Ivete Sangalo, em show recente, fez a seguinte declaração: “Eu compreendo que toda impressão do medo, todo descontentamento que porventura alguém possa ter, que isso é legítimo, isso é completamente coerente e relevante. Mas o descontentamento não pode ser maior do que nossa lucidez”. Aí o público cantou: “Olê, olê, olá. Lula, Lula”. Não sei o contexto nem qual a intenção de Ivete com essa fala, mas a reação do público enseja um sentimento de uma parte dos eleitores. Muitos estão descontentes com o governo, gostariam que outras medidas tivessem sido tomadas ao longo dos últimos 4 anos, ou mesmo não concordam com a polarização estabelecida na sociedade brasileira, ou ainda consideram o cansaço de 3 mandatos de Lula, o que os políticos chamam impropriamente de fadiga de material. Porém, todos têm de decidir o voto no segundo turno e desejo que decidam com lucidez e insatisfação, e não apenas com a insatisfação. Uns procurarão o menos pior, outros optarão pelo melhor entre os dois; tudo depende do ponto de vista de cada um. Do meu ponto de vista, pela história de cada um dos concorrentes e pela necessidade do Brasil, Lula é o que pode melhor atender às demandas do nosso país de crescer, distribuir renda, aprofundar a democracia e manter a nossa autonomia como nação diante da ameaça que Trump e Netanyahu expressam hoje.
Chegamos ao final do primeiro turno com a maior polarização e despolitização ao compararmos todas as recentes eleições. Por trás das reais divergências políticas, prevaleceram os relatos e interpretações baseados no denuncismo e em estigmatizações não programáticas: notícias falsas, como a de que Vorcaro havia doado dinheiro para o documentário sobre Lula e a de que Flávio Bolsonaro havia dito que iria acabar com o dia de Nossa Senhora, padroeira do Brasil; a transmutação da crise do STF para o debate eleitoral, a ponto de muitas pessoas acreditarem que Lula teria indicado os ministros Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes; as infamações sobre a religiosidade de cada um, sobre aborto, entre outras, que mais fazem lembrar a escuridão dos calabouços da Idade Média do que a modernidade do século XXI; as denúncias sobre quem é mais amigo de Vorcaro, do careca do INSS, de Luchsinger, dos milicianos, do PCC etc.
Flávio Bolsonaro chegou a acusar, faltando com a verdade e sobrando com as segundas intenções, que o ministro Flávio Dino havia entrado numa favela, o Complexo da Maré, sem nenhuma segurança. Mesmo se isso fosse verdade, não significaria absolutamente nada; assim como não há indício de crime no fato de Flávio Bolsonaro ter condecorado um miliciano criminoso com a Medalha Tiradentes, a mais alta condecoração da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
Nas movimentações do primeiro turno, faltou o “Projeto para o Brasil”: as propostas concretas para enfrentar este período, limiar de uma nova era, com transformações tecnológicas impressionantes nas formas de produzir bens, nas comunicações e telecomunicações, na biotecnologia, nas tecnologias de guerra e de segurança e na tecnologia espacial que revolucionaram o mundo e o Brasil; além das necessidades antigas e prementes de nosso país, que clama há muito tempo por reformas administrativas, políticas, econômicas e sociais. Não podemos ser um país rico com boa parte da população pobre e paupérrima; não podemos continuar sem infraestrutura, hidrovias, ferrovias, infovias, satélites próprios de comunicação e pesquisa; sem educação de qualidade para os ensinos fundamental, médio/profissionalizante e universitário e sem investimentos em novas tecnologias; sem moradia digna para todos e sem infraestrutura urbana. Precisamos de uma política para a reindustrialização do país, antenada com a quarta revolução industrial e com o fortalecimento da capacidade de autodefesa e da autonomia como nação; de uma disputa qualificada do mercado mundial, agravada pela crescente polarização entre EUA e China em torno da hegemonia mundial e do controle das terras raras, dos metais críticos e do petróleo, que o Brasil tem de sobra.
Todos esses temas foram abordados de passagem na campanha, com viés maniqueísta e de forma manipulada, como se a disputa fosse se dar entre o Cristo e o anticristo, ou entre os santos e os bandidos. Sou da opinião de que todos os crimes devem ser investigados, independentemente de terem sido cometidos por ministros do Supremo, parlamentares, presidentes, governadores, padres, pastores ou doutores de qualquer denominação, mas sempre dentro das normas legais. Quem for condenado deve cumprir os rigores da lei. Condutas transgressoras devem fazer parte dos debates eleitorais, mas não podem ser o centro programático, nem basear-se em falsas acusações, em vazamentos seletivos das investigações ou em julgamentos prévios antes do trânsito em julgado.
Minhas divergências com o PT e com a atual condução do governo são públicas, já expressas em vários artigos. Porém, o que está em questão agora são os rumos do país, da nossa democracia, e não necessariamente qualquer mudança será melhor para o Brasil. Flávio Bolsonaro já anunciou, independentemente de seu voto pelo fim da escala 6×1, forçado pelas circunstâncias pré-eleitorais, que mudará essa situação no próximo ano e fala, entre outras medidas, que desatrelará o piso previdenciário do valor do salário mínimo; não esconde a sua admiração e apoio às medidas tomadas pelo presidente Milei, na Argentina, e já alcunhou a sua própria política de “tesouraço”, com o desmonte das conquistas sociais, privatizações desbragadas, visão liberal sobre o papel do Estado e a tutela dos EUA sobre o Brasil.
Esta política, se vitoriosa, aumentará a pobreza e a segregação social e terá também um impacto imediato negativo para setores pujantes da nossa economia, como o agronegócio, o setor mineral e o de petróleo. A exigência estadunidense, já comprovada nas declarações do presidente Donald Trump, é bloquear, nas Américas, os negócios com a China. Vejam o boletim do IPAM, de 14 de outubro de 2026: “O Brasil foi, em 2025, o principal fornecedor da China de cinco commodities agrícolas. Em números, o país respondeu por 73% da soja, 59% do milho, 56% da carne bovina, 43% do frango e 42% do algodão importados pelos chineses”. Os dados integram a nota técnica elaborada pelo IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e pelo EEI (Evergreen Environmental Institute), da China, intitulada “Relações comerciais China-Brasil: rumo a um novo caminho para a cooperação sustentável”.
Somos concorrentes diretos dos EUA, principalmente em soja e milho. O boletim do Agro Contexto, publicado em 09/01/2026, diz: “Considerando as principais commodities negociadas e produzidas pelos dois países, os dados indicam uma disputa por protagonismo. Soja (Brasil é o maior produtor, com 40% da oferta mundial), milho (Estados Unidos são os maiores produtores, com 31 % da oferta global) e carne bovina (Estados Unidos, com 20%, e Brasil, com 19%, dominam a oferta mundial), segundo os dados da USDA de 2025” (USDA – Departamento de Agricultura dos Estados Unidos). Os EUA são nossos aliados e concorrentes diretos e temos outros pontos de tensão, como PIX, BRICS e disputa de mercado com a América Latina, África e Ásia, para além da China. Juracy Magalhães, baiano nascido no Ceará e de carreira exitosa, num momento de “Guerra Fria” e de golpe militar no Brasil, proferiu uma frase infeliz e incorreta: “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. Infelizmente, muitos entre nós ainda pensam assim e, o que é pior, fora daquele contexto.
Diante deste cenário, não cabe neutralidade nem a defesa ingênua de mudança para qualquer rumo. Podemos manter as críticas à condução do governo Lula, que abre espaço para políticas ambiental-fundamentalistas que impedem ou atrasam o desenvolvimento do país. Mas quem é nacionalista e defende uma política de desenvolvimento econômico com distribuição de renda e aprofundamento da democracia não pode embarcar na canoa furada de Flávio Bolsonaro.
Reconheço, no entanto, que muitas forças e personalidades que aderiram à campanha de Flávio Bolsonaro são patriotas, defendem a democracia e não querem rasgar a Constituição Cidadã. Todos admitimos a necessidade de aprimoramento institucional do país, o que implica mudanças na Constituição, porém dentro dos limites estabelecidos pelos constituintes em 1988, que expressaram a vontade popular de nunca mais o Brasil voltar a ser governado por uma ditadura.
Dia 25 de outubro, pelo Brasil, vamos votar em Lula.
Brasil 247