O silêncio no Fla-Flu

 

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Um personagem impossível, desses que caminha pelas ficções e não pelos estádios, assombrou dois senhores rubro-negros no Fla-Flu do domingo. Aconteceu na área das cativas. A dupla, ambos acima dos 60 anos, chegou procurando seus lugares marcados e notou que um dos assentos estava ocupado por um saco plástico.

Na cadeira ao lado estava aboletado um senhor mais idoso — talvez além dos 70 — com camisa do Fluminense e rugas antigas. Os rubro-negros perguntaram sobre o saco mostrando o cartão da respectiva cadeira.

— O lugar está ocupado.

A dupla informou que o assento era deles. O senhor se irritou e levantou a voz gutural:

— Vocês sabem com quem estão falando?

Nesse momento, um dos rubro-negros percebeu que estava numa daquelas brechas em que a realidade se mistura com a fantasia. Se fosse jovem diria que estava no Mundo Invertido. Era um daqueles momentos em que encontramos um personagem de filme – e um momento desses deve ser aproveitado como raro. Não acontece todo dia. O senhor olhou para os dois e disse mais alto:

— Eu sou autoridade e tiro vocês daqui agora se quiser.

A dupla ignorou o comentário, removeu o saco e se sentou. Isso pareceu irritar ainda mais o interlocutor — que aumentou o volume:

— Tenho essas cadeiras há muito mais tempo que vocês!

Silêncio.

— Eu ganho 150 mil por mês!

Bom salário. Os rubro-negros aparentemente se contiveram para não perguntar se estaria acima do teto.

— Eu sou milionário!

O teste já começava a ficar cômico.

— Eu tenho seis cadeiras cativas!

E ainda queria ocupar a sétima. Por fim, percebendo que os rubro-negros não respondiam, ele concluiu:

— E vocês ainda são nossos fregueses!

Ali. O jogo ainda não havia começado — mas o Fluminense perdeu ali. Porque não há destino tricolor que resista a tamanha falta de fidalguia. Não há nada menos fluminense do que a deselegância. Naquele instante, o Flamengo, os jogadores, o juiz, os outros torcedores... todos viraram passageiros. Os deuses do futebol, que tudo ouvem e escutam e analisam, decidiram: aquele senhor não sairia vitorioso do Mário Filho. Se pudesse, Nelson Rodrigues em pessoa, carne e vento, desceria de sua nuvem para dar um safanão etéreo na têmpora mal-humorada. Um pedala, velhinho.

Vieram as penalidades. Os deuses sopraram duas, três bolas para os limites dos dedos de Fábio. Rossi recebeu a intuição necessária. Guga perdeu. Octávio terminou de perder. O senhor das rugas profundas se levantou e foi embora como se arrastasse correntes. Os idosos rubro-negros, na euforia da vitória, resistiram ao comentário. O silêncio tinha vencido.