'O tempo se acaba': Trump pressiona Irã a negociar enquanto países do Golfo dizem que não auxiliarão eventual ataque

 

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O presidente americano, Donald Trump, afirmou nesta quarta-feira que o tempo para um novo acordo nuclear com o Irã "está se esgotando" e deixou em aberto a possibilidade de um novo ataque contra o país, enquanto Teerã se recusa a abrir um processo de diálogo sob ameaça de Washington, que enviou uma armada liderada pelo porta-aviões USS Abraham Lincoln para região. Apesar da sombra de um novo ataque americano — que bombardeou o território iraniano no ano passado —, a resistência de aliados árabes dos EUA à uma nova ação contra o país dos aiatolás pode retirar opções táticas em uma possível ação do Pentágono.

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"Esperamos que o Irã se sente em breve à mesa para negociar um acordo justo e equilibrado para todas as partes – SEM ARMAS NUCLEARES –", escreveu Trump na rede social Truth Social, após representantes de Teerã se recusarem a negociar sob coação militar. O presidente também se referiu à aproximação da Marinha americana da região, acrescentando que "o tempo está se esgotando", e que um novo ataque ao país seria pior que os bombardeios do ano passado.

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A retórica bélica de Trump não abriu espaço na mesa de negociações até o momento. Em discurso transmitido pela TV estatal, o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araqchi, afirmou que "não pode ser eficaz nem útil" conduzir a diplomacia por meio de ameaças militares. Na tarde desta quarta-feira, a missão do Irã na ONU emitiu um comunicado afirmando que o país "responderá como nunca antes" se for pressionado.

"Da última vez que os EUA se envolveram em guerras no Afeganistão e no Iraque, desperdiçaram mais de US$ 7 trilhões e perderam mais de 7.000 vidas americanas", diz a publicação, feita em inglês. "O Irã está pronto para o diálogo baseado no respeito mútuo e em interesses comuns — MAS, SE PROVOCADO, SE DEFENDERÁ E RESPONDERÁ COMO NUNCA ANTES!"

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Não está claro a capacidade de reação do Irã. O regime foi duramente castigado durante a guerra com Israel no ano passado, perdendo tanto meios militares quanto lideranças de suas forças. Os conflitos na região também enfraqueceram profundamente a rede de aliados em países vizinhos, por anos tida como um ativo em eventuais ações no exterior. Em uma audiência no Senado americano, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou que o regime está "mais frágil do que nunca".

Em contrapartida, o cenário também é diferente para os EUA em relação ao período do ataque lançado no escopo da guerra de 12 dias entre Israel e Irã. Aliados árabes de Washington se mostraram contra um ataque direto a Teerã — que apesar da rivalidade regional, mantém o que já foi definido na região como um "equilíbrio previsível".

Em um telefonema com o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, o príncipe saudita, Mohammed bin Salman, afirmou na terça-feira que não permitirá que o espaço aéreo ou o território de seu país sejam usados "para quaisquer ações militares contra o Irã". A medida foi anunciada um dia depois de um anúncio similar do Ministério das Relações Exteriores dos Emirados Árabes Unidos. Riad e Abu Dhabi são aliados estratégicos dos americanos na região.

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Opções de ataque

Embora a contrariedade dos aliados regionais tenha peso no cálculo político americano — Trump elegeu as monarquias do Golfo, com quem sua família mantém negócios lucrativos, parceiros de primeira grandeza em seu segundo mandato —, o Pentágono ainda conta com opções variadas para atacar o Irã, caso a ordem seja dada.

A extensa rede de bases em solo e o efetivo ainda deslocado na região não devem estar incluídas em um primeiro momento, segundo analistas citados pela imprensa internacional. A prioridade parece ser por um ataque aéreo contra alvos da Guarda Revolucionária do Irã ou das forças Basenji — e para isso, uma alternativa seria um ataque seguindo os moldes da operação "Martelo da Meia-Noite", que atingiu instalações nucleares iranianas em junho do ano passado

Pentágono exibe cronograma operacional de ataque ao Irã durante entrevista coletiva em Washington, nos EUA

Andrew Harnik/ AFP

A operação taticamente bem-sucedida partiu da base aérea de Whiteman, no Missouri, de onde foram lançadas 125 aeronaves e 75 armas guiadas, incluindo bombardeiros furtivos B-2 Spirit. O voo até o Irã, segundo autoridades militares americanas, durou 18 horas, com múltiplos sistemas de reabastecimento em voo. Um mapa divulgado à época pelo Pentágono sugere que a rota utilizada não passou pelo espaço aéreo de Arábia Saudita ou Emirados Árabes.

Embora os bombardeiros B-2 tenham sido a ponta de lança do ataque americano no ano passado, o conjunto diversificado de alvos na mira neste momento, pode ser mais adequado para outros recursos americanos, segundo avaliou o ex-capitão da Marinha dos EUA Carl Schuster, em entrevista a CNN.

Mísseis Tomahawk, de alta precisão, poderiam ser disparados de submarinos e navios de superfície da Marinha dos EUA longe da costa iraniana — como os enviados por Trump para o Golfo Pérsico. Outra opção seria o uso de mísseis de cruzeiro equipáveis em uma variedade de jatos, incluindo caças F-15, F-16 e F-35 e bombardeiros B-1, B-2 e B-52, bem como caças F/A-18.

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Os EUA dispõem de jatos de guerra F-15E na Jordânia, de onde poderiam ser rapidamente deslocados para um ataque contra o Irã, sem cruzar os territórios dos aliados que não querem se envolver. Em uma outra opção mais distante, Washington poderia lançar o ataque a partir de bases no Índico, como a base Diego Garcia.

— Acredito que isso pode nos forçar a depender mais da aviação embarcada ou de recursos de longo alcance provenientes do território continental dos EUA ou de bases como Diego Garcia — disse Joseph Votel, general aposentado do Exército que liderou o Comando Central dos EUA de 2016 a 2019, em entrevista ao Wall Street Journal, ao avaliar as opções militares. — Essa ação pressiona outros países da região que podem estar considerando apoiar uma operação dos EUA. Por fim, significa que a operação terá um caráter mais americano do que o de uma coalizão regional robusta contra o Irã. (Com AFP)