O que motiva as crianças a trapacear? Devemos nos preocupar com isso?

 

Fonte:


É comum que crianças trapaceiem, e esse comportamento pode ser perturbador para os adultos. O que isso nos diz sobre o desenvolvimento psicológico? Como devemos reagir a jovens jogadores que burlam as regras?

Gripe aviária: Butantan conclui recrutamento de voluntários e fará estoque da matéria-prima de candidata à vacina

A fruta 'estrela do verão' que hidrata, nutre e dá saciedade

Todo mundo conhece crianças que trapaceiam no Banco Imobiliário ou jogando críquete. Talvez até tenham trapaceado em uma prova escolar.

Se você perceber que seu próprio filho se comporta dessa maneira, pode temer que ele esteja se encaminhando para uma vida cheia de fraudes.

Mas, do ponto de vista do desenvolvimento infantil, trapacear geralmente não é motivo de preocupação.

O que é trapaça?

A trapaça ocorre quando uma criança se comporta de maneira desonesta para obter uma vantagem indevida. Ela pode fingir ter tirado um seis no dado, dar uma olhada nas cartas dos outros, anotar incorretamente o placar de uma partida esportiva ou manipular videogames para passar de nível.

Apesar de todos os esforços dos pais e professores, a trapaça é extremamente comum. Em um experimento, crianças de cinco anos foram instruídas a não olhar dentro de uma caixa enquanto o pesquisador saía da sala. Quase todas olharam e a maioria negou ter feito isso.

Um sinal de desenvolvimento

A capacidade de enganar pode sinalizar o surgimento de novas habilidades, incluindo a capacidade de entender o que os outros estão pensando.

Para enganar com eficácia, precisamos refletir sobre o que o outro pensa. Em seguida, precisamos enganá-lo, fazendo-o acreditar em uma realidade diferente. Essas habilidades cognitivas só aparecem na idade pré-escolar, e é somente a partir do ensino fundamental que as crianças conseguem manter uma história fictícia por um longo período.

Colando na escola

À medida que as crianças crescem, elas podem se tornar mais cautelosas em relação a colar em geral, mas é também nessa fase que elas começam a colar na escola.

Em um estudo americano, mais de três em cada quatro alunos do ensino médio afirmaram ter colado pelo menos uma vez na escola durante o ano anterior.

As técnicas comuns incluíam compartilhar seu trabalho com outros, obter as respostas das provas com antecedência, plagiar na internet e colaborar em casos em que não deveriam fazê-lo.

Os alunos estavam mais propensos a considerar a trapaça aceitável quando ajudavam um colega ou quando podiam racionalizar esse comportamento de forma pró-social (por exemplo, eles estavam com falta de tempo e precisavam trapacear porque estavam cuidando de um membro da família).

A tentação é importante

Assim como os adultos, as crianças são mais propensas a trapacear em um ambiente onde a tentação é maior. Em um estudo, crianças de sete a dez anos eram mais propensas a trapacear em um jogo de dados se pudessem ganhar um prêmio maior.

Crianças e adolescentes também afirmam estar mais propensos a trapacear quando se trata de evitar consequências negativas. Já em 1932, o diretor da escola americana M. A. Steiner escreveu que a sobrecarga de trabalho levava os alunos a trapacear. Em um estudo realizado em 2008, os próprios alunos declararam trapacear na escola porque não estavam interessados nas matérias ensinadas ou porque sofriam pressão para obter bons resultados.

Se a tentação leva à trapaça, o risco de ser pego trapaceando pode incentivar a honestidade. As crianças devem pesar as vantagens da trapaça em relação aos riscos de serem pegas.

À medida que crescem, as crianças também podem refletir sobre o impacto da trapaça em sua autoimagem. Por exemplo, “ser uma boa pessoa é importante para mim, então não vou trapacear”.

Os meninos trapaceiam mais do que as meninas?

Algumas crianças são mais propensas a trapacear do que outras. Por exemplo, em um estudo realizado em 2019, no qual as crianças tinham que jogar seis dados para ganhar prêmios, os meninos trapaceavam mais do que as meninas. Meninos e meninas também tinham uma abordagem diferente em relação à trapaça: as meninas eram mais propensas a trapacear para evitar perdas, enquanto os meninos eram motivados tanto pelas perdas quanto pelos ganhos.

As competências sociais também fazem a diferença. Um estudo americano realizado em 2003 mostrou que as crianças do segundo ano do ensino fundamental que foram rejeitadas pelos colegas são mais propensas a trapacear em jogos de tabuleiro, mesmo quando jogam com crianças que nunca conheceram antes. É possível que elas tenham mais dificuldade em controlar suas emoções e comportamentos.

Os adolescentes que têm menos autocontrole e toleram mais as infrações às regras são mais propensos a aceitar a trapaça escolar, assim como aqueles que se comportam mal em sala de aula.

Como os adultos podem desencorajar a trapaça?

Embora a trapaça seja comum, ela pode causar problemas crescentes para crianças e adolescentes à medida que os desafios se tornam mais importantes. Um estudo realizado com alunos chineses do quarto ano do ensino fundamental mostrou que aqueles que trapaceavam ao corrigir suas próprias provas tinham menos chances de aprender a resposta certa posteriormente.

Aqui estão quatro medidas que pais e professores podem tomar para desencorajar a trapaça.

Tenha conversas abertas: discuta abertamente e com compaixão as razões pelas quais trapacear não é uma boa ideia (por exemplo, “isso estraga a diversão dos seus amigos”). Pesquisas mostram que crianças e adolescentes que prometeram aos pesquisadores que não trapaceariam em um jogo eram menos propensos a fazê-lo. Mas as crianças que temem ter problemas são menos propensas a dizer a verdade.

Não coloque muita pressão nos resultados: quando falar sobre a escola, use uma linguagem relacionada à aprendizagem, em vez de ao desempenho (“faça o seu melhor, é tudo o que você pode fazer”). Estudos mostram que ambientes escolares altamente competitivos incentivam a trapaça, pois as vantagens do sucesso e os riscos do fracasso são ampliados.

Seja positivo em relação ao caráter do seu filho: em um estudo, crianças em idade pré-escolar foram divididas em dois grupos. No grupo “boa reputação”, foi dito às crianças: “Conheço crianças da sua turma e elas me disseram que você é uma criança bem comportada”. No outro grupo, nada foi dito às crianças. Em seguida, todas as crianças foram solicitadas a não olhar para um brinquedo atraente enquanto o pesquisador saía da sala. As crianças do grupo “boa reputação” foram menos propensas a trapacear (60%) do que as do outro grupo (90%).

Dê o exemplo às crianças: se os adultos se comportarem de maneira honesta e aberta, as crianças estarão mais propensas a fazer o mesmo. Em um estudo, as crianças foram informadas de que havia uma grande tigela de doces na sala ao lado. Quando descobriram que era mentira, as próprias crianças ficaram mais propensas a trapacear durante o jogo e a mentir sobre isso.

*Penny Van Bergen é professora associada de Psicologia da Educação, da Universidade Macquarie.

*Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.