Onde começou e como aconteceu a pior epidemia de ebola na História
A rapidez com que um surto de ebola está se espalhando na República Democrática do Congo (RDC), no Oeste da África, motivou um alerta global de emergência decretado pelo diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus. Além disso, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse, nesta terça-feira, que está preocupado com o surto, depois que um médico americano foi contaminado pelo vírus da febre hemorrágica no país africano.
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Suspeita-se de 140 mortes causadas pela doença nas últimas semanas, e o número deve aumentar, de acordo com a OMS, que vem adotando medidas de contenção. O risco de epidemia global é baixo, segundo a entidade, mas existe receio de o surto atual repetir a maior crise de ebola na História, que matou mais de 11 mil pessoas entre 2013 e 2016. Os óbitos ocorreram, principalmente, na Libéria, em Serra Leoa e na Guiné, mas países como Estados Unidos, Itália e Reino Unido tiveram mortes isoladas.
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O ebola é uma doença com alto índice de letalidade. O vírus que provoca a febre hemorrágica tem origem na natureza. Seus hospedeiros são morcegos comedores de frutas. A primeira infecção em um humano ocorreu justamente pelo contato com secreções desses animais, e a doença foi formalmente identificada em uma pessoa no ano de 1976 durante dois surtos simultâneos e isolados, em vilarejos no atual Sudão do Sul e no Congo, próximo ao Rio Ebola, que deu nome ao vírus.
Mulher infectada com ebola deixada no chão em Monróvia, na Libéria, em 2014
Arquivo/AFP
Os primeiros sintomas do ebola podem surgir em até 21 dias depois da exposição ao vírus. No início, a doença se parece com enfermidades como malária, que é comum no Congo, além de gripe ou dengue. Por isso, muitas vezes, o sistema de saúde local demora para emitir um alerta. Depois, o quadro de saúde evolui para febre hemorrágica, diarreia severa, dores abdominais e sangramentos internos e externos. Segundo a OMS, a taxa média de letalidade da doença chega a estarrecedores 50%.
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Na epidemia ocorrida entre 2013 e 2016, foram mais de 28 mil casos documentados, com cerca de 11 mil óbitos. A maioria das mortes foi observada na Libéria, onde quase 5 mil pessoas faleceram, e em Serra Leoa, que registrou algo perto de 4 mil mortes. Mas a crise gerada pela doença na época levou preocupação ao mundo todo. Até no Brasil houve dois casos suspeitos, em homens recém-chegados da Guiné, em 2014 e 2015. Protocolos foram adotados, mas a hipótese foi descartada em ambos.
A origem do surto em vilarejo na Guiné
Pesquisadores descobriram posteriormente que a trágica epidemia começou em dezembro de 2013, quando um menino de 2 anos chamado Émile Ouamouno morreu na vila de Meliandou, na Guiné. Sua mãe, irmã e avó também faleceram. A doença se espalhou durante meses sem que fosse identificada. Em março de 2014, autoridades no país africano falavam em uma "misteriosa" febre hemorrágica que "atinge como um raio". Dias depois, o governo local confirmou que se tratava de ebola.
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Logo em seguida, casos da doença começaram a aparecer em vários países vizinhos. O surto seguiu se espalhando rapidamente. Fronteiras foram fechadas, aulas foram suspensas e governos de vários países enviaram profissionais para ajudar no combate ao problema. Em junho, a organização Médicos Sem Fronteiras declarou que o surto estava "fora de controle". No fim do mês, a OMS informou que havia 779 casos e 481 mortes, mas especialistas diziam que os números estavam subestimados.
Simulação de chegada de paciente com ebola na Fiocruz, no Rio, em 2014
Gabriel de Paiva/Agência O GLOBO
O ebola é altamente contagioso. O vírus é transmitido entre humanos por meio do contato com fluidos de pessoas infectadas. Entre os fatores que agravaram o problema em 2014, estavam rituais fúnebres típicos de áreas afetadas, onde os corpos dos mortos são lavados por seus parentes sem nenhuma proteção. Além disso, as fronteiras entre os países naquela região da África são muito permeáveis, e os governos tinham muita dificuldade em impedir o trânsito de cidadãos contaminados.
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Em agosto de 2014, mais de 1,4 mil pessoas tinham morrido, sendo que 120 médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde que estavam na linha de frente da epidemia. No mesmo mês, a OMS decretou a crise como uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional. Mesmo assim, o ebola continuou se espalhando até alcançar um período mais crítico, em outubro de 2014, quando a epidemia atingiu o seu pico de novos casos semanais. O número de mortos passava de 5 mil.
A maioria dos pacientes identificados em áreas distantes do surto, na Europa, nos Estados Unidos e na Austrália, eram profissionais de saúde ou missionários religiosos que haviam atuado nos países onde a epidemia grassava. Em novembro de 2014, o médico Martin Salia, cidadão de Serra Leoa que atuava na capital do país africano mas tinha residência nos Estados Unidos, foi diagnosticado com ebola em território americano. Ele morreu no Centro Médico de Universidade de Nebraska.
Ao longo de 2015, as medidas de contenção, como o isolamento adequado dos doentes e a orientação sobre a segurança nos funerais, surtiram o esperado efeito, e a epidemia perdeu força. Em março de 2016, depois que todos os países afetados completarem 42 dias (o dobro do período de incubação do vírus) sem novos casos de ebola, a OMS declarou o fim da emergência global. Antes daquela crise, o maior surto da doença havia registrado 425 pessoas infectadas.
