O vira-lata que uniu um país

 

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O martírio e assassinato de Orelha, o cachorrinho comunitário de Praia Brava, em Florianópolis, me causou (e a milhões de brasileiros) horror, revolta e tristeza. Quatro adolescentes torturam da forma excruciante um cachorro idoso até abandoná-lo vivo, agonizando em dor. Como é possível tanta crueldade e covardia?

Nossa cachorrinha é o xodó de todos aqui em casa. Ela uniu a família em torno do seu amor gratuito e incondicional. Enquanto escrevo, sinto sangue nos olhos. Quero prisão, castigo, punição à altura da monstruosidade. Sim, é preciso punir, e de forma severa.

Mas é preciso ir além. Para entender tamanha crueldade, mais uma vez é preciso falar do agravamento da masculinidade tóxica, violenta, odiosa.

Violência extrema não surge do nada. Meninos aprendem observando, e o primeiro espelho é a família. Pais que expressam racismo, xenofobia e desprezo aos mais pobres, ensinam violência e intolerância. Pais permissivos, que não impõem limites e responsabilidade, que relativizam desvios, que confundem proteção com acobertamento, que usam dinheiro, influência ou intimidação para garantir impunidade —como parece ter acontecido nesse caso —, ensinam o privilégio, a ausência de empatia, mostram que a lei não se aplica a todos. Isso cria pequenos monstros.

O segundo espelho é o mundo digital. Mergulhados sem limites nas redes sociais, Discord, Telegram e certos jogos, meninos são expostos diariamente a conteúdos de violência absoluta e brutal. Moradores de rua incendiados, linchamentos, execuções policiais. No Discord, animais são brutalmente torturados ao vivo. A banalização do crime e a naturalização da violência vai dessensibilizando suas almas.

O horror é sem fim: red pills fazendo apologia da misoginia, e o vício em pornografia os expondo à violência e à humilhação da mulher. Bullying e agressões a colegas e professores, manipulação com IA para desnudar as meninas... tudo isso vira “brincadeira”.

Levados pela necessidade de pertencimento ou cooptados por células neonazistas (que tiveram em SC seu maior crescimento), os meninos vão se tornando racistas, intolerantes, gritam preconceito e humilham pessoas mais pobres. Num vídeo apelativo do MBL do mesmo estado, dois jovens associam favelados e migrantes ao crime e gritam “tem que prender e matar!”. Será que espancaram cães quando adolescentes? A conexão da crueldade contra animais e a falta de empatia e violência contra pessoas é amplamente documentada na literatura.

Há pouco escrevi sobre a educação dos meninos e como evitar esse mergulho na violência e na crueldade. O papel da figura paterna é chave, sendo exemplo no cuidado, no respeito ao outro, na empatia. Mostrando que podem expressar emoções, ser vulneráveis, chorar.

A adequação do mundo digital também é crucial: adiamento da entrada para 15 ou 16 anos, restrição de tempo, contratos familiares onde se garanta respeito ao convívio com famílias e amigos, ao estudo, esporte, sono, brincadeiras. Supervisão por aplicativos e acompanhamento pessoal do conteúdo, ajudando o adolescente a desenvolver pensamento crítico sobre empatia, ética, tolerância, respeito e cuidado com todos, inclusive os animais. Buscar escolas que promovam a educação para a paz, antirracista, antibullying. Despertar a sensibilidade, cultivar a humanidade dos meninos pela literatura, cinema, teatro, música, pela brincadeira.

A morte de Orelha é sintoma de uma crise de valores que mistura privilégio, falta de empatia e a influência do ódio disseminado e contagioso no ambiente digital. E mostra como é fácil obter consenso e compaixão com um vira-latinha —que não tem ideologia, cujos dramas são simples. Seria tão bom se conseguíssemos esse grau de empatia com nossos muitos dramas humanos, muito mais complexos.