Obesidade: entidade médica atualiza diretriz com indicação inédita de canetas emagrecedoras; entenda

 

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A Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso) lançou, nesta terça-feira, uma nova Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade, documento que reúne orientações para os médicos e, pela primeira vez, engloba a nova classe de medicamentos chamada de análogos de GLP-1.

Até então, as orientações referentes ao uso de remédios apareciam apenas como um capítulo dentro de outros documentos que orientam o tratamento da obesidade. Agora, os medicamentos ganham uma diretriz específica, o que revela uma mudança de paradigma em relação às ferramentas disponíveis para lidar com a doença.

Fábio Trujilho, presidente da Abeso, destaca que, nos últimos anos, o médico “passou a lidar com um cenário terapêutico mais amplo e com decisões que exigem avaliação cada vez mais individualizada”. Nesse contexto, a diretriz busca “oferecer subsídio para a conduta clínica e mais segurança para o cuidado dos pacientes”

— Vivemos uma pluralidade de medicamentos. Há 10, 20 anos não tínhamos tratamento farmacológico com a eficácia e a segurança que temos hoje. O arsenal que temos agora é grande e está crescendo cada vez mais. Isso faz com que os médicos precisem ter esse conhecimento, já que a imensa maioria não aprendeu sobre na sua formação — diz Alexandre Hohl, diretor da Abeso e um dos colaboradores da nova diretriz.

A classe de análogos de GLP-1 envolve fármacos como a semaglutida, princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, da Novo Nordisk, e a tirzepatida, do Mounjaro, vendida pela farmacêutica Eli Lilly. As alternativas terapêuticas simulam a ação do hormônio GLP-1, que promove a saciedade e retarda o esvaziamento gástrico, chegando a levar, de inédita, a uma perda de mais de 20% do peso corporal.

A nova diretriz reúne 32 recomendações e foi elaborada por um grupo multidisciplinar formado por endocrinologistas, clínicos gerais e nutricionistas. Entre os pontos centrais, está a indicação de que o tratamento farmacológico nunca seja usado isoladamente, mas associado a mudanças de estilo de vida, com aconselhamento nutricional e estímulo à atividade física.

O documento também define como principais critérios para indicação da farmacoterapia o índice de massa corporal (IMC) maior ou igual a 30 kg/m², caso da obesidade, ou IMC maior ou igual a 27 kg/m², caracterizado como sobrepeso, mas com complicações relacionadas à adiposidade.

— Pessoas que têm obesidade precisam de tratamento, é uma doença crônica, recidivante, multifatorial e que pode ser progressiva. A diferença é que, além de tratar a base, com alimentação, atividade física, temos um grupo de pacientes que podem se beneficiar do tratamento farmacológico dentro dessa jornada — explica Hohl.

Em situações específicas, a diretriz admite considerar o uso dos remédios independentemente do IMC, como quando há aumento da circunferência da cintura e/ou da relação cintura-altura associado a complicações ligadas ao peso. Para a maioria dos pacientes, o documento orienta considerar metas de 10% ou mais de perda de peso, embora a indicação e os objetivos sejam sempre individualizados.

A atualização das recomendações ocorre em meio a uma alta da obesidade no Brasil, que saltou 118% de 2006 a 2024 e chegou a uma proporção de 1 a cada 4 adultos (25,7%), segundo dados da pesquisa Vigitel, levantamento anual conduzido pelo Ministério da Saúde. Considerando o sobrepeso, a alta foi de 46,9%, e o quadro agora acomete a maioria dos brasileiros (62,6%).

— Nosso desafio hoje é que a imensa maioria das pessoas com obesidade não tem acesso aos remédios. Tentamos incorporar no SUS essas medicações e não conseguimos. Mas estamos vendo vários prefeitos, governadores, anunciando medidas nesse sentido. Nós precisamos de centros estruturados em que o olhar para essas pessoas passe por um cuidado multidisciplinar, com nutricionistas, psicólogos, e que o remédio faça parte dessa jornada. Hoje, não temos nenhum medicamento incorporado nacionalmente no SUS para tratar a obesidade. Mas, à medida que temos o fim da patente, como é o caso da semaglutida, torcemos muito para que chegue no mercado alternativas com preços mais acessíveis — afirma o diretor da Abeso.

A diretriz repreende ainda o uso indevido dos medicamentos, alertando que eles não devem ser encarados como uma alternativa para pessoas que apenas querem perder alguns quilos. Além disso, alerta para o risco de formulações magistrais e falsificadas e lembra que as canetas podem ser prescritas apenas por médicos, e não por outros profissionais da saúde, como esteticistas e nutricionistas.

Até porque, para a maioria dos pacientes, o uso precisa ser crônico. Um estudo publicado na revista científica BMJ mostrou que os usuários recuperam o peso perdido em cerca de 1,7 ano após interromper a medicação.

— Hoje o uso se confunde muito comum a vontade de perder uns quilinhos. Não é sobre isso que estamos falando. Estamos falando sobre pessoas que vivem com obesidade, e que os remédios podem ajudar muito a aliviar o sofrimento. O uso é talvez para a vida toda, é uma doença crônica. A obesidade é uma doença crônica. O paciente com hipertensão toma o medicamento a vida inteira, é o mesmo raciocínio. A diferença é que antes não tínhamos remédios com segurança a longo prazo — diz Hohl.