Onde o resíduo tem valor: eletrônicos, embalagens e roupas retornam à economia ou viram insumo de novos produtos

 

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A economia circular se confunde com a trajetória do empresário Renato Novis. Aos 7 anos, órfão de pai, revendia seus brinquedos e gibis para tentar “ajudar em casa”. Nada ia para o lixo. Nos anos 2000, ele percorreu garimpos com a tia de uma ex-namorada que comprava pedras brutas para lapidar e revender para joalheiros. Ali, começava sua história de empreendedor, que hoje une duas paixões: joias e reutilização de materiais.

Em 2007, ele criou a Repense, startup carioca que recolhe lixo eletrônico para extrair metais como ouro, prata, cobre e paládio para produzir brincos, anéis e alianças. O PMW (purified metal from waste, isto é, metal depurado do lixo), uma matéria-prima obtida do tratamento de resíduos, dá novo curso econômico a materiais que já saíram da natureza, eliminando a necessidade de buscá-los em minas.

Um negócio similar aos que empresas de vários portes estão gerando a partir de princípios da economia circular.

Segundo a Repense, uma joia fabricada com PMW gera até 99% menos impacto no planeta que as produzidas com material virgem. O que vai para o lixo tem valor para a startup, que desenvolveu formas de extrair metais nobres de placas de circuito interno de celulares, notebooks, tablets e computadores, entre outros aparelhos que empresas têm dificuldades de descartar corretamente.

Renato Novis, líder da Repense, faz um verdadeiro garimpo no lixo eletrônico para obter matéria-prima para suas joias

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A Repense coleta e concentra essa “sucata” num galpão que mantém na região portuária do Rio. Ali também chegam televisores, caixas de som, DVDs e eletrodomésticos. Aí, começa o garimpo sustentável: triagem, desmonte de equipamentos e separação dos materiais.

— Analisamos tudo, se é caso de reúso (utilizar novamente um produto ou componente), reciclagem (processar resíduos para transformá-los em matéria-prima para novos produtos) ou upcycling (criar itens de maior valor agregado a partir de materiais descartados, sem degradar suas propriedades). A prioridade é o reúso. Tudo o que pode ser reaproveitado a gente reaproveita — explica o empresário, que também recondiciona aparelhos como TVs e computadores.

Associada ao Parque Tecnológico da UFRJ como a Repense, a Circoola faz coletas domiciliares na Região Metropolitana do Rio há quatro anos, dando um destino a uma série de aparelhos, daqueles celulares antigos esquecidos numa gaveta a grandes eletrodomésticos fora de uso. O que não pode ser consertado ou reaproveitado vai para a manufatura reversa das indústrias.

Insumo nas gavetas

Lucas Palazzo, diretor de Operações da Circoola, cita estimativas de que 80% dos resíduos eletrônicos domésticos — como pilhas, baterias, fones, computadores e celulares antigos — estão acumulados nas próprias residências, onde as famílias não sabem bem como descartá-los. O galpão da empresa na Zona Norte do Rio recebe 2 mil coletas por mês, incluindo geladeiras, micro-ondas e máquinas de lavar.

— O lixo eletrônico não para de aumentar porque as pessoas não param de consumir tecnologia. E não é só a obsolescência programada, quando o aparelho quebra. Existe também a obsolescência percebida, quando um celular é posto de lado porque não tem a melhor câmera ou IA embutida, mas o telefone ainda funciona — diz Palazzo, que foca no valor do que pode parar no lixo. — Uma vez que você manda o material para um aterro, nunca mais o vê. Mercúrio e cádmio prejudicam o meio ambiente, e aquele ouro (do lixo eletrônico) não se acessa mais. Isso cria escassez de recursos a longo prazo. O lixo é um erro de design. É preciso repensar o processo.

Produtos programados para durar pouco vão na contramão da proposta da economia circular, que é estender ao máximo o uso dos produtos com reparos e remanufatura. Para isso, é preciso que os artigos já sejam concebidos com características que facilitem essa recirculação.

Foi o que fizeram Leonardo Drummond e Eduarda Vieira em 2016 ao fundar a Kuba, que fabrica fones com peças que podem ser trocadas, embora não estivessem conscientes de que embarcavam na economia circular.

O foco era a frustração de quem já teve que descartar um fone com pouco tempo de uso por um cabo com mau contato ou rompido, justamente o que aconteceu com Drummond poucos meses depois de ele ter comprado um importado de US$ 500.

Formado em design de produto, ele foi movido por esse sentimento a desenvolver um fone com boa qualidade de áudio, mais resistente e modular.

‘Respeito com o cliente’

A Kuba tem hoje vários modelos, parte deles montada artesanalmente no Rio. Vendeu 5 mil exemplares só em 2025.

— Cabo ou almofada de fone é que nem pneu. É perecível, um dia vai ter de trocar. E ninguém joga o carro fora — diz o empresário, que viu o comércio de peças para manutenção, personalização ou melhora na performance dos produtos virar uma importante receita da Kuba. Foi 15% do faturamento de R$ 8,7 milhões do ano passado, mas chegou a 24% no anterior. — Claro que queremos ter o menor impacto ambiental possível, mas nossa principal motivação foi oferecer um produto durável, mais respeitoso com o cliente. E, em última instância, isso virou um forte fator de fidelização.

Para adotar garrafas PET retornáveis, a Coca-Cola redesenhou sua linha de embalagens. Eliminou o plástico colorido e padronizou para facilitar o reúso

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Começar do zero foi também a solução encontrada pela Coca-Cola Brasil para reutilizar garrafas de vidro e PET em vez de só reciclá-las. A companhia redesenhou sua linha de embalagens, adotando o mesmo modelo transparente para seus diferentes refrigerantes. O ecodesign desenvolveu peças com plástico mais leve e resistente, rótulo de papel e tampas que consomem menos material.

Atualmente, 25% das embalagens de Coca-Cola, Sprite e Fanta já são retornáveis. Podem ser reenvasadas, após um processo de higienização, até 25 vezes antes da reciclagem.

— A visão da empresa sobre resíduos é focada no design de embalagens e em parcerias (com cooperativas de catadores) para coleta. A atuação vai desde como garrafas e latas são projetadas e fabricadas até como são recicladas, reutilizadas e descartadas. O objetivo é reduzir resíduos por meio do uso, da coleta e da reutilização de materiais reciclados, com estratégias inovadoras de embalagens — diz Katielle Haffner, diretora de Sustentabilidade da Coca-Cola Brasil, que investiu R$ 7 bilhões em sustentabilidade no ano passado.

Do lixo ao novo fio

Outra iniciativa da multinacional americana no Brasil é a rastreabilidade das embalagens. A Solar Coca-Cola, fabricante que atua em Norte, Nordeste e Centro-Oeste, está implantando em algumas fábricas um QR Code a laser nas garrafas. O projeto, que começou com a Coca-Cola América Latina, no Chile, em 2023, gera dados de todo o ciclo (do envase ao retorno).

A empresa diz já ter recolhido mais de 23 mil toneladas de PET desde 2021, o que corresponde a 55% do que fabrica. Em cinco estados, alcançou a “neutralidade de PET”, recolhendo a mesma quantidade de garrafas que coloca no mercado. A meta é alcançar 100% de toda a operação até 2030, segundo Fabio Acerbi, diretor de Relações Externas da Solar.

O que não dá para ser reutilizado ainda pode voltar à economia com reprocessamento. É o que faz o Grupo Malwee, que produz têxteis e roupas em Santa Catarina, no projeto Fio do Futuro. Moletons são fabricados a partir de fios de algodão obtidos de roupas descartadas por meio de desfibragem.

Esses fios respondem por 85% dos insumos de novas peças, cuja composição é complementada com 15% de poliéster. Assim, cada moletom produzido com esse fio emite 44% menos de CO² e consome 33% menos de água que o fabricado tradicionalmente.

Segundo Renato Martins, gerente de Comunicação e Sustentabilidade do Grupo Malwee, esse processo poderia ser economicamente mais atraente para a indústria têxtil se houvesse incentivos fiscais a projetos desse tipo. Hoje, por exemplo, a empresa paga imposto sobre tudo o que adquire de material têxtil em aterros sanitários, ainda que tire dali poucas peças com algodão em boas condições para desfibrar.

— Monetariamente, não há motivos para fazer isso. Você faz porque acredita no menor impacto — diz o executivo, que cobra leis que obriguem empresas a lidar com o impacto ambiental, equalizando as condições competitivas. — Nossa legislação não é madura. É preciso um empurrão do Estado, como vem sendo feito na Europa.

*Carolina Almeida, especial para O Globo