O que é ‘pink pill’? Entenda movimento de mulheres em resposta aos ‘red pill’

O que é ‘pink pill’? Entenda movimento de mulheres em resposta aos ‘red pill’

 

Fonte: Bandeira



“Incel”, “red pill”, “black pill”... Alguns termos relacionados à defesa ou ao combate ao machismo têm ganhado cada vez mais repercussão nas redes — e fora delas. O que antes era renegado a fóruns obscuros da internet não só se popularizou, cirulando em mais espaços virtuais e reais, como tem resultado em atos extremos.

Cachorro atira em mulher com espingarda em loja de conveniência nos EUA

Papa Leão XIV alerta sobre perigos da I.A. em sua primeira encíclica; veja o que ele disse

Surfista brasileiro é atingido no coração por peixe-agulha na Costa Rica

Em 2024, um homem de 26 anos, identificado como Kyle Clifford, matou as irmãs Louise, de 25, e Hannah, de 28, e a mãe delas, Carol Hunt, de 61, na cidade de Bushey, no Reino Unido. Ex-namorado de Louise, ele foi condenado à prisão perpétua pelos três assassinatos e pelo estupro de sua ex.

De acordo com autoridades, Kyle assistia a vídeos de influencers da chamada “manosphere”, uma rede que une usuários que baseiam sua ideologia na valorização da hiper-masculinidade e na negação ao feminismo.

Um dos principais expoentes dessa onda é Andrew Tate. O influenciador britânico-americano já se chamou de “absolutamente misógino”, tendo descrito mulheres como “intrinsecamente preguiçosas”.

Ele ficou famoso após participar da versão britânica do "Big Brother" em 2016, tendo sido expulso no sexto dia do reality após um suposto vídeo em que ele agride uma mulher ser vazado.

"Pink pill": a resposta feminina aos “hiper-misóginos”

Sem uma definição exata, as mulheres adeptas ao “pink pill’ abrangem um grande espectro: vão desde mulheres que tentam ajudar outras mulheres a perceberem como seus parceiros são abusivos e machistas, passando pelas “femcel”, chegando àquelas que acreditam que o homem deve apenas servir a mulher.

Para Lina AbiRafeh, especialista em direitos das mulheres e escritora, a "pink pill" se desenvolveu em espaços feministas e queer, sendo uma resposta direta a “red pill” e “black pill”.

Em um artigo, ela explica: “Às vezes, é adotada sarcasticamente para combater a misoginia da 'pílula vermelha'. E, outras vezes, é um apelo à solidariedade e ao empoderamento feminino”.

Influencer ensina mulheres a "se valorizarem"

Reprodução

Entre as integrantes do primeiro grupo — que tentam ajudar outras mulheres — estão influencers como a usuária Brendioous, que se autointitula "PinkPill". Em seu perfil no TikTok, onde possui mais de 200 mil seguidores, ela posta vídeos dizendo coisas como “pare de ser iludida, ele NUNCA vai mudar” e “mulher com autoestima baixa é o prato favorito de qualquer homem COVARDE”, em que defende que as mulheres se valorizem, deixando para trás relacionamentos com homens problemáticos.

Initial plugin text

Além dos vídeos, ela também comercializa diferentes e-books, como “Sinais para a boa vadia má”, que ensina os sinais de um comportamento tóxico em homens; “99 segredos da mulher mimada”, que afirma mostrar como fazer um homem “mimar” uma mulher”; e “Chora nos meus pés: o guia definitivo para ter seu ex de volta”.

Algum dos livros vendidos pela influencer

Reprodução

Em seu site, ela se define como uma “sobrevivente de relacionamentos conturbados”: “Hoje, sua dedicação é capacitar mulheres a reconhecerem seu valor e a construírem relacionamentos saudáveis e respeitosos”.

Algumas usuárias fazem paródia de falas "red pill"

Reprodução

Algumas outras usam as mesmas falas de homens “red pill” como forma de deboche. Por exemplo, no X, uma usuária escreveu “meu maior pink pill behaviour é ter horror a homem rodade”.

“Femcels” e as “pink pill” radicalizadas

Embora, popularmente, tenha-se a ideia de que o termo “incel” seja o correto, dentro das comunidades, compreende-se que o homem incel se chama “mancel” e, por consequência, a mulher incel se chamaria “femcel”.

"Femcels" tem até bingo

Reprodução

Essas, que referem a si mesmas como “foids” — termo usado por homens misóginos para se referir a mulheres, que tem origem no termo “femoid”, união de “female” e “android” —, embora paradoxo, ao mesmo tempo acreditam que, mesmo incorporando os sinais tradicionais de feminilidade nunca serão consideradas atrativas pelos homens.

Para a ativista AbiRafeh, essas mulheres refletem o desespero dos “black pills” numa perspectiva feminina: “Em outros casos, a 'pink pill' é usada por comunidades de 'esposas tradicionais' que glorificam a feminilidade hipertradicional e a submissão”.

Ao mesmo tempo, essas mesmas “femcels” acreditam que o homem deve se subjugar à mulher. Em um post de uma usuária do X, ela afirma que não quer ser amada por homens: “Quero ser adorada, idolatrada como uma divindade. Quero que eles me admirem, mas ao mesmo tempo tremam diante de mim”, escreve.

Usuária "femcel" afirma: "quero escravos"

Reprodução

Um estudo, publicado no European Journal Of Cultural Studies, procurou analisar a cultura e o discurso dessas mulheres auto-intituladas “femcel”. Os pesquisadores afirmam que essa expressão é parte de um clima cultural de desistência, fatalismo e apolitização, que tem a decepção com a heterossexualidade, conhecida nesses círculos como “heteronihilismo”, como sintoma de uma rejeição geral da esperança social, da política coletiva e da transformação.

As “femcels” e as “pink pills” radicalizadas são enfáticas em concordar com a ideia de que os homens devem minar e prover para elas: se o parceiro não estiver, a todo o momento, pagando e dando presentes, então ele não “te valoriza” — enquanto as “pink pills” mais brandas acreditam na autossuficiência feminina.

Para os pesquisadores, a mulher "femcel" não é uma feminista radical, mas sim uma versão "feminina" do niilismo reacionário que também habita o “manosphere” de Andrew Tate e Kyle Clifford. Já AbiRafeh considera a "pink pill" uma forma de prisão: "O tradicionalismo da pílula rosa confina as mulheres a papéis restritivos, glorificando a submissão como libertação".

"O feminismo oferece uma alternativa. Ele insiste em dizer que a dignidade, a igualdade e a liberdade não são ilusões, mas direitos pelos quais vale a pena lutar", conclui ela.