Obituário: Yayoi Kusama fez arte a partir de alucinações e disse que enfrentaria Picasso e Matisse com suas bolinhas coloridas - QTU Questões do Universo

Obituário: Yayoi Kusama fez arte a partir de alucinações e disse que enfrentaria Picasso e Matisse com suas bolinhas coloridas

Fonte: Bandeira da fonte

Em sua autobiografia, de 2002, já consagrada como uma das maiores artistas contemporâneas, a japonesa Yayoi Kusama recordou que, aos 10 anos, começou a ver as flores vermelhas que decoravam uma toalha de mesa se espalharem por toda parte: pelo teto, pelas paredes, pelas janelas e até por seu próprio corpo.
As alucinações acabaram por se tornar a matéria-prima de sua obra, marcada pela repetição infindável de bolinhas coloridas, abóboras, flores e objetos fálicos, entre outras formas.
Ao reproduzi-las continuamente, era capaz de “suprimir o medo” que as alucinações causavam.
“Dedico-me à arte para corrigir a deficiência que começou na minha infância”, disse a artista.
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Em mais de sete décadas de carreira, Kusama criou uma linguagem imediatamente reconhecível, como a arte pop de Andy Warhol ou os retângulos em cores primárias de Mondrian.
Célebre por seu figurino tão chamativo quanto suas telas, esculturas e instalações, pela indefectível peruca vermelha e por ter se internado voluntariamente num hospital psiquiátrico, Kusama se tornou indiscutivelmente um ícone pop.
Hábil na arte da autopromoção, arrastou multidões às suas exposições mundo afora (locais privilegiados para se tirar uma selfie, diga-se) e firmou parcerias com marcas poderosas, como Louis Vuitton, Lâmcome e Audi — suas bolinhas estamparam roupas, bolsas, frascos de cosméticos e até automóveis.
Kusama nasceu em 22 de março de 1929, em Matsumoto, numa família próspera.
Decidiu ser artista ainda na adolescência e, em 1948, matriculou-se numa escola de arte em Kyoto.
Atenta à arte de inspiração surrealista produzida em Paris e Nova York, investiu em obras semiabstratas, nas quais já destacavam os motivos florais, astronômicos e sexuais.
Em 1955, teve três telas expostas no Brooklyn Museum, em Nova York.
Yayoi Kusama em uma das primieras instalações da série 'Infinity mirror room', em 1965
Divulgação
Mudou-se para os EUA em 1957 e, depois de Seattle, se estabeleceu em Nova York.
Ciente da imagem exótica que, como asiática, projetava na cena artística local, apostou no que o crítico de arte Holland Cotter chamou de “orientalismo calculado”, que marcou seu trabalho até a década seguinte.
Na megalópole americana, firmou-se como um dos principais nomes da pop art e do minimalismo.
Suas “Infinity nets” (redes infinitas), pinturas abstratas que evocam movimento por meio de pinceladas precisas e delicadas, fizeram imenso sucesso.
Nos anos 1960, influenciada pelo movimento hippie, Kusama fez uma série de happenings críticos à Guerra do Vietnã em locais como o centro financeiro de Wall Street e a Estátua da Liberdade.
Sob seu comando, voluntários se despiam e ela pintava bolinhas coloridas em seus corpos.
Sua relação com o sexo era complexa.
Ela explorava a nudez em seus happenings, mas disse numa entrevista que, devido a experiências da primeira infância, considerava os órgãos sexuais ameaçadores.
Ainda assim, propôs sexo ao presidente americano Richard Nixon em troca do fim da guerra no Sudeste Asiático, numa carta aberta ao inquilino da Casa Branca, que renunciou após o escândalo de Watergate, em 1974.
Nixon nunca respondeu à provocação.
A artista também fundou, em Nova York, o Kusama’s Omophile Klub, um bar gay, e a Kusama’s Korner, um boutique temporária que funcionava dentro da famosa loja de departamentos Bloomingdale’s.
Instalação 'Aftermath of obliteration of eternity' (2009), em galeria dedicada a Yayoi Kusama no Instituto Inhotim
Daniel Mansur/Divulgação
Kusama voltou ao Japão em 1973 e tentou se sustentar negociando arte ocidental, mas a crise do petróleo frustrou seus planos.
Começou então a fazer colagens e a se dedicar à literatura.
Publicou mais de uma dezena de romances, entre eles o autobiográfico “Manhattan Suicide Addict”, e vários livros de poesia.
Nessa época, seus ataques de pânico e suas alucinações se agravaram, a ponto de ela se internar num hospital psiquiátrico em Tóquio, em 1977.
Montou um ateliê perto dali e passou a produzir intensamente.
Suas pinturas tinham ecos surrealistas, cores vivas e padrões esquisitos, que remetiam a redes e enxames de espermatozoides.
Entre os anos 1990 e 2000, voltou a criar instalações imersivas, como as “Infinity rooms”, salas revestidas de espelhos que produzem reflexos infinitos.
Em 1993, representou o Japão na Bienal de Veneza.
Também passou a receber mais atenção de instituições renomadas.
Entre 2011 e 2012, uma retrospectiva de sua obra passou pela Tate Modern, em Londres, pelo Whitney Museum of American Art, em Nova York, pelo Centre Pompidou, em Paris, e pelo Reina Sofía, em Madri.
Os preços de seus trabalhos dispararam.
Em 2014, uma das pinturas da série “Infinity nets” foi vendida por US$ 7,1 milhões e se tornou a obra mais cara de uma artista viva já negociada em um leilão.
Era o auge da “Kusamania”, que estourou no Brasil em 2013, quando a mostra “Obsessão infinita”, que exibia uma centena de obras da artista produzidas entre 1949 e 2012, atraiu mais de 1,7 milhão de pessoas às unidades do Centro Cultural Banco do Brasil do Rio e de Brasília e ao Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo.
Em 2023, foi inaugurada a Galeria Yayoi Kusama no Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG).
O espaço abriga as instalações “I’m here, but nothing” (2000), que consiste num ambiente aparentemente doméstico salpicado por pontos coloridos, e “Aftermath of obliteration of Eternity” (2009), na qual um sem-número de focos de luz convidam o visitante a uma experiência transcendente.
Há ainda outra instalação da japonesa em Inhotim, “Narcissus Garden”, composta por 750 esferas de aço inoxidável que flutuam sobre um espelho d’água.
Kusama também ilustrou uma edição de “Alice no País das Maravilhas” publicada no Brasil pela HarperCollins.
Yayoi Kusama morreu em 14 de agosto, num hospital em Tóquio.
Ela tinha 97 anos.
A perda da artista foi anunciada nesta quinta-feira (27) em comunicado do Museu Yayoi Kusama e da Fundação Yayoi Kusama.
“Ao longo de uma vida extraordinária inteiramente dedicada à criação artística, Kusama construiu uma carreira internacionalmente reconhecida como artista pioneira de vanguarda, cuja prática criativa abrangia artes visuais, performance, ficção e poesia”, diz o texto.
“Ela continuou pintando até seus últimos dias, nunca deixando de lado o pincel, e continuou explorando o amor eterno e a alma eterna.”
No New York Times, o crítico Holland Cotter afirmou “a obra de Kusama tem sido frequentemente analisada pela crítica pela ótica de sua biografia e de suas questões psiquiátricas — uma abordagem que ela própria incentivou”.
Ele ressaltou que “essa tendência desviou a atenção de sua habilidade formal e de sua inventividade pictórica” e que seu humor autoconsciente também não recebeu o devido crédito”.
E a artista era realmente bem-humorada.
Em sua autobiografia, ela escreveu: “Que venha Picasso, que venha Matisse! Que venha qualquer um! Eu enfrentaria todos eles com uma única bolinha”.