'O voto nos estados': em Pernambuco, o choque entre a aprovação de Raquel Lyra e a força de João Campos

 

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Os pernambucanos prometem testar em outubro uma das máximas da política — a de que “eleição é comparação”. Mesmo aprovada por mais de 60% da população, a governadora Raquel Lyra (PSD) sofre para converter esse aval em votos e tem visto o ex-prefeito do Recife e presidente nacional do PSB, João Campos, prevelacer nas pesquisas. Pernambuco inaugura hoje a série “O voto nos estados”, na qual o GLOBO vai destrinchar os principais personagens, histórias e temas das eleições em todas as unidades federativas brasileiras.

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Herdeiro repaginado da cultura política iniciada pelo bisavô Miguel Arraes e seguida pelo pai, Eduardo Campos, ambos ex-governadores, João deixou a prefeitura da capital no início de abril com uma aprovação elevada para chamar de sua. O plano é dar continuidade, na esfera estadual, à trajetória da família.

Se o trabalho à frente da cidade o faz contar com a força eleitoral dela e dos municípios do entorno, o sobrenome e o imaginário o ajudam a acessar as demais regiões. Outro ativo do jovem político de 32 anos são as redes sociais. No Instagram, conta com cerca de 3 milhões de seguidores — mais gente do que a população recifense.

Por dentro da eleição em Pernambuco

Arte O Globo

Mas é justamente no interior que Raquel Lyra, ex-prefeita de Caruaru, tem mais poder. O desafio da governadora é convencer os eleitores de que merece um segundo mandato. Pesquisa CBN/Datafolha de fevereiro mostra que, a despeito dos 61% de aprovação ao governo, ela registrou apenas 35% das intenções de voto, contra 47% de João.

A fim de passar aos eleitores a mensagem de que o futuro pode ser melhor — apesar de não estarem majoritariamente insatisfeitos com o governo atual —, João promete um projeto que mistura “desenvolvimento com inovação, ousadia e justiça social”.

— É natural que quem está no governo tenha visibilidade e instrumentos institucionais, mas essas mesmas pesquisas colocam o nosso nome à frente nessa fase da disputa. E toda eleição é sempre um diálogo sobre o futuro. Isso faz toda diferença. Não é sobre onde estamos, mas sobre onde poderíamos estar — diz.

Terra natal do presidente

Sétimo estado mais populoso do país, com 9,5 milhões de pessoas, Pernambuco é a terra natal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que de lá saiu ainda pequeno com a família rumo a São Paulo. Ao longo do ano passado, Lyra fez movimentos para se aproximar do petista. Trocou o PSDB pelo PSD e construiu pontes com o governo federal, além de reforçar laços com parcelas do PT local. A ideia era tentar viabilizar um palanque duplo. Ou seja, fazer com que Lula tivesse dois candidatos.

No mês passado, contudo, o PT formalizou o apoio a João Campos. Um dos senadores da chapa será o petista Humberto Costa, que tenta novo mandato. A outra postulante ao Senado na aliança do ex-prefeito é a ex-deputada Marília Arraes (PDT), prima de João e neta de Miguel Arraes, derrotada no segundo turno de 2022.

A tendência é que a governadora evite nacionalizar a campanha, dizem aliados, que também minimizam o apoio formal do PT a João afirmando que parte da base do partido está com a candidata à reeleição. Ela pretende propagar no período eleitoral entregas feitas na área de segurança e infraestrutura, além de saúde e educação. Recentemente, divulgou diversas cerimônias de inauguração de estradas, renovação de armamentos policiais e abertura de unidades hospitalares, por exemplo.

Lyra, no entanto, não deixa de exaltar parcerias com Lula, como fez durante a filiação ao PSD do deputado federal Túlio Gadêlha. É uma forma de dizer que, mesmo sem acordo formal com o PT, considera-se aliada do presidente.

— Sempre contamos com o apoio do presidente Lula e dos seus — afirmou, na ocasião.

Desde que João se desincompatibilizou, ele e Lyra intensificaram o tom de campanha. Uma das bandeiras mais conhecidas dos estados brasileiros, com mais de 200 anos de existência, a flâmula de Pernambuco passou a aparecer com frequência nos eventos e nas redes dos dois. Ciente de que tem como principal desafio conquistar o interior, João vem tecendo um discurso de “integração”, com a promessa de levar melhorias “para além da Região Metropolitana”.

As demais candidaturas ao governo mal pontuam nas pesquisas. Parte disso se deve à desarticualação do PL, partido da família Bolsonaro, em terras pernambucanas. Até então a principal figura da sigla no estado, o ex-ministro do Turismo Gilson Machado se desfiliou por insatisfações internas.

Nas anotações do presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) que vazaram em fevereiro, havia a indicação do desejo de costurar uma chapa com Lyra, o que é rechaçado no entorno da governadora. O PL chegou a integrar a gestão, mas a parceria foi desfeita — a rejeição ao bolsonarismo é alta por lá. Até o momento, os únicos nomes que pontuam além de João e Lyra são Eduardo Moura (Novo) e Ivan Moraes (PSOL), mas de forma tímida.

A governadora ainda não definiu quem ocupará a vice da chapa. João, por sua vez, anunciou aliança com o Republicanos. O escolhido para o posto é Carlos Costa, irmão do ex-ministro de Portos e Aeroportos Silvio Costa Filho.