O que a maternidade revela sobre amor, culpa e perda de controle, segundo psicanalista

 

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A maternidade costuma ser envolvida por discursos de idealização, mas a experiência concreta revela um território mais complexo, marcado por transformações emocionais profundas, ambivalências e renúncias silenciosas. Para a psicanalista e psicóloga Fabiana Guntovitch, a vivência de ser mãe atravessa camadas que vão muito além do cuidado cotidiano, exigindo elaboração psíquica constante.

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"A maternidade não é para os fracos", afirma, ao destacar que o processo envolve tanto o amor intenso quanto o confronto com limites internos e externos. Segundo ela, há um ponto quase imperceptível em que a mulher compreende que gerar um filho não significa moldá-lo.

"Descobrimos que não há controle real sobre quem ele se tornará, quais escolhas fará, quais dores atravessará”, explica. Ainda assim, essa ausência de controle não diminui a sensação de responsabilidade, que tende a se intensificar ao longo dos anos. "Você descobre que não tem controle, mas ainda assim se sente responsável por tudo", detalha.

Esse paradoxo está no centro da maternidade contemporânea. O vínculo inicial, sustentado pela gestação e pela dependência absoluta nos primeiros anos, pode alimentar a ideia de extensão de si mesma. Com o tempo, porém, essa percepção se desfaz.

"O filho não é uma extensão de si. Não é um projeto", pontua. Para Fabiana, reconhecer a autonomia do filho é um dos movimentos mais desafiadores, e necessários, desse percurso.

Nesse processo, amar também implica abrir mão de expectativas e projeções. "Amar um outro alguém, ainda que tenha nascido do seu ventre, é inevitavelmente se preparar para abrir mão de tudo que não couber em nome deste amor", diz. Isso inclui não apenas idealizações, mas também a imagem construída sobre quem aquele filho deveria ser.

O movimento de separação simbólica não acontece sem impacto emocional. "Existe um vazio que se instala nos pequenos movimentos de deixar ir", enfatiza, ao descrever os chamados "mini lutos" da maternidade. Situações como o primeiro dia de escola, a ampliação da autonomia e as escolhas que seguem caminhos inesperados fazem parte desse processo gradual de desprendimento.

A culpa, por sua vez, ocupa lugar recorrente na experiência materna. "Diante de qualquer sofrimento do filho, uma pergunta insiste em surgir, onde foi que eu errei?", observa. A lógica é reforçada culturalmente, atribuindo à mãe uma responsabilidade quase absoluta pelos desfechos da vida dos filhos.

Diante disso, Fabiana propõe uma leitura mais realista e menos idealizada da maternidade. "Não existe maternidade perfeita. Existe maternidade possível", avalia. Trata-se de um exercício contínuo de adaptação, atravessado por amor, mas também por exaustão, dúvidas e revisões constantes.

Ao longo do percurso, há também uma transformação profunda em quem materna. "Ela confronta limites, desmonta idealizações, expõe fragilidades e convida à evolução", esclarece. O processo, de acordo com a psicanalista, é de construção permanente de consciência, envolvendo percepção, revisão e, quando possível, reparação.

No conjunto da experiência, a maternidade se revela como uma vivência de coautoria da vida, e não de controle. "Co-criar uma vida é aceitar que você não é a autora da história", comenta. Para ela, o papel materno está na presença, na sustentação e na influência, mas não na condução do destino do outro.

No fim, o gesto mais potente dessa experiência está na capacidade de sustentar o vínculo sem anular a individualidade. "Reconhecer o filho como alguém separado de si e, ainda assim, continuar amando", resume Fabiana, ao reforçar que a maternidade não se trata de formar alguém à própria imagem, mas de amar alguém em sua própria forma, mesmo quando ela escapa de tudo o que foi imaginado.