O que acontece no corpo durante a menopausa e quais são seus principais impactos

 

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A menopausa ainda é um dos temas que mais geram apreensão entre as mulheres, não apenas pelas mudanças hormonais naturais dessa fase, mas também pela variedade de sintomas que podem impactar o dia a dia. O período de transição, conhecido como climatério, envolve alterações físicas e emocionais que vão surgindo gradualmente e podem se estender por anos.

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Segundo o ginecologista Nélio Veiga Junior, o quadro é amplo e envolve diferentes manifestações. "Os sintomas do climatério incluem irregularidade menstrual, ondas de calor, suores noturnos, secura vaginal, alterações de humor e insônia", explica.

A ginecologista Patricia Magier acrescenta que as mudanças não se limitam ao corpo. "Ansiedade, depressão, perda de libido, distúrbios do sono e da concentração também são alguns dos problemas", afirma. Ela destaca ainda que o processo começa antes da menopausa em si: "Estes sinais e sintomas podem começar anos antes da menopausa, um período conhecido como perimenopausa, quando há grandes oscilações hormonais, mas tendem a continuar sua manifestação por muitos anos mesmo depois da menopausa."

Além do desconforto dos sintomas, especialistas alertam para riscos de saúde mais amplos associados à queda hormonal. "No entanto, outras complicações são potencialmente mais graves do que essas. Há questões médicas envolvidas e um risco aumentado de doenças, por isso não é aconselhável ignorar o tratamento nesse período. Mulheres na pós-menopausa podem apresentar problemas cardiovasculares, diminuição da resistência óssea, ganho de peso, incontinência urinária e aumento da massa gorda", completa a médica.

Entre os principais impactos estão as doenças cardiovasculares, que passam a ter maior incidência nesse período. "Tanto o AVC (acidente vascular cerebral) quanto a doença arterial coronariana aumentam de 2 a 3 vezes mais do que em mulheres na pré-menopausa. A terapia de reposição hormonal é indicada para prevenir o risco cardiovascular", detalha a Dra. Patricia.

O ginecologista Igor Padovesi complementa que a redução do estrogênio influencia diretamente o sistema circulatório. "O estrogênio está associado à manutenção da elasticidade dos vasos, redução do colesterol ‘ruim’ (LDL) e produção do colesterol 'bom'. Então, com a redução nos níveis desse hormônio na menopausa, há um maior acúmulo de placas de colesterol, aumento da pressão arterial e, consequentemente, risco elevado de doenças cardiovasculares. A terapia hormonal pode ajudar a contornar essa situação", diz.

Outro ponto de atenção é a saúde óssea. A perda de densidade mineral aumenta significativamente após a menopausa, elevando o risco de osteoporose. "Nessa época, 0,3% a 0,5% dos ossos são perdidos a cada ano, aumentando dez vezes ao longo dos 5 a 7 anos seguintes. Com a queda do estrogênio, há maior reabsorção e menor produção óssea. Além da terapia de reposição hormonal, indicamos exercícios, cessação do tabagismo e suplementação de cálcio", pontua a Dra. Patricia.

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As articulações também podem ser afetadas, com maior incidência de dor e inflamação. Segundo o ortopedista Marcos Cortelazo, a queda hormonal interfere diretamente na estrutura articular.

"Conforme a produção hormonal é alterada na menopausa e os níveis de estrogênio diminuem, as articulações ficam mais inflamadas, o que causa dor em regiões como mãos, joelhos e ombros e favorece o surgimento de condições como a artrite e artrose", relata. Ele acrescenta que fatores anatômicos femininos também influenciam:

"De maneira geral, as mulheres possuem uma bacia mais larga (ginecoide), tendem a ter joelhos valgos (arqueados para dentro) e apresentam um ângulo do quadríceps maior. Esses fatores causam alterações biomecânicas e de alinhamento, especialmente nos membros inferiores, aumentando assim a suscetibilidade das mulheres de sofrerem com condições como a condromalácia patelar, caracterizada pelo amolecimento da cartilagem da patela."

A incontinência urinária é outra queixa frequente nesse período e pode afetar diretamente a qualidade de vida. A ginecologista Ana Paula Fabricio esclarece que o problema envolve fatores físicos e emocionais.

"Por isso, é muito importante alertar o seu médico sobre o problema para que ele possa determinar protocolos de tratamento específicos para a condição, que pode ser causada por fatores como transição menopausal, menopausa, excesso de exercícios físicos, envelhecimento e partos normais prévios. Existe uma série de opções terapêuticas eficazes para o problema, incluindo fortalecimento muscular, fisioterapia pélvica, eletroestimulação, uso de hormônios tópicos vaginais, turgência local e até mesmo a realização de cirurgias em casos mais graves", enfatiza.

Ela ainda chama atenção para o impacto da secura vaginal na vida sexual: "A secura urovaginal também pode tornar a relação sexual dolorosa, levando a uma perda secundária da libido, agravando a redução do desejo sexual devido às próprias alterações hormonais; e as mudanças resultantes no relacionamento podem levar isso a um ciclo vicioso."

No ambiente profissional, os efeitos da menopausa também podem ser percebidos, com impacto no desempenho e na rotina de trabalho. O Dr. Igor aponta mudanças no mercado e na forma como o tema ainda é tratado. "Relatos recentes sugerem que as mudanças hormonais durante este período estão contribuindo para um aumento na saída de mulheres do mercado de trabalho, levantando questões importantes sobre como as empresas podem apoiar melhor suas funcionárias. Cada vez mais as lideranças executivas são femininas, muitas empresas já abraçaram a causa da maternidade, mas a menopausa ainda é um tabu no ambiente corporativo; os homens ainda são maioria entre líderes e presidentes de empresas e não entendem esse período específico", avalia.

A Dra. Ana Paula alerta para o risco de estigmatização: "O risco é que, em vez de evoluirmos, criemos um novo estigma que desvaloriza justamente as mulheres mais experientes, em cargos de liderança ou em fase de grande contribuição profissional". Já a Dra. Patricia frisa como os sintomas podem interferir diretamente na rotina. "As ondas de calor, urgência e incontinência urinária, sono insatisfatório, dores de cabeça e enxaquecas, mau humor, irritabilidade, ansiedade ou ataques de pânico, com perda de concentração e memória, são sintomas que afetam a mulher no ambiente profissional. A falta de compreensão dos motivos da deterioração do desempenho ou da necessidade de pausas ou folgas durante esse período pode levar a ações discriminatórias contra as mulheres, o que pode aumentar a pressão sobre ela e causar problemas emocionais ainda maiores que necessitarão de afastamento", descreve.

Diante desse cenário, especialistas reforçam a importância de um acompanhamento contínuo e multidisciplinar. Para o Dr. Nélio, mudanças de estilo de vida são parte fundamental do cuidado. "Sempre iniciar com mudanças no estilo de vida: prática regular de atividade física, alimentação balanceada, cuidar do peso, evitar tabagismo, álcool e cafeína, introduzir técnicas para reduzir o estresse (ioga, meditação e técnicas de relaxamento). Suplementação de polivitamínicos (cálcio e vitamina D, que atuam na prevenção da osteoporose) também ajudam. E a terapia de reposição hormonal (TH). Os estudos já evidenciam que a TH tem um impacto positivo na qualidade de vida de mulheres com sintomas climatéricos severos e melhoram os fogachos e episódios de suores noturnos, melhorando a qualidade do sono dessas mulheres", reforça.

A Dra. Patricia acrescenta que o tratamento deve ir além do controle dos sintomas imediatos. "Além de tratar as alterações hormonais em mulheres na menopausa, também é importante incentivar o aumento da atividade física, o consumo de uma dieta balanceada e a modificação de quaisquer hábitos de vida prejudiciais", finaliza.