Ocupando espaços: Andy Gercker fala sobre o sucesso em 'Tô de Graça' e sua estreia no suspense teatral
A partir do dia 23 de abril, o subúrbio mais famoso do Multishow ganha novos contornos e um bocado de poeira. A oitava temporada de "Tô de Graça" estreia com a protagonista Graça (Rodrigo Sant’anna) tentando esticar seus minutos de fama após uma passagem rejeitada por um reality show. Enquanto ela circula pelos Estúdios Globo em busca de publis e cliques, a comunidade ferve com a construção de um túnel que promete revirar a rotina da família. No epicentro desse furacão está Maico, interpretado por Andy Gercker. O personagem, que se tornou um dos pilares do humorístico, retorna mais solar e, se possível, ainda mais autêntico.
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Para Andy, o papel vai muito além do figurino exuberante: é um exercício de liberdade.
"O Maico me ensinou a coragem de existir sem pedir desculpas. Ele é um personagem que não negocia a própria presença no mundo, e isso, pra mim, foi profundamente transformador", compartilha o ator em entrevista à ELA.
Andy Gercker adianta as loucuras da 8ª temporada de 'Tô de Graça'
Divulgação Ju Coutinho / Multishow
Confira o bate-papo exclusivo sobre carreira, a influência da neurociência em sua atuação e o novo espetáculo teatral "Muito Dinheiro Envolvido".
O Maico parece ser um divisor de águas na sua carreira. Ao chegar à oitava temporada, qual a principal "lição de vida" que esse personagem te ensinou? Como o Andy de hoje se diferencia do Andy de antes?
O Maico me ensinou a coragem de existir sem pedir desculpas. Ele é um personagem que não negocia a própria presença no mundo, e isso, pra mim, foi profundamente transformador. No início da minha carreira, eu ainda tentava caber em certos formatos, talvez até suavizar quem eu era. Acho engraçado me referir em terceira pessoa, mas o Andy de antes era educado demais com o mundo, às vezes até submisso. Hoje não. Agora eu entendo que o que realmente conecta é justamente aquilo que foge do padrão. Profissionalmente, fiquei mais consciente do meu instrumento de trabalho e mais responsável com o que eu comunico. Enquanto pessoalmente, aprendi a rir de mim com mais generosidade, o que, no fundo, é uma forma de liberdade.
Sua formação em neurociência influencia sua construção de personagens? O que te motivou a unir esses dois mundos?
A neurociência me deu uma lente muito interessante sobre comportamento humano. Eu parei de acreditar em personagem "coerente". O cérebro humano não é coerente, ele é contraditório, repetitivo, meio obsessivo e, às vezes, francamente ridículo. Ou seja, um prato cheio pra comédia. O que me motivou foi justamente a inquietação. Eu sempre quis entender por que sentimos o que sentimos e como isso se manifesta no nosso corpo. O teatro me dá o caos, a neurociência tenta organizar. No fim, nenhum dos dois resolve completamente, mas talvez seja exatamente isso que me interessa.
O humor como ferramenta de cura. Qual o papel do riso hoje? Como a comédia transformou sua visão de mundo?
A comédia me ensinou a olhar para o trágico com uma certa elasticidade. A dor continua ali, mas ela ganha movimento. E quando algo se move, já não está completamente paralisado. Acho que o humor tem um papel social importante: ele pode revelar contradições sem ser panfletário. Eu acredito no riso como uma forma de elaborar o absurdo da existência. Tem dias que a gente tá sofrendo e de repente percebe que a situação é tão absurda que só resta rir. Isso já é uma forma de respiro. O humor desarma, e só assim a gente consegue escutar e escapar um pouco dos nossos problemas.
Andy Gercker celebra amadurecimento na TV: 'Aprendi a existir sem pedir desculpas'
Divulgação Jeferson Medrado
O visual do Maico é icônico. Existe uma inspiração específica? E no seu guarda-roupa pessoal, ficou algo dele?
O Maico nasce de uma mistura muito intuitiva de referências: cultura pop, exagero, irreverência e uma certa liberdade estética que não pede autorização. Tenho também a sorte e o privilégio de trabalhar com a talentosa Paula Stroher, nossa figurinista desde a primeira temporada do programa. Juntos, fomos criando uma relação de confiança e liberdade ao longo desses anos. A Paula monta um guarda-roupa extraordinário para o Maico e deixa tudo no meu camarim. Isso me permite montar os looks do dia conforme o meu estado de espírito, conforme as necessidades do episódio e principalmente com aquilo que me deixa mais confortável em cena. Uma conquista rara para um ator. A gente se diverte antes mesmo de entrar no estúdio para gravar, montando os figurinos excêntricos de Maico Marrone Jackson. Na minha vida pessoal, eu não chego nesse nível de excessos, mas confesso que ele me deixou mais aberto. Hoje eu tenho muito menos medo de experimentar e de ousar um pouco mais. Talvez eu não leve o figurino inteiro pra casa, mas com certeza levo a atitude.
Sobre "Muito Dinheiro Envolvido": o que o público pode esperar? Como é transitar entre TV e teatro?
Transitar entre TV e teatro é quase mudar de metabolismo. Na TV, você fragmenta, grava em pedaços, ajusta depois. No teatro, você sustenta, é ao vivo, sem filtro, sem edição, com o risco acontecendo diante de todo mundo. E nessa peça especificamente, não tem muito pra onde fugir: ou você se entrega, ou ela te engole. O público pode esperar uma experiência que mistura riso, estranhamento e identificação. 'Muito Dinheiro Envolvido' é uma comédia de suspense nonsense com texto de minha autoria que brinca com o absurdo de dois trabalhadores precarizados infiltrados numa festa beneficente onde acontece a maior lavagem de dinheiro da América Latina. Aos poucos, a história vai revelando um jogo maior, onde luxo, arte, espiritualidade e crime se confundem. Os personagens mergulham num universo onde tudo está à venda, inclusive a ética, a fé e as relações. A gente fala de dinheiro, mas fala principalmente do que ele promete e não entrega. No fim, fica uma sensação curiosa: você ri bastante, mas sai com a impressão de que participou de alguma coisa maior e talvez um pouco perigosa. Estou muito feliz em realizar esse projeto ao lado de Fernanda Magnani, uma brilhante atriz, amiga de longa data e de entrar em circulação pelos palcos brasileiros.
Como sua relação com o público mudou? E como você lida com críticas?
Mudou bastante. Com a visibilidade da televisão, hoje existe um reconhecimento mais imediato, um carinho muito direto, o que é lindo. Mas também vem uma expectativa maior e eu procuro lidar com isso sem perder o eixo. Nas redes, tudo é muito rápido: amor imediato ou rejeição instantânea. No teatro, existe um tempo maior de convivência. O público está disposto a mergulhar, a permanecer. São experiências complementares. Sobre críticas, eu tento não romantizar nem demonizar. Algumas ajudam, outras são só ruído. Quando fazem sentido, eu escuto, quando não fazem, eu deixo passar. O importante é não deixar que nenhuma delas defina completamente o meu trabalho, acho fundamental preservar um espaço interno que não seja totalmente atravessado pelo olhar do outro. Para mim, o maior desafio é continuar criando sem ficar refém da aprovação. Mas uma coisa é fato, adoro ser reconhecido pelo público e de observar a reação de cada um deles quando me encontram.
