Estava batendo papo outro dia com uma amiga sobre como entramos no jornalismo quando de repente me lembrei da entrevista de emprego mais desastrosa e embaraçosa de minha vida. Foi anos atrás, não muito depois de ter chegado a Londres e visto um anúncio para editora-assistente de uma revista de notícias.
O anúncio era bem detalhado. Os interessados precisavam enviar uma avaliação sobre o veículo indicando o que funcionava bem e o que não, além de ideias atrativas para matérias de capa.
Como eu havia acabado de editar uma revista de notícias de circulação nacional na Austrália, estava cheia de ideias. No entanto, uma das perguntas no anúncio me deixou sem resposta.
Qual era a minha pretensão salarial? Pedi orientação a dois outros jornalistas, ambos homens, que eu conhecia em Londres.
Os dois me disseram para pedir o que eu recebia em Sydney, mais um adicional pela diferença abissal da taxa de câmbio e pelo custo de vida maior em Londres, e foi o que fiz. Para meu prazer, fui chamada para uma entrevista.
Uma equipe ouviu gentilmente enquanto eu falava sem parar sobre a revista deles, cujo editor principal depois me levou para uma sala ao lado para continuar a conversa. Ele disse ter adorado minha candidatura, mas que havia apenas um detalhe: eu fazia mesmo questão daquele salário que havia mencionado? “Porque é muito mais do que me pagam.”
Na ocasião, fiquei mortificada. Meu rosto pegou fogo.
Como eu tinha sido idiota a ponto de pedir uma quantia tão absurda! Por que eu não tinha pesquisado melhor o salário do mercado para editores-assistentes de revistas? Hoje, entretanto, lembro aquele momento com carinho.
As mulheres estão sempre ouvindo que elas próprias consolidam a desigualdade salarial de gênero ao pedir muito pouco nas negociações de remuneração, e lá estava meu eu mais jovem, sem nenhuma noção, fazendo o oposto. Também penso em como tudo teria sido muito mais fácil se aquele anúncio simplesmente tivesse informado o salário oferecido.
Desse modo, eu saberia se valeria a pena me candidatar, e todos os demais, dentro e fora da revista, teriam uma ideia melhor se a remuneração deles era justa ou se deveriam exigir mais. É claro que é precisamente por esse motivo que muitos empregadores não divulgam os salários publicamente.
Por motivos semelhantes, muitas vezes se pede aos candidatos a empregos que revelem seu histórico salarial, embora essa seja uma excelente forma de perpetuar os salários mais baixos tolerados por tantas mulheres e minorias étnicas, entre outros. É difícil pedir 50 mil libras esterlinas (US$ 63,5 mil) por um trabalho, por mais qualificada que você seja, se acabou de revelar que seu último cargo pagava 35 mil libras, o que poderia ser o caso, por exemplo, se você estivesse fazendo o mesmo trabalho em uma organização beneficente.
Durante anos, as mulheres ouviram que precisavam simplesmente “se impor” e ficar mais espertas ao negociar. Felizmente, essa abordagem vem desaparecendo, uma vez que pesquisas mostram as vantagens de ter políticas voltadas a corrigir a forma das negociações, em vez de tentar “corrigir” as mulheres.
É por isso que a União Europeia aprovou uma diretriz com duas exigências aos empregadores: informar aos candidatos o salário ou a faixa salarial inicial e deixar de pedir seu histórico de remuneração. Vários Estados dos Estados Unidos já adotam medidas semelhantes, o que pode ajudar a encurtar uma lacuna salarial de gênero que, na média dos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), estava em 11% em 2023.
O prazo para colocar a diretriz da UE em vigor como lei nacional nos países-membros era junho de 2026, mas infelizmente muitos ainda não o fizeram. Entre eles, está a maior economia do bloco econômico, a Alemanha, onde dados da plataforma de recrutamento Indeed mostram que menos de 15% dos anúncios de emprego incluem informações explícitas sobre salários.
Essa porcentagem cai muito em setores como o bancário e o financeiro, que costumam apresentar disparidades salariais de gênero bem piores. Não é surpresa que milhares de mulheres estejam apoiando organizações como a Female X Finance, uma startup de cinco anos que almeja dar um impulso à carreira de mulheres no setor financeiro.
Suas cofundadoras holandesas acabaram de publicar sua segunda pesquisa anual sobre os salários - e bonificações - pagos em áreas como as de banco de investimento, de private equity e de fusões e aquisições no Reino Unido e na Holanda. Como eu gostaria que esse tipo de informação e essas leis de transparência salarial existissem quando respondi àquele anúncio de revista tantos anos atrás.
Caso você esteja se perguntando, não consegui o emprego. A vaga ficou com alguém da própria revista, e talvez tenha sido melhor assim.
Tenho certeza de que a pessoa fez um trabalho muito melhor do que eu teria feito, mas eu ainda gostaria de saber quanto ela recebeu. Pilita Clark é colunista do “Financial Times”
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