Lula evoca a resistência vietnamita enquanto sua campanha enfrenta a disputa pela comunicação digital, controvérsias no TSE e pressões internacionais que marcam a eleição brasileira.
Em Belo Horizonte, no dia 21 de outubro, Lula recorreu à história da Guerra do Vietnã para falar da mobilização de seus apoiadores.
“Eles pensam que nós somos fracos, mas nós somos que nem o Exército vietnamita que derrotou os Estados Unidos”.
A comparação tem um significado particular na eleição brasileira de 2026. Não porque o país esteja diante de uma guerra militar, mas porque a disputa presidencial envolve forças políticas, econômicas e tecnológicas que ultrapassam as fronteiras nacionais.
O buraco é mais em cima
Em 5 de outubro, no artigo O buraco é mais em cima, examinamos a eleição brasileira no contexto da política continental de Donald Trump e Marco Rubio.
O Brasil ocupa uma posição estratégica nessa disputa. É a maior economia da América Latina, integra os BRICS, tem a China como principal parceira comercial e possui recursos minerais de grande interesse internacional.
A aproximação entre Flávio Bolsonaro e o governo Trump precisa ser compreendida nesse contexto.
Os contatos de Eduardo Bolsonaro com integrantes do governo norte-americano, as pressões econômicas sobre o Brasil e as propostas de maior alinhamento diplomático com Washington são acontecimentos que ajudam a explicar a dimensão internacional da eleição.
Esses fatos não demonstram que os Estados Unidos comandem a candidatura de Flávio.
Revelam, entretanto, a atenção que Trump e Rubio dedicam às relações entre os dois países e aos projetos políticos em disputa. Sobretudo, aos interesses estratégicos dos Estados Unidos na América Latina, especialmente no Brasil.
Os vietnamitas de Janones
A outra dimensão da comparação de Lula está nas plataformas digitais, instrumentos utilizados pelo bolsonarismo desde a campanha de 2018 e que hoje alcançam milhões de brasileiros por meio de seus smartphones.
Já no segundo turno da eleição de 2026, o Exército do Lula, canal de WhatsApp organizado pelo deputado André Janones, ganhou projeção nacional e ultrapassou oito milhões de seguidores.
Lula chamou Janones de general, apresentou-se como marechal Silva e anunciou que também participa do canal de seu exército digital.
A linguagem militar é simbólica. O fenômeno é político e tecnológico: milhões de pessoas reunidas numa estrutura de comunicação capaz de distribuir conteúdos e organizar ações digitais.
O crescimento do canal provocou uma disputa judicial no TSE, presidido por Kassio Nunes Marques e tendo André Mendonça como vice-presidente. Ambos foram indicados ao Supremo Tribunal Federal por Jair Bolsonaro, pai do candidato Flávio.
As decisões do TSE
Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, determinou duas vezes a suspensão do Exército do Lula.
A primeira decisão foi revertida pelo corregedor eleitoral. A segunda terminou após a regularização do registro do canal.
Posteriormente, Nunes Marques e o vice-presidente do TSE, André Mendonça, discutiram uma proposta de restrição a canais políticos de WhatsApp com mais de 200 mil seguidores nas 48 horas anteriores ao segundo turno. O objetivo era atingir o Exército do Marechal Lula.
Nesta quinta-feira, 22 de outubro, um grupo de 110 juristas e pesquisadores contestou a medida, argumentando que a proibição comprometeria a segurança jurídica e a previsibilidade das regras eleitorais.
A proposta acabou descartada, em meio à controvérsia sobre os limites da intervenção judicial na eleição, a três dias do segundo turno.
A lição do Vietnã
A resistência vietnamita tornou-se um símbolo histórico da capacidade de organização diante de uma potência militar muito superior.
Lula recuperou essa imagem para falar da participação de seus apoiadores na campanha.
A comparação permite refletir sobre uma característica da política contemporânea: a mobilização popular já não depende exclusivamente dos partidos, dos comícios ou dos grandes veículos de comunicação.
Ela também acontece nas redes digitais, onde milhões de pessoas recebem, produzem e compartilham informações.
Mas a analogia tem um limite fundamental.
No Vietnã, o confronto foi decidido por uma guerra. No Brasil, a escolha do próximo presidente será feita pelo voto.
A soberania brasileira pertence aos cidadãos, não aos governos estrangeiros, às plataformas digitais ou às autoridades que administram o processo eleitoral.
É nas urnas que os brasileiros decidirão o significado político dessa resistência.
“Eles pensam que nós somos fracos, mas nós somos que nem o Exército vietnamita que derrotou os Estados Unidos”.
Luiz Inácio Lula da Silva – Marechal do Exército do Lula
Brasil 247