O que é ‘psicose política’? Ansiedade com eleições vira assunto nas redes; veja como lidar

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Fonte da notícia: Valor Valor

Depois de um primeiro turno apertado nas eleições presidenciais, a ansiedade em torno do pleito virou assunto na internet e ganhou um nome: “psicose política”. Embora não seja um diagnóstico clínico formal, o termo passou a ser usado por parte dos eleitores para se referir ao sentimento. Para especialistas, o fenômeno tem relação com a polarização e a radicalização política, além de ser amplificado pelas redes sociais.

A expressão ganhou popularidade principalmente entre eleitores de esquerda, após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, terminar o primeiro turno em desvantagem, com 45,15% dos votos, abaixo dos 47,03% recebidos por Flávio Bolsonaro (PL). O termo aparece em postagens, memes autodepreciativos ou acompanhando comentários sobre o noticiário político Para a psicóloga Alessa Rodrigues, as reações são esperadas quando não é gerado o resultado aguardado por parcela da população. Ela compara o movimento às etapas de luto como choque, raiva, tristeza e reorganização. “É tipo uma regulação emocional, nesse caso, coletiva”, conta. Alessa explica que, pela ótica clínica, a condição não pode ser considerada uma psicose. “A psicose é uma condição neurobiológica que altera a personalidade e comportamento, produz delírios, alucinações (pensamentos desconectados da realidade). O termo [psicose política] é um fenômeno psicossocial, de pertencimento de grupo e talvez por mexer tanto com o nosso psicológico, acaba sendo confundido com psicose, mas sua verdadeira raiz é social e coletiva”, explica.

Ela destaca que a questão de uma psicose coletiva deve ser vista no sentido sociológico. Radicalização do debate A psicanalista Vera Iaconelli identifica uma relação entre o fenômeno e elementos como a radicalização do debate político e o protagonismo das redes sociais. Para ela, o problema não está na existência de posições políticas distintas, mas na dificuldade crescente de sustentar o diálogo com quem pensa de outra maneira.

Segundo a especialista, as convicções individuais também são influenciadas por motivações emocionais, experiências pessoais e formas de pertencimento. Nesse contexto, o resultado das urnas é interpretado por alguns eleitores como uma confirmação ou uma ameaça à própria identidade, aos valores e às expectativas em relação ao futuro.

No caso da escritora mineira Vitória Cavazza Lisboa, 22, o cenário se traduziu na decisão de se afastar de familiares durante o período eleitoral neste ano. “[Me afastei] pelo simples fato de ele dizer me amar, mas, ainda assim, diante de todas as provas, votar em uma pessoa que me odeia apenas por existir. Sou mulher, LGBT+ e autista”, explica, ao comentar sobre o rompimento de laços com um primo próximo.

Maurício Pereira, diretor de marketing e performance em uma agência de influenciadores em São Paulo, 35, conta que também tomou a decisão de evitar conversas sobre as eleições, mesmo sendo politicamente engajado. A escolha ocorreu após ter experiências de brigas com conhecidos durante o período eleitoral.

“Com família e amigos eu evito conversar, porque sei que gera intrigas. Acho válido cada um ter e até defender seu ponto de vista, mas quando isso sai da esfera amigável e parte para agressões, deixa evidente que a relação é insustentável”, comenta.

Para Iaconelli, a radicalização cria um ambiente em que o diálogo se torna secundário. Sem a disposição de apresentar razões e submetê-las à avaliação do outro, a discussão política perde sua dimensão de troca e passa a reforçar posições já estabelecidas.

“As famílias ficaram rompidas. Todo mundo tem uma história de um Natal que não funciona, de um clube que ninguém frequenta, um condomínio onde as pessoas se odeiam, um trabalho onde você não consegue estar, demissões, ruptura de amizades, todo mundo tem uma história triste para contar de ruptura do laço social em função dessa nova forma de entender a política, que não é mais dialógica, ela é de eliminação do outro”, conta.

Na avaliação da psicanalista, as redes sociais não apenas ampliam a circulação de opiniões políticas, mas também podem reforçar padrões de comparação, cobrança e insatisfação. Em períodos eleitorais, o ambiente digital pode se combinar com a circulação constante de notícias, opiniões e conteúdos que reforçam a sensação de urgência.

“A radicalização é uma forma de impedir o diálogo. Quando você radicaliza, você tem o álibi perfeito para não apresentar suas razões. É dogmático, um ato de fé. É frustrante, exaustivo e inibidor”, explica Iaconelli.

Diálogo e encontros presenciais como remédios Diante de conflitos políticos, a recomendação da psicanalista é distinguir as pessoas dispostas a conversar daquelas que chegam ao debate sem abertura para a escuta. Iaconelli também defende a retomada dos encontros presenciais como forma de reconstruir condições para o diálogo. “O olho no olho desmascara muitas das violências. Quando você está na presença das pessoas, você tem mais chance de ter um diálogo real”, ressalta.

Para a psicanalista, o enfrentamento do esgotamento emocional também depende da capacidade de construir iniciativas coletivas. Em um contexto marcado por solidão, isolamento e falta de reconhecimento, participar de ações voltadas a objetivos comuns pode ampliar a sensação de pertencimento e reduzir a percepção de impotência diante dos acontecimentos.

Já a psicóloga Alessa Rodrigues observa que o acompanhamento nas redes sociais sobre possíveis cenários acende um alerta que deixa os eleitores vigilantes o tempo todo, gerando um desgaste emocional. Porém, a situação pode ser contornada ao realizar um controle pessoal.

“Dá para pensar em situações em que você pode se sentir mais no controle. É também necessário pensar que as pequenas coisas são políticas, exercer aquilo que você considera correto em ações do dia a dia, na sua comunidade”, ressalta a especialista.

informação; celular Gilles Lambert/Unsplash

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