Por Paola Salgado, fundadora da PS Contrata Durante muito tempo, contratar um executivo significava olhar para uma combinação relativamente conhecida de fatores como experiência, capacidade de gestão, conhecimento técnico, histórico de resultados e aderência à cultura da empresa. Tudo isso continua importando. Mas a inteligência artificial está acrescentando uma nova camada a essa avaliação. O que esse executivo é capaz de fazer quando a tecnologia passa a fazer parte da rotina do negócio? Não estou falando apenas de saber usar ferramentas de IA, essa é uma visão pequena demais para o que está acontecendo. O verdadeiro diferencial começa quando o executivo consegue olhar para sua operação e perguntar: o que a IA pode fazer melhor, mais rápido ou com mais escala? O que ainda precisa permanecer nas mãos das pessoas? Como redesenho o trabalho da equipe a partir disso? Essa transformação já começa a se refletir nos processos de recrutamento, especialmente na seleção de executivos. Hoje temos reformulado nossos processos seletivos para acompanhar essa mudança. Se, há menos de um ano, uma das principais questões era entender se o candidato utilizava ferramentas de inteligência artificial, hoje o foco está muito mais em como ele utiliza a IA, com qual propósito e, principalmente, de que maneira essa tecnologia contribui para a qualidade de suas decisões e de seu trabalho. O movimento é consistente e mede-se em números. Segundo o LinkedIn, 88% dos executivos globais consideram acelerar a adoção de IA uma prioridade, e a empresa estima que 70% das competências utilizadas na maioria dos empregos mudarão até 2030. No Brasil, o cenário avança no mesmo ritmo, uma pesquisa da IDC encomendada pela Microsoft com 73 C-levels de empresas brasileiras com mais de mil funcionários mostrou que 88% acreditam que a IA será o principal motor de competitividade até 2030. Ou seja, não estamos mais discutindo se a IA fará parte das empresas. Estamos discutindo quem terá capacidade de liderar essa transformação. Não basta colocar uma ferramenta na mão do time Uma das primeiras conclusões que tive ao acompanhar a adoção de IA dentro da própria operação de recrutamento é que a tecnologia raramente funciona da maneira que imaginamos no primeiro momento. Na prática, descobrimos algo mais interessante: algumas atividades aparentemente operacionais têm um componente estratégico muito maior do que parece. Marcar uma entrevista, por exemplo, pode soar como tarefa simples. Mas a maneira como você aborda aquele candidato, conduz a comunicação e constrói o relacionamento pode determinar se ele continuará interessado na oportunidade. Nem todo operacional deve simplesmente ser automatizado, existe o que eu chamo de operacional estratégico. O mesmo vale para o hunting. A IA amplia a capacidade de busca, organiza informações e acelera etapas que consumiriam horas de trabalho. Mas alguém precisa definir o que estamos procurando, avaliar os resultados, identificar inconsistências e decidir quais informações realmente importam. A questão, portanto, não é simplesmente automatizar. É saber onde automatizar. O novo executivo precisa redesenhar o trabalho Esse talvez seja o critério mais importante que estamos começando a observar. Um executivo preparado para a era da IA não deveria chegar à empresa apenas com um plano para utilizar uma ferramenta, ele precisa ser capaz de redesenhar processos e, consequentemente, o trabalho das pessoas. A pergunta deixa de ser "quantas pessoas preciso para executar essa atividade?" e passa a ser também "qual é a melhor combinação entre pessoas, tecnologia e inteligência artificial para entregar esse resultado?". O Work Trend Index 2025, da Microsoft, mostra a dimensão dessa transformação: globalmente, 45% dos líderes apontam a ampliação da capacidade das equipes com trabalho digital como prioridade para os próximos 12 a 18 meses, e 47% colocam a capacitação da força de trabalho em IA entre as prioridades. No Brasil, 90% dos líderes pesquisados esperam utilizar o trabalho digital para ampliar sua força de trabalho nesse período, um número que muda inclusive a conversa sobre contratação. Em determinadas funções, a próxima contratação talvez não seja mais alguém para executar tarefas, mas alguém capaz de desenhar processos nos quais profissionais trabalhem em conjunto com agentes de IA. Existe outro aspecto que considero ainda mais relevante: o papel do executivo como desenvolvedor de pessoas. Essa sempre foi uma competência fundamental de liderança, só que agora ganhou uma nova dimensão. Estamos formando profissionais com acesso a ferramentas capazes de pesquisar, escrever, analisar dados, criar apresentações e programar atividades que antes exigiam mais tempo de formação e experiência. Se um júnior consegue usar IA para fazer em minutos uma tarefa que antes levava horas, o que o gestor fará com o tempo liberado? Vai simplesmente aumentar a quantidade de trabalho? Ou vai aproveitar a capacidade adicional para desenvolver raciocínio crítico, autonomia, repertório e responsabilidade? Essa é uma decisão de liderança, e o próprio Work Trend Index mostra que ela já está na mesa dos gestores. Segundo a pesquisa, 51% acreditam que treinamento e capacitação em IA passarão a ser uma responsabilidade importante de suas equipes nos próximos cinco anos. Por isso, quando entrevisto um executivo, quero entender não apenas se ele sabe utilizar uma tecnologia, mas como ele pretende fazer seu time evoluir em um ambiente no qual a tecnologia também está evoluindo. Diante de tudo isso, o que passa a separar um bom líder de um líder preparado para esse momento é a capacidade de enxergar o negócio de outra forma, sabendo onde a tecnologia entrega mais, onde o toque humano é insubstituível e como fazer as pessoas crescerem no meio dessa transição. Na PS Contrata, esse já é um dos principais filtros das nossas entrevistas. Mais do que perguntar "você usa IA?", queremos saber "o que você faz de diferente por causa dela?". A resposta diz muito sobre a maturidade de quem vai liderar equipes, redesenhar processos e tomar decisões em um cenário em que a tecnologia evolui mais rápido do que qualquer plano de carreira. A IA vai continuar avançando, com ou sem a nossa preparação. A diferença estará nos líderes que a usam para ampliar o que as pessoas têm de melhor, e não apenas para fazer as mesmas coisas mais rápido.
O que muda na liderança quando a IA entra para valer no negócio
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