O espírito de celebração dos Jogos Olímpicos de Atlanta foi brutalmente interrompido na madrugada de 27 de julho de 1996, há 30 anos, quando uma explosão no Parque Olímpico Centenário transformou a festa do esporte em um cenário de terror, sangue e estilhaços. Por volta de 1h20 daquele sábado, uma bomba de pregos caseira, escondida numa mochila militar, foi detonada em meio a uma multidão que assistia a um show de rock. O ataque feriu mais de 110 pessoas e matou na hora a americana Alice Hawthorne, de 44 anos, atingida por um prego na cabeça . O cinegrafista turco Melih Uzunyol também morreu, vítima de um infarto fulminante quando corria para registrar a tragédia. Neonazismo: O ataque que matou 70 jovens de esquerda na Noruega Jorge Rafaat: Como assassinato provocou guerra entre facções no Brasil O atentado terrorista só não tomou proporções ainda piores graças à atitude de um homem que se tornaria figura central desse episódio. Foi um segurança chamado Richard Jewell quem percebeu a mochila suspeita abandonada sob um banco perto da torre de som e, imediatamente, alertou os agentes da lei. Com faro aguçado, Jewell e outros policiais iniciaram, então, uma evacuação rápida do perímetro. Esses minutos preciosos de medidas preventivas provavelmente salvaram centenas de vidas, antes que a carga de pólvora e pregos fosse acionada, mitigando o impacto direto da onda de choque na multidão. Havia muito mais gente ali antes da ação emergencial de evacuação. Instagram: Siga nosso perfil com imagens de 101 anos de jornalismo Porém, ao longo dos dias seguintes, a cobertura jornalística oscilou rapidamente. Após o ataque, as reportagens destacavam o heroísmo do segurança, mas, logo, ganhou lugar uma injustiça operada pelas autoridades e pela própria imprensa nos Estados Unidos. Três dias depois do ocorrido, Jewell passou de "salvador da pátria" para o principal suspeito do atentado, de acordo com a investigação do FBI, a polícia federal americana. Documentos vazados daquela apuração davam conta de que o segurança teria plantado o artefato para simular o próprio heroísmo. A partir dali, Jewell foi submetido a um implacável linchamento midiático. O prédio onde ele morava com a mãe foi cercado por repórteres. O segurança virou o "culpado" pelo atentado antes de qualquer acusação formal. Cena do filme "O caso Richard Jewell", de Clint Eastwood Reprodução O calvário do segurança durou 88 dias, terminando oficialmente em outubro daquele ano, quando o Departamento de Justiça dos Estados Unidos emitiu uma carta de desculpas reconhecendo que ele não era o autor do crime. O verdadeiro culpado, contudo, permaneceria nas sombras por muito tempo, desafiando a inteligência americana. As autoridades levaram quase dois anos para identificar o autor do ataque nas Olimpíadas como Eric Rudolph, um extremista de extrema-direita movido por ideologias anti-governo, homofóbicas e anti-aborto. Ele enxergava os Jogos como uma vitrine do "globalismo" e de valores liberais que tanto repudiava. Mas o FBI levaria ainda anos para prende-lo. Depois do ataque em Atlanta, Rudolph continuou nas sombras, levando a cabo sua campanha de terror no Sul dos Estados Unidos. Ele entrou no radar das forças de segurança quando foi considerado suspeito pela explosão de uma bomba de pregos em uma clínica de aborto em Birmingham, no estado americano do Alabama, que matou duas pessoas, em janeiro de 1998. Àquela altura, o criminoso já tinha realizado outros dois atentados, após o ataque em Atlanta. Em janeiro de 1997, ele explodiu uma bomba em uma clínica de aborto em Sandy Springs, na Georgia. E, no mês seguinte, o terrorista plantou outro explosivo em um bar de lésbicas em Atlanta, ferindo cinco pessoas. Criminoso virou um 'fantasma' para FBI Eric havia servido no Exército dos Estados Unidos. Ele chegou ao posto de especialista da 101ª Divisão Aerotransportada, mas foi dispensado em 1989 após ser flagrado com maconha. Sua habilidade de sobrevivência na selva o transformou em um fantasma para o FBI, que o incluiu na lista dos dez criminosos mais procurados do mundo. O terrorista se escondeu por mais de cinco anos nas florestas da Carolina do Norte, alimentando-se de restos de comida e de caça, enquanto era o alvo de uma perseguição com custos milionários, com centenas de homens e uso de helicópteros.
A fuga terminou em maio de 2003, por acaso, quando um policial de 21 anos em patrulha abordou um homem com as roupas sujas que revirava a lixeira de um mercado na pequena cidade de Murphy, na Carolina do Norte. O homem tentou fugir, mas parou quando o agente puxou sua arma. Depois de ser brevemente interrogado no próprio local, o suspeito maltrapilho revelou que ele era Eric Rudolph.
Em 2005, para evitar a pena de morte com um acordo, o extremista confessou a autoria do atentado de Atlanta e dos demais ataques. Condenado a quatro prisões perpétuas consecutivas e sem direito a condicional, ele está sob custódia numa prisão de segurança máxima no Colorado, conhecida como a "Alcatraz das Montanhas Rochosas", onde passa 23 horas por dia em total isolamento. O caso de Atlanta deixou cicatrizes profundas não apenas na história olímpica, mas também nos manuais de segurança pública e na ética do jornalismo mundial. A pressa para apontar culpados destruiu a reputação e a saúde de Richard Jewell, que processou diversos veículos de comunicação pela forma como foi acusado injustamente. Ele viria a falecer precocemente, em 2007, aos 44 anos, devido a complicações cardíacas supostamente agravadas pelo estresse crônico daquela época. Sua história foi levada ao cinema pelo diretor Clint Eastwood no filme "O Caso Richard Jewell", lançado em 2020, com o ator Paul Walter na pele do segurança que evitou a morte de muitas pessoas.
O Globo