Obras de novas ciclovias começam na Conde de Bonfim, onde mãe e filho foram atropelados; implantação será escalonada pela cidade

 

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As obras da nova ciclovia na Rua Conde de Bonfim, na Tijuca, Zona Norte do Rio, começaram nesta manhã deste domingo (12). A intervenção teve início às 9h e foi anunciada pelo prefeito Eduardo Cavaliere (PSD) dias após o atropelamento que matou Emanoelle Martins Guedes de Farias, de 40 anos, e de seu filho, Francisco Farias Antunes, de 9, em um acidente com um ônibus no mesmo trecho. As obras fazem parte de um plano de expansão da malha cicloviária da cidade.

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Obras de nova ciclovia na Rua Conde de Bonfim

Domingos Peixoto / Agência O GLOBO

A estrutura será instalada ao longo do canteiro central da via, entre a Praça Saens Peña e a Rua Uruguai. Segundo o prefeito a meta é ter mais 50 quilômetros de pistas exclusivas para bicicletas na cidade até 2028, a um custo de R$ 20 milhões.

As obras da Conde de Bonfim são apenas o primeiro passo de uma intervenção escalonada, que segue ainda neste domingo, pela cidade. Segundo a prefeitura, os trabalhos na Rua Augusto Severo, na Glória — onde será criada uma ligação cicloviária entre o bairro e a Cinelândia —, têm início previsto para as 20h deste domingo, em função da feira e da movimentação na região. Na sequência, as obras avançam para Botafogo, onde a ciclofaixa será implantada no lado esquerdo da Rua Muniz Barreto, entre as ruas Pinheiro Machado e São Clemente, mantendo o estacionamento ao longo da via.

As novas ciclovias

Editoria Arte

O escalonamento, segundo a prefeitura, visa minimizar os impactos no trânsito e na mobilidade urbana. A previsão é que as três intervenções sejam concluídas em 90 dias.

Mesmo com o início das obras, o movimento de ciclistas na Conde de Bonfim não diminuiu, e muitos seguiam pedalando sem faixa adequada. Um deles era Priscila Decker, que pedala de quatro a cinco vezes por semana e conhece bem o trecho e os riscos que ele apresenta.

— Estamos sempre pedalando na rua porque não tem ciclovia, e correndo riscos, tentando dividir espaço com carro, com ônibus, com moto, com van. Já cansei de escutar: 'sai da rua, vai pra ciclovia', sendo que não tem ciclovia em muitos lugares, então não tem por onde a gente andar, a não ser na rua, porque na calçada também é proibido — contou AO GLOBO.

A ciclista amadora Priscila Decker

Domingos Peixoto / Agência O GLOBO

Para elas, as obras no trecho serão de grande valia:

— Pelo menos vamos ter um lugar para andar. Mesmo que seja estreito, é só para bicicleta. Espero que diminua os acidentes, as pessoas fiquem mais educadas e tenham mais respeito pelo ciclista.

O porteiro Maciel da Silva, morador da Tijuca e ciclista aos domingos, também acredita que as obras podem melhorar a situação de quem circula de bicicleta na região.

— Se fizer essa ciclovia aqui, melhora para a gente andar sem medo. Mesmo que seja um pouco apertado, tem um lugar certo para a gente. Em dias de semana, o movimento multiplica. Quem passa por lá [na Conde de Bonfim], passa com medo, tem que estar atento — disse.

A perspectiva de quem usa a bicicleta como ferramenta de trabalho é parecida. Yago Henrique, entregador que circula de bicicleta há anos entre o centro e a Zona Sul, cita a ciclovia da Rua do Catete como melhoria bem-vinda.

— Ali o tráfego era muito difícil de bicicleta. Colocar em ruas já vai ajudar. Às vezes os carros passam muito próximo, sem necessidade. Esse é o maior risco — afirmou.

Já para o aposentado Eriksom Teixeira, que caminha com frequência por Botafogo, a cidade se tornou perigosa para pedestres que dividem espaço com ciclistas.

— Não basta só criar ciclovia. Tem que ser rigoroso em cobrar o respeito às leis de trânsito. O problema é: pedestre cruza a rua, eles vão ser respeitados? Essa é a questão fundamental.

Outros locais

Também estão previstas ciclovias nas seguintes vias: Avenida Pedro II (São Cristóvão), Rua Barão da Torre (Ipanema), Avenida Henrique Dodsworth (Copacabana), Rua Sacadura Cabral (Gamboa) e Avenida Dom Helder Câmara (Del Castilho), entre outras.

A prefeitura afirma que a cidade tem hoje uma malha de 501 quilômetros de vias destinadas a bicicletas. De acordo com o Data.Rio (o portal de dados abertos do município), ela é dividida em 575 trechos: 233 são faixas compartilhadas com calçadas, 186 dividem espaço com pistas para automóveis, 98 são ciclofaixas e 58, ciclovias. A informação, atualizada em 23 de fevereiro, mostra que apenas 10% dessa rede é de pistas exclusivas totalmente separadas do tráfego.

Em Copacabana, como mostrou O GLOBO, são 40 vias com algum tipo de estrutura cicloviária, somando 18,4 quilômetros de extensão. As ciclovias se concentram na Avenida Atlântica.

Já na Tijuca, onde ocorreu o acidente que matou mãe e filho, são apenas 387 metros de faixa compartilhada com calçada e pouco mais de um quilômetro de ciclofaixa na Rua Uruguai.

Regiões densamente povoadas, como a Zona Norte, e áreas que concentram o maior uso de bicicleta, na Zona Oeste, ainda têm pouca infraestrutura proporcional à demanda.

Novas regras

Antes de anunciar a extensão da malha cicloviária no município, a prefeitura publicou, na segunda-feira, um decreto com novas regras referentes à circulação de bicicletas elétricas, autopropelidos (“motinhas”), ciclomotores e patinetes elétricos na cidade.

A partir de agora, as “motinhas” elétricas não podem mais trafegar nas ciclovias, somente em vias com velocidades de até 60km/h e onde não haja BRS, o corredor exclusivo para ônibus. Para permitir que esses veículos circulem nas avenidas da orla, a velocidade máxima entre o Leme e o Pontal foi alterada, passando de 70km/h para 60km/h.

Embora reconheçam a necessidade de medidas para organizar a circulação desses veículos pelas vias da cidade, usuários reclamam.

— Vai ter mais acidente na pista com esses ciclomotores porque os motoristas não respeitam. A ciclovia é muito mais segura para a gente. O que eles deveriam ter feito é colocar uma regra determinando que os autopropelidos diminuam a velocidade na ciclovia — critica Stephanie Correia, que usa uma “motinha” elétrica para circular pela Zona Sul.