‘O Retorno à Cabana’ tem chances altas de virar filme, diz William P. Young

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O escritor canadense William P. Young afirma que as chances de uma adaptação cinematográfica de O Retorno à Cabana, continuação do best-seller A Cabana, são altas.

Em entrevista ao Estadão, o autor disse que a possibilidade da produção existe, embora ainda não exista uma confirmação. O livro foi lançado no Brasil em 6 de outubro de 2026, pela editora Arqueiro.

“ As chances de um segundo filme são bastante altas. As pessoas estão apenas começando a ler o livro, então vamos ver”, afirmou Young.

O escritor, que teve sua primeira obra adaptada para o cinema em 2017, também revelou que trabalha em uma produção musical baseada em A Cabana, na Alemanha, com estreia prevista para 2029. Segundo o autor, há conversas para trazer o espetáculo ao Brasil.

Como surgiu a ideia de ‘O Retorno à Cabana’ Young contou ao Estadão que não planejava escrever uma continuação de A Cabana.

A ideia surgiu há cerca de dez anos, quando um amigo lhe falou sobre um homem condenado à morte em uma penitenciária em Nashville, no Tennessee, nos Estados Unidos, que havia sido profundamente impactado pelo primeiro livro. O escritor decidiu visitar o preso, chamado Terry, para entregar pessoalmente um exemplar autografado.

A visita deu início a uma amizade que se estendeu por uma década e também a outros detentos. Segundo Young, os encontros tiveram importância em sua vida pessoal, inclusive durante o período em que enfrentou a morte do pai.

A partir dessa experiência, ele começou a imaginar como seria se o assassino retratado em A Cabana estivesse no corredor da morte e precisasse ficar frente a frente com Mackenzie, o protagonista da história. “E se Mackenzie tivesse de ficar frente a frente com esse homem? O que isso nos diria sobre o perdão, a justiça e o luto?”, questionou o autor na entrevista.

Young afirmou que a continuação nasceu justamente de seu relacionamento com os homens condenados à morte e das reflexões sobre o sistema prisional, a possibilidade de reabilitação e a maneira como as pessoas lidam com a violência. O que acontece no primeiro livro

Publicado em 2007, A Cabana acompanha Mackenzie, um pai devastado pelo assassinato de sua filha, raptada por um serial killer. Incapaz de superar a tragédia, ele passa a questionar a existência de Deus e como uma divindade considerada boa e poderosa poderia permitir tanto sofrimento.

A história muda quando Mackenzie recebe um convite para voltar à cabana onde foram encontrados vestígios do crime. No local, ele tem encontros com Deus, Jesus Cristo e o Espírito Santo, representados de maneiras diferentes das imagens tradicionais.

Ao longo dessas experiências, o protagonista confronta sua dor, suas dúvidas e o desejo de vingança. A narrativa aborda o luto, o perdão e a relação entre humanidade e divindade.

O romance vendeu 25 milhões de exemplares no mundo e 5 milhões no Brasil, sendo adaptado para o cinema em 2017, com Sam Worthington e Octavia Spencer no elenco. A história da continuação

Em O Retorno à Cabana, Mackenzie volta a enfrentar o passado quando é colocado diante do criminoso responsável pela morte de sua filha. Condenado à pena de morte, o homem se dispõe a revelar onde estão os corpos de meninas desaparecidas em troca de conversar com o protagonista durante algumas horas.

A situação coloca Mackenzie diante de questões sobre justiça, luto e perdão. A possibilidade de obter respostas sobre outras vítimas também confronta o personagem com o dilema de como lidar com alguém que provocou uma dor irreparável.

A continuação retoma temas do primeiro livro, mas Young explica que a experiência com os detentos foi determinante para a construção da história. A obra não foi concebida como um manifesto contra a pena de morte, embora o autor tenha críticas ao sistema penal dos Estados Unidos.

Na entrevista, ele afirmou que considera o modelo penitenciário americano marcado pela vingança e criticou a privatização de presídios, que, segundo ele, cria incentivos econômicos para manter pessoas encarceradas. Young defende que mesmo quando não é possível devolver um condenado à sociedade, deveria haver oportunidades de reabilitação e reintegração.

“ A violência e o medo nunca transformam o mundo; apenas acrescentam mais violência ao mundo”, disse. As crenças de William P.

Young Na entrevista, Young também falou sobre sua visão de Deus e a relação entre fé, sofrimento e mal.

O escritor rejeita a imagem de uma divindade que pune os pecadores por meio de tormento eterno e afirma que essa representação está ligada ao fundamentalismo evangélico moderno, não necessariamente à tradição da Igreja primitiva. Para ele, Deus deve ser compreendido mais como um médico que busca curar do que como um juiz que pretende castigar.

Young relaciona essa concepção à crucificação de Jesus, que, em sua interpretação, representa a maneira como Deus enfrenta os danos causados pelas pessoas: por meio da fragilidade e do amor. Questionado sobre por que Deus permite o sofrimento, o autor reconheceu que não tem uma resposta definitiva.

Ele citou experiências pessoais, como o abuso sexual que sofreu na infância e a morte de um neto ainda no ventre da mãe, para explicar que decidiu confiar na bondade divina mesmo sem compreender todas as razões para a dor. “Vou acreditar que Deus é bom e ponto-final”, afirmou.

Young disse que passou a se perguntar menos sobre por que determinadas tragédias acontecem e mais sobre como pode participar do amor e viver o luto de maneira saudável. O escritor também rejeita a ideia de que o mal seja uma força independente.

Para ele, a criação é essencialmente boa, e o mal consiste naquilo que destrói ou tenta encobrir essa bondade. Ao falar sobre vingança, Young reconheceu que a raiva diante de injustiças é compreensível, mas alertou para o risco de ela se transformar em amargura permanente.

Na sua visão, o perdão é o caminho para que uma pessoa não permaneça presa à dor. “Se você quer ser livre, perdoe”, disse.

Young também relacionou traumas pessoais à repetição de comportamentos nocivos entre gerações. Ele contou que levou 11 anos para reconstruir o casamento após revelar à esposa uma relação extraconjugal e o histórico de abusos que havia escondido.

A recuperação, segundo ele, envolveu terapia e uma comunidade de pessoas em quem pudesse confiar. Para o autor, crenças devem ser avaliadas pelos efeitos que produzem.

Se geram compaixão, gentileza e plenitude, podem indicar um caminho de amor. Se provocam medo, ansiedade, amargura e desesperança, é necessário questioná-las.

A entrevista ao Estadão termina com Young reafirmando seu vínculo com o Brasil. O escritor disse que gosta da sensibilidade espiritual dos brasileiros e que ficaria feliz se a produção musical de A Cabana também chegasse ao país.

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