O que é a síndrome da face hiperpreenchida e por que o tema preocupa

O que é a síndrome da face hiperpreenchida e por que o tema preocupa

 

Fonte: Bandeira



Depois de anos em que a harmonização facial se consolidou como uma das principais tendências da estética, especialistas começaram a observar um movimento contrário ao excesso de procedimentos e à busca por resultados considerados artificiais. Rostos excessivamente volumizados, traços pouco naturais e mudanças marcantes na expressão facial passaram a despertar debates nas redes sociais e dentro dos consultórios, especialmente após a popularização dos preenchimentos com ácido hialurônico ao longo da última década.

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Nesse contexto, estudos recentes passaram a descrever uma condição conhecida como síndrome da face hiperpreenchida — ou Facial Overfilled Syndrome (FOS) — associada ao uso excessivo e repetido de preenchimentos faciais. Em abril deste ano, uma revisão científica apontou que o quadro pode provocar distorções na dinâmica facial, alterações estruturais e impactos psicológicos ligados à percepção da própria imagem.

"Essa é uma das complicações mais comuns, porém subdiagnosticadas do uso excessivo de preenchimento. Essa condição vai muito além de um simples excesso de volume localizado; em vez disso, manifesta-se a partir de uma interação complexa de disfunções anatômicas, gerando em muitos casos mais flacidez de pele e fatores psicológicos subjacentes", explica a dermatologista Paola Pomerantzeff.

Segundo a médica, o problema não se limita apenas à aparência e pode afetar a estrutura da face de maneira progressiva.

"Quando volumes de preenchimento ultrapassam a capacidade natural de acomodação dos tecidos da face, a pele, os compartimentos de gordura, os ligamentos e até a dinâmica muscular começam a trabalhar fora do equilíbrio para o qual foram biologicamente programados. Esse excesso pode distender progressivamente o 'envelope' cutâneo, reduzindo sua capacidade de retração ao longo do tempo e favorecendo sinais de flacidez e perda de naturalidade", afirma.

Ela destaca que o acúmulo repetido de substâncias também pode alterar movimentos naturais da expressão facial. "Ao mesmo tempo, o produto em excesso pode limitar a movimentação fisiológica dos músculos da mímica facial, alterando a forma como a face se comporta durante o sorriso, a fala ou outras expressões, gerando projeções e volumes que parecem artificiais", diz a dermatologista.

O debate acontece em um momento em que procedimentos minimamente invasivos se tornaram mais acessíveis e frequentes, impulsionados por tendências de redes sociais, filtros digitais e mudanças constantes nos padrões de beleza. Ao mesmo tempo, cresce a busca por resultados mais discretos e pela chamada estética natural, movimento que vem levando parte dos pacientes a rever intervenções feitas nos últimos anos.

De acordo com Dra. Paola, a repetição contínua de aplicações pode provocar efeitos duradouros nos tecidos faciais.

"Além disso, quando esse processo é repetido ao longo dos anos, com reaplicações sucessivas, parte do material pode permanecer nos tecidos por mais tempo do que o previsto, migrar para áreas vizinhas ou desencadear respostas inflamatórias crônicas, como nódulos, granulomas e mudanças na própria estrutura da gordura facial, contribuindo para o aspecto conhecido como 'face hiperpreenchida'", esclarece.

A médica observa que exames recentes de imagem também passaram a indicar uma permanência maior dos preenchimentos no organismo do que se imaginava anteriormente. "Tradicionalmente, acredita-se que os preenchimentos se degradam em seis meses a um ano; no entanto, estudos recentes de ressonância magnética indicam que os preenchimentos podem permanecer por até 27 meses", comenta.

Para evitar excessos, a dermatologista destaca a importância de avaliação individualizada e de um planejamento que considere a anatomia e o processo natural de envelhecimento de cada paciente.

"Quando se estuda a anatomia humana e o processo de envelhecimento, observamos várias mudanças em diversas estruturas da face. Ocorrem alterações nos ossos da face que ficam cada vez menos ‘densos’, nos músculos (que ficam cada vez mais finos e flácidos), na gordura da face (ocorre perda gradual dessa gordura) e na pele propriamente dita", detalha.

Segundo ela, resultados artificiais muitas vezes estão ligados à ausência de diagnóstico preciso e ao uso inadequado de técnicas. "A falta de diagnóstico, ou um diagnóstico errado, leva à escolha de técnicas erradas ou associações erradas que levarão a um resultado 'artificial', 'exagerado', 'detectável' ou até mesmo a uma falta de resultado", pontua.

O tratamento para casos de face hiperpreenchida varia de acordo com o grau da condição e com os objetivos do paciente. Em situações mais leves, especialistas podem indicar apenas a interrupção de novas aplicações e procedimentos voltados à firmeza da pele. Já nos casos mais avançados, pode ser necessária a remoção do preenchedor com hialuronidase ou outros métodos específicos.

"Mas é muito importante que se entenda que o tratamento clínico de rejuvenescimento facial deve mudar da simples restauração de volume para o tratamento preciso e específico de cada camada, respeitando a dinâmica facial e as limitações individuais", finaliza a Dra. Paola.