O que fazer quando os filhos dizem 'não' para tarefas básicas na pré-adolescência?

 

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"Como lidar com o enfrentamento de filhos pré-adolescentes que se negam a realizar tarefas básicas, como acordar para ir para a escola, fazer as tarefas de casa e estudar?"

Lembro que quando minha filha passou pelos 2 anos, o termo “terrible two” (“os terríveis 2”), me incomodava muito. Era um bebê se transformando em criança, aprendendo a se desconectar dos pais, a falar e andar, que descobria que era de fato uma pessoa completa, e não uma extensão dos pais. E as pessoas só rotulavam como uma fase difícil? Eu via a beleza da descoberta de um ser no mundo.

Claro que foi difícil deixar de ter meu bebê fazendo tudo do jeito que eu queria para dar lugar a uma criança com suas próprias vontades. Mas não é para isso que criamos os filhos? Para que eles sejam eles mesmos?

Eu sempre adorei conversar com pré e adolescentes. Talvez porque a minha adolescência tenha sido plena: eu testei ser capoeirista, roqueira, dançarina, patricinha, forrozeira… Acabei não sendo nada disso, mas meus pais me permitiram testar. Andar em bando. E, acima de tudo, me permitiram o questionamento. E foram muitos.

Enxergar a adolescência com outro olhar, com empatia, é o primeiro passo para atravessar com seu filho esse momento. Se estiver muito difícil, tente se lembrar de como foi para você.

Procure cartas, diários, fotos. Pode ser que tenha sido menos difícil do que você se lembra. Ou menos fácil do que você gostaria (o mais provável).

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Palavra dos especialistas 👩‍🏫👨‍🏫

Estéfi Machado - Criadora de conteúdo (@blog.estefi.machado) e mãe do Teo, de 18 anos

💭 A pré-adolescência costuma confundir muitos pais porque de repente aquele filho que antes cooperava começa a confrontar, questionar e até se recusar a fazer o básico. Mas é importante entender que isso não é “rebeldia” sem causa, faz parte do desenvolvimento.

🔄 O pré-adolescente está atravessando uma transição importante, como um limbo. Ele já não se sente mais criança, mas ainda não tem maturidade emocional para agir como adolescente. Nesse meio do caminho, surge o confronto como uma forma ainda imatura de firmar autonomia.

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⚖️ Dito isso, acolher não significa permitir tudo. O papel dos pais aqui é equilibrar alguns pilares:

📌 1. Clareza de limites:

A rotina e os seus valores não são negociáveis. Ir para a escola, estudar e cumprir responsabilidades básicas não entram em debate. O que pode ser negociado é como isso vai acontecer, inclusive colocando o adolescente para construir esses combinados juntos.

⚠️ 2. Evitar confronto direto:

Entrar em embate o tempo todo só alimenta a resistência. Em vez disso, trabalhe com consequências previamente combinadas e de preferência que ele tenha participado. É muito mais provável que um adolescente cumpra regras que ele mesmo ajudou a estipular e se sentiu acolhido nas próprias necessidades.

💞 3. Conexão antes da correção:

Muitas vezes, por trás do embate existe cansaço, desmotivação ou até insegurança. Antes de corrigir o comportamento, é essencial tentar entender o que está acontecendo. Perguntas e interesse verdadeiro sobre o universo do seu adolescente abrem portas que a cobrança fecha. Vejam coisas juntos, escute os podcasts dele, leiam as mesmas coisas, curtam a mesma música.

🎯 4. Autonomia com responsabilidade:

Dê pequenas escolhas controladas: “Você prefere fazer a lição antes ou depois do jantar?”. Isso reduz o confronto porque o adolescente sente que tem poder de escolha ao mesmo tempo em que se sente visto e respeitado.

🧭 Em resumo: Seu filho não está “contra você”, ele está tentando se entender como indivíduo. Mas ele ainda precisa e muito de adultos firmes, consistentes e emocionalmente disponíveis para serem margem nesse processo.

Felipe Fortes - Médico hebiatra do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente da Uerj (@medicodejovens) e pai da Sofia, de 19 anos

🧠 A primeira coisa importante é introjetar que a adolescência não é uma fase. Eu não gosto da definição de que a adolescência é uma fase de transição, de passagem da infância à vida adulta. Se a gente coloca desse jeito, desconsideramos e esquecemos que a adolescência é um momento importante, específico da vida da gente, cheio de características especiais e particulares.

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🔍 Se pararmos para pensar, ninguém define, por exemplo, a infância como uma fase de transição da vida intrauterina para a adolescência. Ou a vida adulta como uma fase de transição da adolescência para a terceira idade. Então, por que a gente faz isso com a adolescência? Fazemos isso porque olhamos para a adolescência de forma meio pejorativa, rotulando um pouco eles, inclusive falando que são "aborrecentes" — uma palavra que eu detesto.

✨ Isso pode ser uma coisa simples, mas ressignifica a importância da adolescência para a vida do ser humano, para o seu desenvolvimento. Quando a gente fala que é só uma fase, a diminuímos um pouco: como se fosse só uma fase que vai passar. Como se a adolescência fosse só ruidosa e difícil. A adolescência é, na verdade, um momento muito criativo, potente, bonito e cheio de vida. É claro que pode ter os seus momentos mais à flor da pele, mais difíceis, mas a gente não pode generalizar.

🧬 Depois, é preciso entender quais são as características psicossociais e socioemocionais deste momento. Na adolescência temos uma intensa transformação: do corpo, as transformações da puberdade, ou seja, físicas e biológicas, mas também uma remodelação cerebral.

🧱 Nesse remodelamento, o que o ser humano precisa fazer para formar a sua própria personalidade é, primeiro, questionar as regras e leis que foram aprendidas na infância. Então, ele questiona principalmente as leis parentais, as regras dentro de casa, mas também na escola e na sociedade, para começar a formar suas próprias opiniões, ou seja, seus pontos de vista sobre si mesmo e sobre o mundo.

👥 Depois, entra um outro movimento essencial: olhar para os pares e se identificar com eles. É aí que muitos pais se desesperam, porque o adolescente quer fazer tudo em grupo — se vestir parecido, ouvir as mesmas músicas, seguir os mesmos estilos.

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🌪️ É um momento de transformação intensa. E quando eles dizem “não” para as coisas que os pais pedem — para as tarefas de casa, para a necessidade de ir à escola —, não estão fazendo isso porque estão contra os pais. Na verdade, eles precisam questionar para formar sua própria identidade.

🧘 Saber isso não resolve exatamente o problema, mas nos coloca numa situação mais empática e tranquila para não reagir com raiva, frustração e agressividade quando eles nos dizem “não” ou quando rompem as regras.

🚧 Isso não impede que coloquemos limites enquanto adultos. O que eu sempre sugiro é colocar esses limites com mais clareza e, principalmente, sem agressividade, sem violência ou reações intempestivas. Se a gente fecha a cara e responde de forma mais ríspida, o atrito está formado e não conseguimos ir a lugar nenhum.

❤️ Entender esse momento da vida é importante, respirar fundo, acolher os sentimentos mais periclitantes dos adolescentes, e conseguir colocar limites de forma afetuosa e amorosa, sempre lembrando que a última palavra é do adulto. Isso é muito importante.

AQUI EM CASA É ASSIM 🏠

'O confronto é natural e saudável', por Thaís Vilarinho (@maeforadacaixa)

"O papel do adolescente é confrontar e questionar. Por isso, não dá para levar para o pessoal ou achar que seu filho está fazendo para te incomodar. O enfrentamento deles é muito necessário, assim como o afastamento, o descolamento dos pais.

O primeiro conselho é: entenda esse confronto como algo normal e saudável.

Dito isso, aqui em casa, para as tarefas básicas, não há a opção de serem feitas ou não. Conversamos e dizemos que moramos na mesma casa e, dentro de casa, cada um precisa fazer sua parte. Isso, na verdade, não é uma escolha: é uma condição da nossa família, de que as coisas vão funcionar desse jeito, e todos terão seu papel.

Vamos juntos estabelecer essas regras e segui-las. Nós, como pai e mãe, também temos as nossas tarefas, e é importante fazer a nossa parte. Eles veem a gente fazendo e entendem que precisam fazer a parte deles.

Uma coisa que não tem escolha é a escola. Eu sempre falo em casa: o que você faz da vida é estudar. Então, não tem a opção de não estudar. Você precisa se formar para fazer uma faculdade, algo que você gosta. Deixo claro que é responsabilidade deles e que eu espero que eles abracem essa responsabilidade. E, se isso não acontecer, haverá algumas consequências dentro e fora de casa.

Então, mostro que, se eles fizerem a parte deles dessa demanda — basicamente da organização em casa e dos estudos —, poderão fazer coisas que eu acho que dão conta de fazer lá fora. E, se não, não vão conseguir fazer essas coisas.

E isso funciona muito bem por aqui".

Thaís Vilarinho é escritora, palestrante e mãe dos adolescentes Matheus e Thomás, de 15 e 18 anos

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