A gigante suíça de alimentos Nestlé e a varejista francesa Auchan estão tentando dar conta da situação depois que o presidente russo, Vladimir Putin, colocou seus negócios locais sob administração temporária, uma medida que pode abrir caminho para a apreensão dos ativos.
A decisão é o mais recente esforço da Rússia para ampliar o controle sobre empresas de propriedade estrangeira desde o início da guerra na Ucrânia, em 2022.
A Nestlé afirmou nesta sexta-feira que tomará “todas as medidas necessárias” para proteger seus interesses. A Auchan se recusou a comentar.
Que negócios a Nestlé e a Auchan têm na Rússia? A Nestlé está presente na Rússia desde a década de 1990 e opera seis fábricas que produzem itens como café, alimentos para animais de estimação e fórmulas infantis.
A empresa afirmou empregar cerca de 7 mil pessoas no país, que responde por aproximadamente 1% de suas vendas globais.
Após a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, em 2022, a Nestlé suspendeu diversas marcas e interrompeu importações, exportações, publicidade e investimentos de capital considerados não essenciais no país, ao mesmo tempo que manteve algumas operações de alimentos essenciais.
A Auchan entrou na Rússia em 2002 e continua sendo uma das maiores varejistas estrangeiras do país.
No fim de 2025, empregava 24.236 pessoas e operava 229 lojas na Rússia, gerando 127 bilhões de rublos em vendas no primeiro semestre de 2026.
Ao contrário de muitas empresas ocidentais, a Auchan não deixou o mercado russo após a invasão de 2022.
Quem está assumindo o controle? O decreto nomeia a L.E.V. Management como administradora temporária dos ativos.
A empresa, sediada em Moscou, foi registrada em 2024 e possui pouca presença pública.
O jornal Kommersant informou anteriormente que uma empresa chamada KS Logistika havia pedido ao Kremlin que colocasse os ativos russos da Nestlé sob administração temporária.
Por que a Nestlé foi alvo? Isso ainda não está claro, embora o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, tenha afirmado nesta sexta-feira que as duas empresas estavam sediadas em países considerados “hostis”, sem citar nominalmente Suíça ou França.
A Rússia tem se tornado cada vez mais crítica em relação à posição da Suíça, tradicionalmente neutra, sobre a guerra na Ucrânia, depois que Berna adotou a maior parte das sanções da União Europeia contra Moscou.
O jornal Kommersant havia afirmado anteriormente que a Nestlé entrou na mira de Moscou devido à relutância da empresa em expandir suas operações na Rússia e retomar as exportações de produtos fabricados no país.
O decreto pode ter como objetivo pressionar a Nestlé a voltar a investir na Rússia.
Também pode ser um passo para forçar a empresa a deixar o país, obrigando-a a pagar uma taxa de saída significativa e a vender o negócio com desconto para um comprador aprovado pelo Kremlin.
Como funciona a administração temporária? A Rússia criou esse mecanismo em 2023 por meio de um decreto presidencial que permite ao Estado colocar sob administração temporária ativos pertencentes a empresas de países considerados “hostis”.
A propriedade não é formalmente transferida nessa etapa, mas o administrador indicado pelo Estado assume o controle dos ativos.
Como o país tem usado esse mecanismo? Desde o início da guerra, Moscou utilizou o mecanismo contra várias empresas de propriedade estrangeira, incluindo as operações russas do grupo francês de alimentos Danone, da cervejaria Carlsberg e da empresa de energia Fortum.
Em vários casos, a administração temporária foi seguida pela venda dos ativos a compradores russos com ligações com o Kremlin.
A Rússia também endureceu as exigências para a saída de empresas estrangeiras, impondo descontos obrigatórios, taxas de saída e outras restrições à venda de ativos.
Bloomberg
Valor