O que significa, de verdade, cuidar de alguém?

O que significa, de verdade, cuidar de alguém?

 

Fonte: Bandeira



Walcyr Carrasco contou, em entrevistas recentes, que arrancou, da própria carne, o argumento de “Quem ama cuida”, a novela das nove que acaba de estrear. Em 2023, quando “Terra e paixão” estava no ar, o autor caiu, quebrou o fêmur e mergulhou num universo até então desconhecido: o da cadeira de rodas, do andador, das sessões intermináveis de fisioterapia. Durante o processo, escutava histórias. Os fisioterapeutas que iam à sua casa contavam vidas inteiras enquanto dobravam joelhos e endireitavam quadris. Foi ali, entre uma flexão e outra, que nasceu a personagem Adriana, vivida por Letícia Colin.

A novela começou muito bem. A enchente inaugural foi cinematográfica; Isabel Teixeira, como Pilar, já promete uma vilania saborosa; Fagundes e Letícia têm química; Tony Ramos dá ao avô Otoniel a densidade dos grandes. Amora Mautner imprime à direção um ritmo nervoso e sensorial que fazia falta. Mas é Letícia Colin quem nos lembra como uma mocinha, magistralmente interpretada, ainda pode sustentar uma novela das nove. Adriana não é exatamente cuidadora, mas fisioterapeuta. Ainda assim, foi o universo do cuidado que mais me capturou.

Pessoas que insistem, mesmo quando o tratamento é recusado. Que tocam a campainha às sete da manhã e, muitas vezes, enfrentam pacientes ranzinzas, magoados com a própria fragilidade. Que precisam ser, além de tudo, psicólogos. Os fisioterapeutas que repetem “mais um, dona Maria, só mais um”, pela milésima vez. As enfermeiras de feridas que atravessam a cidade para trocar curativos em pernas diabéticas. Os cuidadores que dão banho, cortam unha, controlam a alimentação, medem pressão, contam comprimidos. Ouvem queixas, ranços antigos, histórias que ninguém da família quer mais quer ouvir. Precisam interferir sem invadir. Mandar sem humilhar. Apanham, às vezes, no susto da demência. E voltam no dia seguinte, com a mesma firmeza.

Há uma enorme bravura em lidar todos os dias com corpos que doem e famílias que desabam. Uma técnica única em decifrar sinais mínimos: um olhar que apagou, uma respiração diferente, um ronco que mudou de som, uma recusa que talvez signifique vergonha. São pessoas que leem corpos, mas também almas. E fazem isso no intervalo estreito entre a dor do paciente e o descontrole dos parentes. Porque, quando alguém adoece, raramente adoece sozinho. A casa inteira respira por aparelhos, sob a ponta da espada de Dâmocles. Walcyr faz bem em colocar luz sobre esses profissionais. Eles entram na casa dos outros quando todos estão mais crus, mais assustados, menos elegantes. E, sem ocupar o lugar da família, ajudam aquela família a atravessar o que parecia impossível. E só foi possível por causa deles.

É enorme a tentação de romantizá-los. De encaixá-los como alguém “da família”, o que, nas relações toscas de trabalho no Brasil, frequentemente quer dizer exigir que a pessoa passe um paninho no chão, afinal não custa nada (custa, ela não está sendo paga para isso). Eles têm vida, casa, filhos, boletos, amores, problemas. Não estão ali por vocação celestial, e sim por trabalho. Um métier que exige competência e uma enorme força emocional. Mas como escapar do envolvimento? Como esquecer o fisioterapeuta que comemora três passos como se fossem uma medalha olímpica? Ou a enfermeira que sabe o nome de todos os netos porque ouviu a mesma história cem vezes? Ou aquela mulher, que você nunca tinha visto na vida, fazendo carinho no cabelo da sua avó, uma cena que você flagrou numa porta entreaberta? E, quando a paciente morre, a família se une no luto, se aperta, se reorganiza em torno da ausência, mas aquela pessoa que dormiu cinco anos com um olho aberto raramente é lembrada depois da missa de sétimo dia.

A pergunta é: você cuida de quem cuida?