O voto nos estados: em eleição sob a sombra do Master, PT busca sexto mandato na Bahia em disputa com o carlismo

 

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Os baianos vão às urnas em outubro em uma reedição do embate entre o petismo, na figura do governador Jerônimo Rodrigues, e o carlismo, que tem o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União) na segunda tentativa de chegar ao Palácio de Ondina. O diferencial deste pleito, após resultado apertado em 2022, é o impacto do escândalo do Banco Master, que motivou um acordo entre os dois grupos para deixar o tema apartado da corrida eleitoral.

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Após dois mandatos como prefeito de Salvador, ACM Neto busca retomar a hegemonia do carlismo no estado. O grupo formado no entorno do avô, o ex-governador Antônio Carlos Magalhães, chefiou o Executivo estadual por quatro décadas. Mas perdeu espaço para o partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que está consolidado no governo da Bahia desde 2007. Antes de Jerônimo, que tenta a reeleição, ocuparam o posto o atual senador Jaques Wagner e o ex-ministro-chefe da Casa Civil Rui Costa — ambos disputarão o Senado e aparecem como favoritos nas pesquisas.

O embate promete ser parelho, assim como em 2022, quando Jerônimo superou ACM Neto por pouco mais de quatro pontos percentuais. O petista, que já foi secretário estadual de Educação, conquistou 52,78% dos votos em sua primeira eleição contra 47,22% do representante do carlismo. O triunfo de Jerônimo ocorreu após o presidente Lula, que teve 72% dos votos no estado, intensificar a dobradinha durante a campanha do segundo turno.

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Pesquisa Genial/Quaest divulgada em 29 de abril mostra empate técnico. ACM Neto aparece com 41% das intenções de voto na simulação de segundo turno, e Jerônimo marca 38%. Mas, há espaço para migração de voto. Metade dos baianos afirma que a decisão de escolha do candidato já é definitiva, enquanto 47% dizem que podem mudá-lo caso “algo aconteça”.

No cenário presidencial, a Quaest divulgada na última quarta-feira aponta Lula com 71% no estado numa simulação de segundo turno contra Flávio Bolsonaro (PL), que marca 29%.

A principal pedra no sapato tanto de ACM Neto quanto do PT nesta eleição é o desgaste provocado pela erupção do caso Master. As investigações indicam correlações entre o banco e os dois campos políticos na Bahia.

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Documentos entregues pelo banco de Daniel Vorcaro à Receita Federal apontam o pagamento de R$ 5,4 milhões ao ex-prefeito por meio de sua empresa de consultoria entre 2023 e 2025. ACM Neto argumentou que a relação com o Master foi firmada sem que qualquer um dos sócios da empresa “ocupasse cargo público à época da formalização e execução do contrato”. O ex-prefeito diz que fazia análise da “agenda político-econômica nacional” e participou de uma série de reuniões com representantes do banco.

Os documentos também identificaram transferências de R$ 14 milhões, entre 2022 e 2025, para a empresa BN Financeira, que tem como sócia Bonnie Bonilha, mulher de um enteado de Jaques Wagner. O contrato foi firmado em 2021 e, no último ano, os pagamentos atingiram R$ 7 milhões. A firma nega ligação com o petista e diz que os “contratos tiveram por objetivo a prospecção e indicação de operações e convênios de crédito público e privado”.

Outro ponto sensível é a antiga relação entre o PT baiano e o banqueiro Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro que chegou a ser preso em novembro na operação Compliance Zero. Durante o governo Rui Costa, o petista privatizou a Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), dona da rede de supermercados Cesta do Povo. A Ebal foi comprada por Lima, que também arrematou um cartão de crédito consignado para servidores e aposentados. Esse cartão, depois nomeado Credcesta, teve a operação expandida para todo o país em parceria com o Master, banco que Lima deixou em 2023.

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Rui Costa incluiu o cartão no terceiro leilão da empresa — depois de duas tentativas malsucedidas de venda à iniciativa privada. O ex-ministro defendeu a decisão, em fevereiro, afirmando que a operação foi o que viabilizou o negócio.

As autoridades também identificaram pagamentos a uma empresa do ex-ministro da Cidadania Ronaldo Bento, que foi o principal auxiliar de João Roma na gestão bolsonarista da pasta, da qual também foi titular. Roma é presidente estadual do PL e compõe a chapa de ACM Neto como nome que disputará o Senado.

O outro membro da chapa de ACM Neto à Casa Legislativa é o atual senador Angelo Coronel (Republicanos), que fazia parte da base petista até o início do ano. Ele deixou o PSD após não ter sido incluído na chapa majoritária de Jerônimo, que apostou em dois candidatos do PT ao Senado.

Em 2022, ACM Neto começou como favorito à vitória em primeiro turno, mas acabou desbancado por Jerônimo, até então pouco conhecido pelos baianos. Desta vez, durante a pré-campanha, ACM vem intensificando ataques contra a gestão petista, sobretudo nos campos da economia e do combate à criminalidade. O ex-prefeito de Salvador tem afirmado que o governo “perdeu o controle da segurança pública” na Bahia.

Já Jerônimo, que é filiado ao PT desde os anos 1990, aposta em entregas do governo, como as escolas de tempo integral e a construção de hospitais, sobretudo no interior, onde a sigla avalia que o ex-prefeito de Salvador tem menos capilaridade. O governador também se apoia na presença de Lula e no contato com prefeitos para a campanha. Jerônimo quer comparar resultados entre as cinco gestões petistas no estado e o período em que o carlismo comandou o Ondina.