Paul Biya, 93 anos, passou 73 dias em Genebra, assinou decretos de lá e voltou sem nomear vice nem governo. O caso de Camarões mostra o que sobra de um Estado quando o líder vira ausência.
Em 7 de junho, a presidência de Camarões anunciou que Paul Biya, o mais velho chefe de Estado do mundo, faria uma “breve estadia privada” na Europa. Ele voltou em 20 de agosto, depois de 73 dias, o recorde de uma presidência que dura desde 1982.
A última vez em que tinha sido visto em público foi em 20 de maio. O destino era a Suíça, onde, segundo várias fontes, Biya costuma ficar no hotel InterContinental.
Em 17 de junho, a Jeune Afrique disse que ele estava internado em uma clínica particular de Genebra, o que a presidência negou. O ministro da Comunicação confirmou que ele estava na cidade, mas sem hospitalização.
Em julho, a imprensa regional falou da família reunida lá, incluindo o filho Franck. O governo defendeu que Biya podia governar de longe.
O secretário de Comunicação do partido no poder disse que nenhuma lei regula a estadia dele no exterior, e é verdade: a Constituição não põe limite à ausência. O que ele assinou, segundo a Reuters, foram decretos militares: promoveu o comandante da Guarda Presidencial e trocou os comandantes de quatro das cinco regiões militares conjuntas.
Um deputado de oposição pediu ao Conselho Constitucional que declarasse a vacância da presidência, e o conselho não interveio. Ao voltar, num voo fretado, Biya não foi mostrado descendo do avião e não deu declaração, segundo a AP.
Desde a reeleição, em outubro de 2025 (53,66% oficiais contra 35,19% de Issa Tchiroma), o presidente prometeu um novo governo e não o nomeou. Os críticos dizem que o Conselho de Ministros não se reúne há anos, e as datas citadas pela imprensa camaronesa variam entre 2015 e 2019.
Em 15 de outubro, rumores de morte, lançados por uma conta anônima no X, forçaram a presidência a divulgar um decreto assinado por Biya como prova de que ele trabalha. Segundo reportagens, a Fitch rebaixou a nota do país de B para B- no dia seguinte, citando o risco de uma transição de poder desordenada.
O mandato dos deputados acaba em 20 de dezembro, e as eleições legislativas ainda não têm data confirmada. Em 4 de abril, o Parlamento aprovou por 200 votos a 18 a volta da vice-presidência, extinta em 1972.
A lei, promulgada em 14 de abril, diz que o vice é nomeado e demitido pelo presidente, assume automaticamente se ele morrer, renunciar ou ficar incapacitado, e não pode mudar a Constituição nem concorrer na eleição seguinte. O modelo antigo previa que o presidente do Senado assumisse por até 120 dias e organizasse uma eleição.
Esse herdeiro, Marcel Niat Njifenji, 91 anos, morreu em 11 de abril, uma semana depois da votação. Seis meses depois, o cargo continua vago.
Em junho, um falso decreto com a nomeação de um vice foi entregue à TV estatal. Em 25 de outubro, a Jeune Afrique citou o pastor Oswald Baboke, assessor da presidência, entre os favoritos.
Analistas falam em um vácuo jurídico: se o presidente morrer agora, não há quem ocupe o posto que a lei criou, e uma disputa entre clãs e barões do regime passa a ser o único caminho. A ausência do presidente tem um espelho.
Tchiroma, que reivindica a vitória de 2025, vive exilado na Gâmbia. Seu aliado Anicet Ekane morreu sob custódia em 1º de dezembro.
Em 27 de outubro, o Ministério da Administração Territorial suspendeu por três meses o partido de Tchiroma, citando condenações de um tribunal militar em 8 de outubro. As mortes da repressão pós-eleitoral variam: 16 pelo governo, entre 39 e 48 segundo organizações civis.
Poder e governo são coisas diferentes. Biya mostra que se pode manter o poder sem fazer o trabalho diário de governar, enquanto o aparato (a Guarda, o partido, os barões) segue funcionando.
Isso não prova que o país vai bem. Prova que as instituições foram esvaziadas ao ponto de ele ser dispensável.
Regras simples protegem. A Constituição brasileira proíbe o presidente de se ausentar do país por mais de 15 dias sem licença do Congresso, sob pena de perda do cargo, e define a linha de sucessão.
Em Camarões, não há prazo para a ausência, e a sucessão depende de uma nomeação que só o presidente pode fazer. Quem cala hospeda.
A Suíça, neutra e discreta, recebe o hóspede sem perguntar, o que a faz parte do arranjo. Biya está de volta ao palácio, mas Camarões continua sem um governo novo, sem vice e sem previsão.
Um país que vive sob o silêncio do presidente aprende a esperar, e a espera, como a de Genebra, tem prazo que ninguém controla.
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