O treino de poucos minutos que une mente e corpo e conquista milhões nas redes
No fim do ano passado, India Gants (tiktoker com mais de 300 mil seguidores) começou a compartilhar vídeos em que aparecia fazendo “aquecimentos imersivos” ou “treinos interativos”, uma forma de exercitar o corpo que, nos últimos tempos, viralizou porque, além de ajudar a colocar as pessoas em movimento, também diverte.
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No caso de Gants, seu vídeo com mais visualizações (4,2 milhões) mostra uma “entrada de aquecimento imersiva”, que consiste em fazer todo tipo de movimentos com os braços e as mãos no ritmo de animações exibidas na tela da televisão. “Quem precisa de uma academia quando isso existe?”, escreveu na publicação.
Entre os comentários mais destacados desse vídeo e de outros publicados sob a hashtag #immersivewarmup (aquecimento imersivo, em português), se repetem frases como: “Estou morrendo de rir. Isso é divertidíssimo!” e “Que ótima forma de combater a depressão sazonal, obrigada!”.
Os vídeos variam em temática, ou seja, há opções para todos os gostos. Alguns têm fundos pretos e silhuetas humanas desenhadas que indicam ao espectador o que ele deve fazer; outros se misturam ao conceito de gamificação e dão a impressão de que a pessoa está cumprindo uma missão dentro de um videogame; há ainda os que simulam trilhas de caminhada ou percursos em ambientes naturais para serem feitos em uma esteira ou bicicleta ergométrica.
Inspirados em uma sociedade que carece de tempo, concentração ou disponibilidade para colocar o corpo em movimento como faziam as gerações passadas, esses vídeos oferecem todo tipo de estímulo: música enérgica, visualizações, cores vibrantes e imagens que mudam rapidamente.
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São uma forma gratuita e lúdica de combater o sedentarismo. Os treinos interativos e imersivos estão disponíveis em plataformas como YouTube, TikTok, Dailymotion e também aparecem nos reels do Instagram — embora, neste último caso, sejam vídeos de poucos minutos. Podem ser feitos de qualquer lugar, sem necessidade de equipamentos adicionais ou de estar em uma academia. A dinâmica exige apenas duas coisas: uma tela para reproduzir o vídeo e algum espaço para se movimentar.
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Outra forma de se exercitar
Rodrigo Parias, médico especializado em medicina esportiva infantojuvenil, afirma que, embora o nome dessa metodologia seja associado principalmente ao uso de dispositivos tecnológicos, o conceito é mais amplo.
— Não se trata apenas de usar a tecnologia, mas também de criar situações em que o praticante precise perceber, decidir e agir (núcleo do treinamento cognitivo) — diz.
Embora, para ele, “o melhor treinamento continue sendo o mais simples”, os exercícios imersivos podem ter algumas vantagens para quem os pratica. Ele cita como exemplo aqueles em que a pessoa interage com estímulos que mudam constantemente; nesses casos, afirma, eles podem ser eficazes e complementares ao treinamento tradicional.
— Ao contrário das rotinas tradicionais, que são mais repetitivas e estruturadas, esses treinos são dinâmicos e imprevisíveis — acrescenta e faz um alerta. — Eles exigem conhecimento prévio do movimento ou gesto esportivo que está sendo praticado.
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De acordo com Dominic King, médico especialista em medicina esportiva da Clínica Cleveland, nos Estados Unidos, os treinos imersivos e interativos ganharam popularidade durante a pandemia de Covid-19. “Quando as academias fecharam, as pessoas não apenas continuaram se movimentando, como também inovaram. Esses exercícios se tornaram uma referência, unindo atividade física e diversão”, afirma.
Mente e corpo
Também enquadrados no conceito de exergaming — a fusão entre exercício físico e entretenimento digital, que desafia ativamente o corpo e a mente —, eles incorporam a ideia de que manter-se saudável deve ser algo acessível, alcançável e, acima de tudo, divertido, avalia King.
Segundo ele, quando alguém se envolve em uma atividade que considera divertida, pode reduzir os níveis de estresse. “Os videogames sempre foram uma forma de escape, mas também de cura. A natureza interativa desse método pode reduzir o estresse, melhorar o humor e até potencializar a função cognitiva”, diz.
Alguns desses treinos envolvem percursos por ambientes naturais.
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Um estudo publicado na revista Frontiers in Psychology parece corroborar a avaliação de King. Os pesquisadores acompanharam 433 estudantes universitários e examinaram os efeitos diretos de cinco tipos distintos de motivação para a prática de exercícios, entre eles: motivação pela saúde, pela aparência, pela diversão, pela habilidade e pela interação social. A variável da diversão, concluíram, foi a que teve maior impacto sobre os participantes e sua saúde mental.
“Não podemos esquecer que treinar não é apenas alcançar um bom condicionamento físico, mas também se divertir e se relacionar, e esse tipo de treino rompe com a rotina e propõe desafios constantes”, destaca Parias. Em sua experiência, afirma, esses exercícios podem ajudar a melhorar a coordenação, o equilíbrio, a velocidade de reação e a concentração. Ele ressalta ainda que “ajudam a integrar corpo e mente, algo que hoje é fundamental, sobretudo em crianças e adolescentes”.
Sobre os riscos dessa prática, Parias responde que, assim como acontece em outras atividades, ela também pode envolver perigos. Os principais, segundo ele, são: querer fazer rápido demais e descuidar da técnica; executar os movimentos de forma incorreta; e acreditar que esses exercícios substituem todas as demais formas de treinamento.
Eles não substituem, em hipótese alguma, os treinos tradicionais, orientados por instrutores e acompanhados por médicos especialistas. “O treinamento tradicional continua sendo fundamental para o desenvolvimento da força, da resistência e da técnica. O imersivo acrescenta dinamismo, adaptação, maior conexão e antecipação diante de situações reais”, diferencia Parias. O melhor, garante, não é escolher entre um ou outro, mas integrá-los de forma inteligente.
