O que se sabe sobre os protestos na França e qual a disputa ideológica em torno dos atos de violência? Entenda

O que se sabe sobre os protestos na França e qual a disputa ideológica em torno dos atos de violência? Entenda - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Sob toque de recolher e prejuízos inicialmente estimados em centenas de milhões de euros, a França se divide quanto às atribuições de responsabilidades por danos provocados nos protestos realizados no fim de semana nas principais cidades do país — com imagens de confrontos entre manifestantes e policiais, de edifícios públicos em chamas e de saques em lojas correndo o mundo. Com novos atos já convocados para o próximo sábado, as principais forças políticas do país trocam acusações sobre quem é o culpado pelo vandalismo e quanto a instrumentalização do movimento social para ganhos político-eleitorais. Análise: O que os vândalos nos dizem, às vezes sem perceber, por Édouard Louis O GLOBO no Mundo: Receba as notícias internacionais no seu WhatsApp Quer morar fora do Brasil? Guia completo de imigração reúne informações de 36 países Descentralização Os protestos do fim de semana — que reuniram entre 550 mil pessoas, na estimativa do Ministério do Interior francês, e 800 mil pessoas, na conta da maior organização sindical do país, a Confederação Geral do Trabalho (CGT) — ocorreram na esteira de atos estudantis por melhorias nas condições de ensino. As principais organizações de representação de alunos secundaristas, cuja mobilização forçou o fechamento de quase 2 mil escolas em seu auge, aderiram às manifestações de sábado, mas estes últimos foram convocados de forma descentralizada, principalmente pelas redes sociais.

Centrais sindicais como a própria CGT, grupos estudantis secundaristas e universitários anunciaram marchas em todo o país, enquanto diversas contas em redes sociais estimularam a mobilização, com agendas diversas além do alto custo de vida, como apoio aos estudantes e ativismo ambiental sendo mencionados. Em Paris, uma das principais convocatórias para o ato na Praça da República circulou através do site 17octobregiletjaune.net, que hospedou o manifesto "Jaunes et jeunes" ("Amarelos e jovens"), em referência ao movimento dos Coletes Amarelos — que, entre 2018 e 2019, confrontou o governo em atos nacionais, reunindo manifestantes de orientação política variada, muitos dos quais rejeitando a divisão entre direita e esquerda — e à juventude mobilizada. Entre os grandes partidos políticos do país, a presença mais marcante nos atos em Paris foi a do líder do França Insubmissa (LFI, na sigla em francês), Jean-Luc Mélenchon, que participou de uma marcha na capital ao lado de outras figuras da cúpula da legenda. Pré-candidato nas eleições presidenciais da França, que serão disputadas em seis meses, e apontado com chances de chegar ao segundo turno, Mélenchon já vinha declarando apoio aos estudantes. Alguns de seus partidários compareceram aos atos das últimas semanas — em uma das cenas mais célebres, o prefeito de Saint-Denis, Bally Bagayoko, colocou-se entre os estudantes e a polícia. Galerias Relacionadas O apoio aberto do LFI ao movimento rapidamente atraiu críticas de seus adversários políticos. Tanto as lideranças do Reagrupamento Nacional (RN), sigla de extrema direita de Marine Le Pen, quanto da coalizão de centro-direita governista do presidente Emmanuel Macron, já vinham acusando o partido de instrumentalizar os protestos estudantis para obter ganhos eleitorais. Quando começaram a ser registrados, no sábado, casos de violência contra policiais e saques à margem das marchas pacíficas, o LFI e Mélenchon entraram imediatamente na mira. O primeiro-ministro Sébastien Lecornu e o ministro do Interior Laurent Nuñez apontaram a participação da "esquerda radical" nos atos de vandalismo que provocaram dano a cerca de 3 mil lojas, depredação de patrimônio público e agressão a policiais, responsabilizando politicamente o LFI por um suposto incentivo aos atos violentos. O líder do partido de extrema esquerda França Insubmissa (LFI), Jean-Luc Mélenchon, participa de marcha contra o alto custo de vida em Paris Matthieu Rondel/AFP Le Pen, pré-candidata apontada como favorita a terminar o primeiro turno da disputa presidencial em primeiro lugar, divulgou um vídeo nas redes sociais no domingo, citando nominalmente Mélenchon e acusando seus aliados de buscarem "mergulhar o país no caos". Em uma manifestação à parte, o líder do RN, Jordan Bardella, classificou os ativistas de extrema esquerda como o "câncer" da democracia e o "braço armado" do LFI. Mélenchon rejeitou a vinculação de seu partido com atos violentos, afirmando ainda no sábado que quem quer que tenha se envolvido em vandalismo e violência contra policiais não fazia parte daquele movimento ao qual prestaram apoio. Também disse que "o aumento das acusações dirigidas contra" a sigla seriam "provocações que costumam ocorrer nesses períodos de crise por parte de governos acuados". Protestos contra o custo de vida na França têm depredações e confrontos com a polícia O que se sabe sobre a violência? O primeiro-ministro da França acusou pequenos grupos de "extrema esquerda" de planejar "um esquema insurrecional" em algumas localidades, citando como exemplo o incêndio da Prefeitura de Limoges — prédio histórico que foi consumido pelas chamas no sábado. Os serviços de inteligência franceses classificam como "ultraesquerda" grupos antifascistas, anarquistas ou anarcoautônomos, aos quais teriam se juntado integrantes da "extrema esquerda radical", representada por partidos de orientação revolucionária. Em um relatório de inteligência obtido e publicado pelo jornal Le Figaro, os serviços denunciaram, em 29 de setembro, a "manipulação" das manifestações estudantis por parte de sindicatos estudantis e movimentos políticos alinhados à esquerda radical. A inteligência francesa também teria apontado, no início do mês, que grupos anarquistas estavam envolvidos nos protestos dos alunos secundaristas. O LFI rejeita as conclusões sobre participação em incitação a atos violentos. incêndio que destruiu parte da prefeitura de Limoges Melaine Payzal / AFP Em entrevista à agência de notícias francesa AFP, o cientista político Pascal Perrineau afirmou que entre os manifestantes violentos havia estudantes que teriam se "radicalizado" ao imitar "líderes violentos", jovens pertencentes a "movimentos políticos de tipo revolucionário" ou os conhecidos black blocs, que "defendem o caos nas ruas" e costumam confrontar a polícia. Há também um outro tipo de perfil entre os que se envolveram em atos criminosos, incluindo grupos organizados com intuito de aproveitar o caos para saquear comércios. Além dos supostos indícios de um plano de natureza insurrecional — em Marselha, ao invadirem o prédio da Prefeitura, muitos dos presentes fizeram referência à Revolução Francesa, comparando o caso à tomada da Bastilha —, as autoridades também apontaram a atuação de "oportunistas". O ministro das Cidades francês, Vincent Jeanbrun, afirmou que entre os manifestantes havia uma "pequena parte" de moradores de subúrbios que "abrigam uma forma de delinquência alimentada em particular pelos narcotraficantes". Dois homens exibem quadros com imagens e referências a Lionel Messi durante tumultos e saques nas proximidades da Praça da República, em Paris, na França. As peças teriam sido roubadas de uma loja na região. Reprodução Itens saqueados foram colocados à venda em plataformas de comércio on-line, segundo autoridades francesas e representantes de organizações comerciais. Uma reunião foi realizada entre integrantes do governo e operadores de algumas das plataformas mais populares do país, que retiraram do ar alguns dos perfis suspeitos de estarem negociando produtos saqueados e prometeram intensificar a fiscalização neste sentido. A presidente da Assembleia Nacional, Yaël Braun-Pivet, propôs a abertura de um inquérito parlamentar sobre os distúrbios e a forma como foram organizados. O que se sabe sobre a resposta da polícia? Ao longo do sábado, manifestantes de marchas pacíficas organizadas pelo país acusaram as forças policiais de atacarem sem motivo aparente pessoas que participavam dos atos. O uso de bombas de efeito moral foi autorizado pelo governo — após a suspensão durante os atos estudantis, quando um adolescente perdeu a mão ao segurar uma granada de gás lacrimogêneo lançada pela polícia. No sábado, um jovem de 17 anos também ficou mutilado em Marselha, em uma situação semelhante à registrada anteriormente. Tanto a extrema esquerda quanto a extrema direita acusaram o governo Macron de despreparo e de contribuir para o caos, argumentando que apesar do conhecimento prévio sobre as mobilizações em massa por todo o país, não teria tomado as medidas necessárias para garantir a segurança. Identificado: Homem é preso por suspeita de relação com incêndio que destruiu prefeitura histórica na França em meio a protestos, diz imprensa local — [A França se tornou] refém entre a violência e a impotência — afirmou Le Pen no vídeo divulgado no domingo, acrescentando que o atual presidente francês estaria "esgotado". Mélenchon, em particular, sugeriu que Lecornu poderia ter permitido que a violência ocorresse para, após a desordem de sábado, posicionar-se como um defensor da "ordem" — o premier afirmou ainda no sábado que o país teria chegado a um "ponto de não retorno", dividindo-se entre os favoráveis e os inimigos da República francesa. O líder de esquerda disse que o objetivo do aliado do presidente seria "fazer com que as pessoas esquecessem seu fracasso na gestão das finanças públicas".

Macron prometeu total transparência sobre a resposta policial durante os protestos, mas se recusou a demitir o ministro do Interior, acusado pelos setores da oposição de incapacidade e de sujeitar os agentes de segurança a enfrentarem a convulsão social em menor número. Espólio eleitoral? Em meio à troca de acusações envolvendo o governo de centro-direita de Macron e o LFI, foi a extrema direita quem mais tentou capitalizar politicamente os acontecimentos do fim de semana, segundo a avaliação de alguns analistas. O Reagrupamento Nacional atacou os dois rivais, ao mesmo tempo em que se colocou como uma possível solução para os distúrbios sociais. — Estamos pagando o preço de décadas de tolerância com a criminalidade, de autoridade enfraquecida e de desarmamento moral, psicológico e material das nossas forças de segurança interna — afirmou Bardella, do RN, após sair de uma delegacia no centro de Paris no domingo, onde foi prestar apoio aos policiais. Análise: Extrema direita na França capitaliza onda de violência para impulsionar campanha eleitoral Em entrevista ao New York Times, o cientista político do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences Po) Bruno Cautrès afirmou que as imagens de violência que emergiram na manhã de domingo, após a jornada de protestos, favorecia aos interesses da extrema direita, sobretudo às pretensões eleitorais de Le Pen. — Podemos ver claramente que o Reagrupamento Nacional não sai perdendo nessa situação — disse Cautrès. Analistas políticos apontam que a violência se encaixa perfeitamente na imagem que o RN vem construindo há muito tempo, de uma França dividida entre os centros urbanos — que, em sua visão, está repleta de estudantes woke e manifestantes violentos — e a "boa França" do interior, onde a vida transcorre tranquilamente. Leia também: França estende toque de recolher e anuncia reforço policial em protestos de sábado; detentos começam a ser julgados — Eles tentam opor essas duas Franças por uma razão óbvia: seu eleitorado não está nos centros urbanos nem nos subúrbios, mas claramente nessa outra França — disse Vincent Martigny, professor de ciência política da Universidade Côte d’Azur, em Nice, acrescentando que essa narrativa "alimenta o sentimento de deterioração, de declínio". Por outro lado, o período de seis meses até a eleição, afirmam os especialistas, é relevante e afasta a certeza de um impacto direto sobre o pleito — cabendo margem de manobra para todas as siglas em disputa adequarem suas próprias narrativas. Qual o futuro dos protestos? Após as medidas repressivas anunciadas pelo governo, incluindo o toque de recolher e o reforço policial, não há indícios de que as manifestações serão suspensas. Um novo ato já está convocado para o próximo sábado, e organizações sindicais prometeram 'subir o nível' dos protestos com uma greve em 5 de novembro. — Chegou o momento de subir o nível da mobilização. A greve deve assumir o protagonismo — disse a a líder do CGT, Sophie Binet, referindo-se à jornada de manifestações e paralisações que os principais sindicatos convocaram, no início de outubro, para o começo de novembro.

O poder de compra é uma das principais preocupações dos franceses, especialmente após a alta nos preços dos combustíveis desde o início das guerras no Oriente Médio, e uma resposta política que envolva o aumento dos gastos públicos mostra-se complexa, ainda mais considerando que o governo, em minoria no Parlamento, pretende implementar um ajuste fiscal significativo em 2027, visando sanear as contas públicas e tranquilizar os mercados. — A melhor maneira de acalmar as manifestações é adotar medidas iniciais que apaziguem a revolta, e isso, no momento, não temos — disse o líder do sindicato CFTC, Cyril Chabanier. (Com AFP e NYT)

Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X

Deseja ler a íntegra original na fonte jornalística?

Acessar matéria no site O Globo