A presença frequente de raposas em vários complexos residenciais no norte de Bogotá, especialmente na cidade de Usaquén, despertou alertas entre os moradores da região e reabriu um debate crucial sobre o manejo da vida selvagem nas fronteiras urbanas adjacentes às Colinas do Leste. Vídeo: Hipopótamo persegue veículo em estrada na Colômbia Engano: Família resgata filhote pensando ser cachorro e descobre que era uma raposa após um mês de cuidados Diante dos avistamentos repetidos, a Corporação Regional Autônoma de Cundinamarca (CAR) enviou equipes técnicas para realizar visitas de campo e inspeções nas áreas florestais e perimetrais sob sua jurisdição. O objetivo prioritário dos profissionais da entidade era avaliar o estado dos ecossistemas locais e verificar se havia pressões ambientais ou antrópicas que estavam forçando o deslocamento massivo desses mamíferos para as ruas e unidades residenciais. Após análises preliminares, a RCA descartou emergências ecológicas graves na reserva: não foram encontradas evidências de incêndios florestais recentes, desmatamento ilegal em larga escala, perda crítica-drástica da cobertura vegetal devido à seca ou outros fatores de alteração humana que explicam a fuga forçada da espécie da montanha. Um fenômeno com raízes na pandemia e na disponibilidade de alimentos As investigações conjuntas entre a RCA e a Secretaria Distrital do Meio Ambiente (SDA) concordam que a aproximação desses animais às áreas urbanizadas não é um fato novo, mas um comportamento que começou a ser adotado como resultado das dinâmicas sociais dos últimos anos. Em conversas com o El Tiempo, Maribell Cerón Rozo, bióloga especialista da Diretoria de Biodiversidade da RCA, detalhou os fatores históricos e comportamentais que desencadearam essa situação. — De acordo com os passeios que fizemos e as conversas com a comunidade ao redor, esses avistamentos ficaram mais evidentes a partir da pandemia em 2020. Devido às restrições de saúde, não havia presença constante de pessoas nas ruas — disse a bióloga. Água rasa: Homem morre após saltar de píer e mergulhar de cabeça no mar na Turquia Cerón também explicou que, para as raposas, os humanos foram entendidos por elas como "a figura de um possível predador; quando não nos viram, entenderam que essa ameaça havia sido eliminada e começaram rotas mais longas do que o habitual, descendo das colinas e áreas verdes para áreas urbanas quando não encontraram rejeição", acrescentou. A essa perda do medo natural dos seres humanos se soma um elemento determinante: acesso fácil e ininterrupto a fontes de energia de alto valor calórico dentro da infraestrutura urbana. Raposas foram capturadas nos últimos dias em Bogotá, na Colômbia Reprodução / Jorge Zuluaga via El Tiempo A bióloga da RCA explicou que, em áreas gastronômicas como as de Usaquén, há resíduos orgânicos constantes que atuam como atração para esses onívoros. Portanto, ao encontrar descartes de comida humana, frutas ou lixo expostos durante os dias de coleta, as raposas identificaram uma fonte de alimento muito mais rápida e acessível do que a busca ativa por presas ou frutos nativos nas colinas. Essa disponibilidade incentivou vários exemplares a rondar as áreas residenciais. Por sua vez, Magdala Iregui, diretora técnica de Biodiversidade da RCA, enfatizou a importância de não estigmatizar os espécimes nem tratá-los como uma ameaça à população: — A presença de raposas em setores próximos à cidade não deve ser interpretada como uma ameaça, mas como um chamado para fortalecer nossa convivência com a vida selvagem. Resistência: Meninas desafiam o Talibã e frequentam escola secreta no Afeganistão: ‘Nós também fazemos parte desta sociedade’ Monitoramento tecnológico nas Colinas Orientais Para obter dados científicos precisos sobre a dinâmica populacional da espécie, a RCA anunciou a instalação de um sistema de câmeras armadilhas em pontos estratégicos das Colinas Orientais e seus conectores ecológicos. Essa ferramenta tecnológica permitirá: Rastrear rotas comuns de transporte. Análise os hábitos noturnos e diurnos das raposas. Mapeio seus padrões de rolagem. Identificar se há indivíduos permanentemente acostumados ao ambiente urbano. As informações coletadas servirão como base técnica para estruturar um plano abrangente de manejo e conservação da vida selvagem na interface entre a cidade e a montanha. Não é peixe: Homem pesca em rio na Alemanha e encontra carro roubado que estava submerso há mais de 50 anos Riscos à saúde e mitos sobre a espécie Um dos principais desafios identificados pelos especialistas está na percepção que os cidadãos têm desses animais. Possuindo características físicas semelhantes às de um cão doméstico, é comum que as pessoas tentem alimentá-los, tirar fotos deles ou tratá-los como animais de estimação, o que gera um impacto negativo irreversível em seu comportamento natural. Nesse aspecto, Maribell Cerón alertou que tais ações podem gerar alteração do ecossistema urbano e, por outro lado, o contato próximo com pessoas e animais de estimação facilita a disseminação de doenças zoonóticas altamente graves, como cinomose e raiva. Da mesma forma, a vegetação nativa das colinas geralmente atua como uma barreira biológica de contenção contra vírus e patógenos. Quando essa barreira natural é quebrada, humanos e animais de estimação são expostos a agentes infecciosos que a vida selvagem naturalmente transporta em seu ambiente florestal. Deve-se esclarecer que, segundo a bióloga, o temperamento das raposas geralmente é reservado e passivo; ela lembrou que, diante de uma ameaça de um cachorro ou de uma pessoa, elas respondem ativando seu instinto defensivo. Em relação à terminologia apropriada, a RCA esclareceu que denominações como 'raposa comedora de caranguejos' (comum no Caribe) ou 'raposa cachorra' (frequente na região andina) obedecem aos idiomatismos regionais. No entanto, a autoridade ambiental sugeriu usar apenas a palavra 'raposa' para não induzir a comunidade a associar a espécie aos cães domésticos. Quanto à composição dos grupos observados em Usaquén, as inspeções técnicas e registros fotográficos confirmaram que não se tratam de grandes manadas ou grupos com fêmeas grávidas, mas de pares ou pequenos núcleos familiares compostos por adultos e seus filhotes ou juvenis. Recomendações Para prevenir incidentes que comprometam a segurança da comunidade ou o bem-estar animal, as autoridades enfatizaram o cumprimento rigoroso das seguintes diretrizes: Distanciamento rigoroso: mantenha uma distância prudente e evite qualquer tentativa de se aproximar, tocar ou incomodar os espécimes. Zero comida: não forneça resíduos de alimentos humanos, frutas ou ração processada para pets. Essa prática altera drasticamente sua dieta natural e quebra seus hábitos de caça e o consumo de frutas nativas. Gestão adequada de resíduos: deposite o lixo em recipientes fechados e cumpra rigorosamente os dias e horários estabelecidos pela empresa de limpeza, evitando que sacos fiquem expostos em vias públicas. Animais de estimação sob controle: sempre passeie com os cães na coleira em áreas verdes ou estradas próximas às áreas naturais para evitar brigas, mordidas ou contágio de vírus. Proibição de manipulação: Se um animal ferido, atropelado, preso ou encurralado for detectado, nenhuma tentativa deve ser feita para capturá-lo ou manuseá-lo diretamente. A preservação das raposas nas Colinas Orientais de Bogotá não depende apenas do trabalho técnico das instituições ambientais, mas também do compromisso dos cidadãos com a adoção de hábitos responsáveis e respeito aos limites da vida selvagem, concluiu a bióloga Maribell Cerón.
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Oferta de comida e isolamento na pandemia contribuem para aproximação de raposas de áreas urbanas na Colômbia; entenda
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O Globo
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