O que a framboesa tem a ver com a vida no espaço? Entenda a nova descoberta em nossa galáxia
A identificação de um açúcar encontrado naturalmente em framboesas no espaço interestelar pode ajudar a responder uma das maiores perguntas da ciência: como surgiram um dos compostos mais necessários para a vida na Terra.
Publicado nesta segunda-feira (13) na revista Nature Astronomy, o estudo revela a primeira detecção da eritrulose na Via Láctea e reforça a hipótese de que moléculas fundamentais para o RNA e o DNA começaram a se formar muito antes do nascimento do Sistema Solar.
Uma doce surpresa: cientistas encontram açúcar nas profundezas da nossa galáxia
Apesar da associação com a fruta, a eritrulose não veio de framboesas.
Na Terra, esse açúcar ocorre naturalmente nelas, mas, no espaço, foi produzido por reações químicas em grãos de gelo presentes entre estrelas, sem qualquer participação de organismos vivos.
Para os cientistas, isso indica que compostos orgânicos complexos podem ter sido levados à Terra por asteroides e cometas durante os primeiros estágios da formação do planeta, contribuindo para o surgimento da vida.
O centro galáctico da Via Láctea, captado pelo Telescópio Espacial Spitzer em 2006.
Pela primeira vez, cientistas detectaram açúcar no espaço interestelar, fornecendo uma pista importante sobre as origens do açúcar na Terra e, possivelmente, o surgimento da vida
NASA/JPL-CALTECH/S.
STOLOVY via The New York Times
Uma pista sobre a origem da vida
A equipe liderada pela astroquímica Izaskun Jiménez-Serra, do Centro de Astrobiologia da Espanha, analisou sinais de rádio emitidos por moléculas em uma nebulosa próxima ao centro da Via Láctea usando dois radiotelescópios.
Cada molécula emite frequências específicas ao girar no espaço e, ao comparar esses padrões com experimentos de laboratório, os pesquisadores identificaram a assinatura da eritrulose.
— Foi uma correspondência muito bonita.
Meu coração começou a bater muito, muito rápido — afirmou Jiménez-Serra, seguno o New York Times.
Segundo os autores, o meio interestelar funciona como uma verdadeira "fábrica química", onde já foram identificadas centenas de moléculas orgânicas.
A descoberta confirma que açúcares podem se formar nesse ambiente antes mesmo da existência de estrelas e planetas, oferecendo uma explicação para a presença desses compostos nos primeiros momentos da história da Terra.
O estudo também recebeu o respaldo de especialistas que não participaram da pesquisa.
Para o astroquímico Brett McGuire, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), os dados são consistentes.
— Este é um açúcar de verdade, autêntico.
É simplesmente incrivelmente empolgante.
Os pesquisadores estimam que entre 500 mil e 50 milhões de toneladas desse açúcar possam ter chegado à Terra durante seu período de formação.
Agora, a equipe pretende buscar moléculas ainda mais complexas, como ribose e desoxirribose, componentes essenciais do RNA e do DNA.
Se esses açúcares também forem encontrados no espaço interestelar, aumentará a evidência de que os blocos fundamentais da vida podem estar distribuídos por diferentes regiões da galáxia, ampliando a possibilidade de que processos semelhantes tenham ocorrido em outros mundos.
