'O RPPS tem dono e esse dono precisa autorizar os caras internamente', diz operador a Vorcaro sobre o RioPrevidência

 

Fonte: Bandeira



Uma única frase, atribuída ao operador financeiro Ricardo Siqueira Rodrigues, conhecido no mercado financeiro como "Ricardo Gordo", ocupa lugar central na representação em que a Polícia Federal pediu ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), a quebra dos sigilos bancário e fiscal do governador do Rio, Cláudio Castro, e de outros sete investigados no esquema de captação irregular de recursos do Rioprevidência pelo Banco Master.

Vorcaro pagou degustação de uísque para Castro em NY um dia antes de aporte de R$ 80 milhões do Rioprevidência no Master

Castro e Vorcaro tiveram oito encontros, e alguns coincidiram com aportes do Rioprevidência no Master

Segundo o documento de 13 de março, juntado à Pet 15.497, Siqueira disse ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, que o Fundo Único de Previdência Social do Estado do Rio possuiria "um dono" — e que, nas palavras do próprio operador, "esse dono precisa autorizar os caras internamente". A mensagem foi trocada pouco antes do início dos aportes do Rioprevidência em Letras Financeiras do banco, que somariam R$ 970 milhões entre novembro de 2023 e julho de 2024.

Para os quatro delegados federais que assinam a representação, a expressão é uma referência ao então chefe do Executivo fluminense. "Diversos registros de encontros entre o Governador do Estado do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, e Daniel Vorcaro" antecederam os aportes do fundo dos servidores no banco, escrevem os investigadores. Castro renunciou ao governo do Rio em 23 de março deste ano, para concorrer a uma vaga no Senando Federal nas eleições.

A frase no contexto: entre o primeiro e o segundo aporte

A PF afirma que, já em 19 de outubro de 2023, Siqueira havia apresentado a Vorcaro "a assertiva de que os investimentos do Rioprevidência estariam condicionados a alinhamento político". Pouco mais de duas semanas depois, em 1º de novembro, foi efetivado o primeiro aporte do fundo dos servidores em Letras Financeiras do Master: R$ 40 milhões. Cinco dias mais tarde, em 6 de novembro, Vorcaro recebeu o governador em sua residência, segundo registros extraídos do celular do banqueiro. Em 10 de novembro, veio o segundo aporte: R$ 80 milhões.

É no intervalo entre essas duas aplicações — e logo após o relato do encontro na casa do banqueiro — que a representação faz referência ao diálogo em que Siqueira mencionou a necessidade de autorização do "dono" do RPPS.

A tese da PF de que o fundo foi capturado a partir do topo encontra reforço, segundo o documento, na cronologia das nomeações feitas pelo governador entre julho e outubro de 2023. Foi nesse período que Castro indicou Deivis Marcon Antunes para a presidência do Rioprevidência, Euchério Lerner Rodrigues para a Diretoria de Investimentos e Pedro Pinheiro Guerra Leal para a Gerência de Investimentos. A nomeação de Euchério saiu no Diário Oficial em 4 de outubro — mesmo dia em que o Master pediu credenciamento junto ao fundo. Em 21 de dezembro, segundo a PF, Siqueira comemorou, em mensagem a Vorcaro, "o cumprimento integral da missão proposta", com a meta atingida em apenas 45 dias.

O que diz a PF e qual o pedido

Para a Polícia Federal, o conjunto de mensagens, encontros e nomeações configura indícios de gestão fraudulenta, corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Considerando Letras Financeiras e fundos de investimento, os aportes do Rioprevidência no Master chegariam a cerca de R$ 3,7 bilhões.

A representação pede a quebra dos sigilos bancário e fiscal, no período de 1º de janeiro de 2023 até a data da decisão, de oito investigados: o ex-governador Cláudio Castro; o operador Ricardo Siqueira Rodrigues; os três ex-gestores do Rioprevidência (Deivis Marcon Antunes, Euchério Lerner Rodrigues e Pedro Pinheiro Guerra Leal); a ex-gerente de Controle Interno e Auditoria do fundo, Fernanda Pereira da Silva Machado; e duas pessoas jurídicas — a Mídias Promotora Ltda. e a Planner Corretora de Valores S.A.

O caso, conexo ao Inquérito 5026, ainda dependerá de manifestação da Procuradoria-Geral da República antes de ser apreciado por Mendonça. As medidas se inserem em um quadro mais amplo de apuração que inclui a Operação Compliance Zero, deflagrada em 18 de novembro do ano passado, dia seguinte à tentativa de Vorcaro de embarcar para os Emirados Árabes em Guarulhos, e a Operação Barco de Papel, em curso na 6ª Vara Federal Criminal do Rio, no âmbito da qual Deivis Marcon Antunes foi preso em 3 de fevereiro deste ano.

Os investigados são presumidamente inocentes. Procuradas, as defesas do ex-governador Cláudio Castro, de Daniel Vorcaro e de Ricardo Siqueira Rodrigues ainda não se manifestaram. O espaço para resposta segue aberto.