'O testamento — O segredo de Anita Harley', no Globoplay, é convite à maratona

 

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Quando certas produções documentais chegam ao fim, o espectador precisa mergulhar na internet para complementar as eventuais falhas de informação. “O testamento — O segredo de Anita Harley” provoca o efeito inverso. A série documental impressiona, entre outras tantas razões, pelo trabalho de apuração incansável e rigoroso. Seus realizadores buscaram cobrir e esgotar o assunto amarrando todas as pontas possíveis. Dirigida por Camila Appel e Dudu Levy e com roteiro dela, de Ricardo Calil e de Iuri Barcelos, a produção é a mais vista do Globoplay hoje e com todos os motivos. Acompanhamos uma disputa que envolve uma fortuna estimada em bilhões de reais e um grande número de personagens.

No centro da briga está Anita Harley, herdeira das Casas Pernambucanas e ex-executiva do grupo. Ela está em coma no hospital desde 2016, quando sofreu um acidente vascular cerebral.

Série do Globoplay detalha batalha judicial por sucessão de Anita Harley, herdeira das Casas Pernambucanas

Reprodução

Do ponto de vista médico, a situação é “irreversível”. De dez anos para cá, a batalha judicial em torno da curatela da septuagenária só se agravou. Hoje, são muitas as figuras reivindicando ter laços com ela. O amor sincero ou as más intenções dos envolvidos na briga levantam muitas dúvidas. Tantas que até o público passa a desejar que Anita contrarie o prognóstico da ciência e se recupere para que a verdade seja restabelecida e os interesseiros, afastados.

Os depoimentos são ótimos e parecem saídos de uma novela mexicana. O drama e o suspense vão ganhando musculatura. São muitas variáveis, versões, contradições e suspeitas. A cada episódio, um fato novo aparece, desmontando uma eventual esperança de resolução do imbróglio. Por um lado, isso faz subir a temperatura da narrativa. Por outro, torna tudo mais intrincado. Contar essa história é uma tarefa complexa e moralmente desafiadora. Assim, a competência com que o roteiro é construído fica evidente.

Em vez da voz em off de um narrador, Camila Appel participa como entrevistada, explicando tudo. O recurso é didático e levado com elegância.

A principal fragilidade é o docudrama. “O testamento” repete uma fórmula que funcionou bem nas séries “Um beijo do Gordo” e “O século do Globo”. A primeira reconstruiu o cenário do programa de Jô Soares. A outra refez a redação antiga do jornal. Nos dois casos, o artifício estabeleceu uma ponte com a memória afetiva do espectador. Agora, replicaram uma sala do hotel paulistano onde Anita morava e esse efeito é nulo: ninguém conhece esse lugar, que serve exclusivamente às encenações. O recurso, aliás, é usado sem parcimônia, muito mais do que a série mereceria.

“O testamento” é um daqueles irresistíveis convites à maratona. Apesar da apuração extensiva, ao fim do quinto e último episódio, milhares de novas interrogações se impõem. É o caso então de torcer ansiosamente por uma segunda temporada.