Foi em 21 de outubro último, na comunidade Vitória Pantanal, em Piracicaba, bela cidade do Interior paulista. Dois homens, de 21 e 24 anos, foram presos, e um adolescente de 17 anos foi detido sob suspeita de tráfico de drogas e porte ilegal de arma.
Os três foram fotografados algemados e ajoelhados, usando camisetas idênticas com mensagens de apoio a Lula e à Apeoesp, associação sindical dos professores da rede estadual. As fotos circularam nas redes sociais de políticos, entre eles Guilherme Derrite (PP-SP), senador eleito e ex-secretário de Segurança Pública do governo Tarcísio de Freitas.
Um dos jovens detidos, o de 21 anos, afirmou à Polícia Civil durante audiência de custódia que os agentes os fizeram vestir as camisetas. A mãe do adolescente fez a mesma denúncia.
O caso está sendo investigado. A Comissão de Segurança Pública da OAB-SP, presidida pelo advogado Alberto Toron, pediu à Secretaria da Segurança Pública e ao Ministério Público de São Paulo que apurem denúncias de que policiais militares obrigaram os jovens a vestir as camisetas.
A entidade também solicita investigação sobre possível uso eleitoral dos registros da ocorrência. Não é de hoje que se tenta ligar Lula e o Partido dos Trabalhadores ao crime, direta ou indiretamente, mediante as mais sujas armações.
O forjamento da inverdade pelo uso de roupa engajada, especificamente, remete a um notável caso de 1989, quando o então candidato petista disputava a presidência da Republica contra Fernando Collor. A repercussão midiática, à época, foi estrondosa.
O empresário Abílio Diniz foi sequestrado em São Paulo no dia 11 de dezembro de 1989, na semana que antecedia o segundo turno da primeira eleição presidencial depois da ditadura. O sequestro foi executado por um grupo radical de diferentes nacionalidades – chilenos, argentinos, canadenses e um brasileiro, ligados ao MIR (Movimiento de Izquierda Revolucionaria), do Chile.
Eles exigiam um resgate milionário. Após 36 horas de cerco policial ao cativeiro, os sequestradores se renderam no dia 17 de dezembro, exatamente a manhã do segundo turno da eleição.
Ao serem apresentados à imprensa, vários sequestradores vestiam camisetas da campanha de Lula. Panfletos e materiais do PT foram exibidos publicamente pela polícia como se tivessem sido apreendidos no local.
Adicionalmente, foi divulgada uma suposta agenda do grupo contendo nomes de lideranças do PT.Posteriormente, os próprios sequestradores declararam em juízo que foram obrigados por policiais militares a vestir as camisetas do PT antes de aparecerem para os fotógrafos e repórteres, em uma tentativa de forjar um elo partidário inexistente.
A exploração massiva do caso pela mídia no dia da votação teve forte impacto psicológico no eleitorado e foi um dos fatores decisivos para a derrota de Lula naquela eleição. O sequestro seguido de assassinato do ex-prefeito de Santo André Celso Daniel, outro exemplo seminal de tentativa de jogar o PT na lama criminosa, rende discursos fakes até hoje.
O caso foi esclarecido e nenhuma motivação política foi identificada. O caso ocorreu em um período em que o Estado de São Paulo enfrentava uma onda de sequestros, os verdadeiros executores, membros de uma quadrilha comum, foram presos e condenados.
Os abilolados do vale-tudo contra a esquerda nunca descansaram. Ainda hoje o discurso bolsonarista tenta relacionar Lula e o PT a facções criminosas, quando é notória a ligação umbilical da família Bolsonaro à milícia carioca.
Basta lembrar que, na véspera do segundo turno das eleições de 2022, o Ministério da Justiça sob Jair Bolsonaro pressionou delegados da Polícia Federal a promoverem operações no Nordeste as quais gerassem, a qualquer custo, narrativas que atrelassem governos estaduais do PT a facções do crime organizado na Bahia.
A tese serviria para legitimar blitzes e desmobilizações de transporte que pudessem conter o voto lulista na região.
Brasil 247