Obcecada por Virginia, filha esquece da própria mãe no Rio
A poucos metros de mim, numa loja de shopping da Zona Sul carioca, a moça não tirava os olhos do celular. Ainda que eu não quisesse, vi que ela rolava o feed da influenciadora Virginia, seguida por milhões de pessoas. Ao lado dela, uma senhora que descobri ser sua mãe graças a um momento desconcertante.
Depois de a filha sugerir três peças, deixando claro que aquele era um presente especial, a mãe desabafou:
— Pareço até uma estranha. Você me mostrou duas camisas de cores de que não gosto e uma blusa tomara que caia que nunca uso por causa do meu busto.
Eram quase estranhas mesmo. Durante mais de uma hora na loja, pouco conversaram. A jovem provavelmente sabia mais sobre a vida da celebridade do que sobre os gostos daquela que lhe deu a vida. Como admirar tanto uma mãe da internet enquanto, dentro de casa, até existe presente, mas falta presença?
Outro dia, me surpreendi ao ouvir minha mãe elogiar uma música de Marisa Monte. Percebi que eu não fazia ideia das preferências musicais dela. Em casa, quase sempre meu pai determinava os gostos culturais da família. Eu sabia exatamente quais artistas ele admirava porque os discos no velho 3 em 1 eram sempre escolhidos por ele. Sobre minha mãe... ah, ela gostava de novela, não gostava de bagunça e... só isso mesmo?
Há alguns anos, conheci livros da editora Sextante que achei maravilhosos: “Mãe, me conte sua história” e “Vó, me conte sua história”. Eles trazem perguntas simples a serem respondidas: “Do que você brincava quando criança?”, “Quem foi seu primeiro amor?”, “Quem eram suas melhores amigas?”. O da minha avó ficou pela metade. Não deu tempo de completar. O da minha mãe, sigo insistindo para que seja preenchido, talvez porque eu tenha percebido o quanto desconheço sua história.
Antes de serem mães, elas foram meninas, filhas, estudantes, amigas. Mulheres cheias de versões que os filhos quase nunca conhecem por inteiro.
Talvez o melhor presente neste Dia das Mães seja olhar menos para a rotina perfeita de Virginia e prestar mais atenção à mulher real sentada à nossa frente, que segue ali quase sem audiência. Em vez de tomara que caia, tomara que mude.
Gabriela Germano é editora-assistente e atua na área de cultura e entretenimento desde 2002. É pós-graduada em Jornalismo Cultural pela Uerj e graduada pela Unesp. Sugestões de temas e opiniões são bem-vindas. Instagram: @gabigermano E-mail: gabriela.germano@extra.inf.br
