haver uma rotação entre as regiões – agora seria a vez da América Latina e Caribe. Quem decide são os 15 membros do Conselho de Segurança, sendo que os cinco permanentes (Estados Unidos, China, França, Reino Unido e Rússia) têm poder de veto – ou de “desencorajar” um candidato, pelo jargão da diplomacia.
Todos os candidatos têm que conseguir ao menos nove votos entre os 15 membros do Conselho, e, principalmente, não ser vetado por nenhum dos cinco membros permanentes. Cabe à Assembleia Geral confirmar o escolhido.
Há várias rodadas informais de votação, todas fechadas e teoricamente, secretas, mas os segredos vazam dada a importância da sessão. Na primeira fase de sondagens a intenção dos membros do Conselho é de ainda mais mistério já que não há distinção entre os votos dos membros permanentes e os outros. Não é possível saber se algum candidato foi realmente vetado. Até agora, o sucessor de Guterres teve três destas sondagens informais, as “straw polls”.
O que se espera é ter um sucessor da América Latina e Caribe e, possivelmente, a primeira mulher a exercer o posto.
Por ora, tem sido difícil encontrar um nome que entusiasme. Especula-se com novas candidaturas como a de Alicia Bárcena Ibarra, diplomata e bióloga mexicana. É atual ministra do Meio Ambiente do México, já foi ministra de Relações Exteriores e secretária-executiva da Cepal. Também María Ángela Holguín foi mencionada, diplomata colombiana que foi ministra de Relações Exteriores. Não se sabe, contudo, se estes nomes já foram descartados.
Tamanha indefinição é incomum. A eleição conturbada de Kofi Annan só se resolveu em dezembro de 1996, quando assumiu como primeiro secretário-geral negro da ONU. Mas ali o impasse era apenas entre dois membros, os Estados Unidos e a França. Agora a escolha do novo secretário-geral não parece ter consenso algum.
Em 28 de setembro deve haver outra sondagem informal, mas agora com o uso de cédulas que irão diferenciar os votos dos membros permanentes dos demais. O que se espera é que nos próximos dias, com a reunião de chefes de Estado e de governo, novas conversas possam resultar em novos nomes.
O processo, longo e imprevisível, tem data para encerrar. Guterres deixa o posto em 31 de dezembro. Seu sucessor ou sucessora assume em 1° de janeiro de 2027.
A indefinição é, contudo, um indicador do paradoxo da ONU. Enfraquecida política e financeiramente, a Organização das Nações Unidas continua demonstrando ser uma instituição globalmente relevante e objeto de atenção das superpotências.
Valor