ONG denuncia ao menos 27 mortos em manifestações no Irã; Teerã registra novos confrontos

 

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Pelo menos 27 manifestantes, incluindo cinco menores de idade, morreram desde o início dos protestos no Irã, no final de dezembro, segundo um balanço divulgado nesta terça-feira pela ONG Iran Human Rights (IHR), com sede na Noruega. A IHR acusa as forças de segurança de terem matado pelo menos seis pessoas em um único incidente no sábado, quando abriram fogo contra manifestantes no distrito de Malekshahi, na província de Ilam, no oeste do país. Enquanto isso, novos confrontos ocorreram no Grande Bazar de Teerã, pulmão econômico do Irã, também nesta terça-feira.

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"Pelo menos 27 manifestantes morreram por disparos ou outras formas de violência perpetradas pelas forças de segurança em oito províncias", escreveu a organização em seu site após dez dias de protestos, acrescentando que mais de mil pessoas foram presas. A organização relata que, no domingo, as forças de segurança invadiram um hospital em Ilam para onde manifestantes feridos de Malekshahi haviam sido levados e prenderam várias pessoas.

Novos confrontos com a polícia ocorreram nesta terça. "Liberdade! Liberdade!", gritavam os manifestantes no mercado, onde dezenas de pessoas foram dispersadas com gás lacrimogêneo pelas forças de segurança, segundo vídeos divulgados pela IHR e por outra organização com sede nos Estados Unidos, a Human Rights Activists News Agency.

Os manifestantes também gritaram "Pahlavi voltará", em referência à dinastia derrubada pela Revolução Islâmica de 1979, e "Sayid Ali será derrubado", conforme mostram imagens cuja autenticidade foi verificada pela AFP. Referiam-se ao líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei.

A agência iraniana Fars informou sobre "concentrações esporádicas" dispersadas pela polícia. Algumas partes do bazar foram fechadas "a partir do meio-dia" em sinal de "protesto contra o aumento da taxa de câmbio das moedas estrangeiras e a instabilidade dos preços", disse a Fars.

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Em todo o país, os protestos se espalharam por pelo menos 26 das 31 províncias do Irã, com manifestações de estudantes em mais de 20 universidades, segundo a IHR. De acordo com comunicados oficiais divulgados pela mídia iraniana, pelo menos 13 pessoas morreram desde o início dos protestos, incluindo membros das forças de segurança.

"A República Islâmica tem um histórico documentado de repressão sangrenta e assassinatos em massa de manifestantes em levantes anteriores", disse Mahmod Amiry Moghadam, diretor da IHR. "Considerando que o regime está agora mais instável do que nunca e teme seriamente por sua sobrevivência, há grande preocupação de que a escala da repressão desta vez possa ser ainda mais violenta e generalizada do que antes".

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Desafio a Khamenei

A República Islâmica enfrenta a onda de protestos mais grave desde as manifestações de 2022-2023, desencadeadas pela morte sob custódia de Mahsa Amini, detida por supostamente violar os rígidos códigos de vestimenta para as mulheres.

Os protestos atuais foram provocados pelo descontentamento com o aumento do custo de vida. O movimento atinge ou atingiu pelo menos 45 cidades, situadas sobretudo no oeste do país, onde vivem minorias curdas e lures, segundo um levantamento da AFP baseado em anúncios oficiais e de meios de comunicação.

Os protestos desafiam Khamenei, de 86 anos e no poder desde 1989, e eclodem em um momento em que o país está enfraquecido após a guerra com Israel em junho e os golpes sofridos por vários de seus aliados regionais. Além disso, a ONU restabeleceu em setembro as sanções pelo programa nuclear iraniano.

O governo anunciou no domingo uma ajuda mensal equivalente a cerca de sete dólares por pessoa, durante quatro meses, para "reduzir a pressão econômica sobre a população". Mas a Justiça iraniana advertiu que não mostrará "nenhuma indulgência" com quem perturbar a ordem.

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Segundo vídeos publicados nas redes sociais, muitas pessoas teriam sido presas, especialmente na cidade de Yasuj, no oeste do país.

Os incidentes não são noticiados de forma detalhada, o que dificulta a avaliação dos fatos. Vídeos das mobilizações circulam nas redes sociais, mas nem todos conseguem ser verificados. E a moeda nacional, o rial, perdeu mais de um terço de seu valor em relação ao dólar em um ano, e uma inflação de dois dígitos vem enfraquecendo há anos o poder de compra da população iraniana.