E se apenas por alguns dias o cinema fosse menos um lugar a que se vai e mais uma cidade que se ocupa? Neste fim de setembro, duas programações gratuitas fazem justamente esse movimento no Rio. Primeiro, o Mimo leva sua maratona de cinema para o Cine Santa Teresa, onde 14 filmes brasileiros serão exibidos nestes sábado (19) e domingo (20). Depois, de quarta-feira a domingo que vem, a Quadra do Alto, no Vidigal, recebe a quarta edição do Cine Favela LGBTQIAPN+, com 24 curtas de realizadores favelados e LGBTQIAPN+. Em comum, além da gratuidade, os dois festivais apostam na tela como ponto de encontro entre histórias, territórios e diferentes maneiras de olhar o Brasil. Do viking ao sertanejo: Veja opções de programação especial para o fim de semana na Barra e em Jacarepaguá Desfiles e Xande de Pilares: Festival ID, em Niterói, reúne moda, gastronomia e shows gratuitos No Mimo, a música é a porta de entrada para uma programação que vai muito além das biografias de artistas. A seleção reúne documentários sobre criação, memória, identidade, comportamento e território, colocando lado a lado nomes conhecidos, histórias pouco revisitadas e personagens que ajudam a revelar outras camadas da cultura brasileira. Entre eles estão Letieres Leite, Dona Onete e Baby do Brasil, além do Black Future, grupo carioca cuja trajetória se mistura à cena musical da Lapa dos anos 1980. — O cinema nos permite entrar em lugares que o palco não alcança, e essa sempre foi uma dimensão muito importante do Mimo — diz Lu Araújo, fundadora e diretora do festival, responsável pela curadoria dos filmes ao lado de Gabriela Carriço. Caminho de Santiago. Baby do Brasil durante uma das fases retratadas em “Apocalipse segundo Baby”, documentário de Rafael Saar Arquivo pessoal/ Baby do Brasil A seleção, explica Lu, não nasceu da tentativa de montar um retrato definitivo do país. A intenção foi justamente deixar que as diferenças aparecessem. — O que me interessa é justamente o contrário, mostrar que existem muitos Brasis. É um Brasil contado através de seus artistas, mas também de seus territórios, de suas invenções e de sua memória. E talvez o retrato que surja seja justamente esse, um país que não cabe numa única narrativa — afirma. Rede solidária: Desorientada, idosa de 89 anos é resgatada na Linha Vermelha e levada para casa graças à intervenção de três motoristas; vídeo Assim, uma cantora do Pará, um músico baiano, uma artista que atravessou diferentes gerações da música brasileira e uma banda que ajudou a reinventar a relação entre rock e samba podem dividir a mesma tela, ainda que suas histórias tenham pouco em comum à primeira vista. É justamente nessas aproximações que o festival encontra seu fio. Para Lu, os artistas da seleção têm em comum a liberdade de criação e a capacidade de atravessar linguagens e lugares sem se deixar enquadrar. A escolha do Cine Santa Teresa também não é casual. Um dos poucos cinemas de rua que resistem no Rio, o espaço mantém uma relação direta com o bairro, e essa proximidade é parte da experiência que o Mimo pretende construir. — O lugar onde uma obra é apresentada também faz parte da experiência. O Cine Santa Teresa tem uma escala humana, uma relação afetiva com o bairro e essa característica cada vez mais rara de ser um cinema de rua — diz Lu. Essa relação entre diferentes linguagens e espaços está no próprio DNA do festival. Música, cinema, patrimônio e memória não aparecem como atrações isoladas, mas como partes de uma mesma experiência pela cidade. — O Mimo sempre propôs outra experiência. Você pode assistir a um show, descobrir um filme, participar de uma conversa, entrar num espaço histórico e encontrar um artista que nunca tinha ouvido antes. Depois de tantos anos, continuo acreditando profundamente nisso. A arte fica mais interessante quando as linguagens conversam e quando a gente cria espaço para o inesperado — opina. No Mimo. Dira Paes e Dona Onete em cena do documentário de Mini Kerti Divulgação/Naiara Jinknss A ideia ganha ainda mais força num momento em que assistir a um filme pode significar ficar sozinho diante de uma tela. No cinema de rua, há deslocamento, encontro e uma experiência compartilhada. — O streaming nos deu uma liberdade extraordinária de acesso, mas o cinema é outra experiência. Você sai de casa, encontra pessoas, senta-se numa sala escura, e durante algum tempo todos compartilham a mesma história. Há uma dimensão coletiva que nenhuma plataforma consegue reproduzir — avalia. Conheça o projeto: Praça Sarah Kubitschek, em Copacabana, terá novos brinquedos, área pet e academia após retirada de muro; veja imagens há ainda a possibilidade da descoberta. Um espectador pode chegar para assistir à história de um músico e sair querendo ouvir seu disco; entrar sem conhecer um diretor e procurar outros filmes; reconhecer uma paisagem ou um pedaço da cidade que até então passava despercebido. É essa relação entre cinema e curiosidade que o Mimo tenta preservar ao manter a programação gratuita. — A descoberta também depende do acesso — resume Lu. Cinema feito por quem é do lugar De quarta-feira a domingo, a Quadra do Alto, no Vidigal, vira sala de cinema para a quarta edição do Cine Favela LGBTQIAPN+. O festival reúne 24 curtas de realizadores favelados e LGBTQIAPN+, entre ficções, documentários, experimentais, comédias e ficções científicas, em histórias que passam por temas como memória, identidade, racismo, envelhecimento, sexualidade e pertencimento. As sessões são gratuitas e contam com recursos de acessibilidade, como Libras, audiodescrição e LSE. Quadra do Alto. De quarta-feira a domingo, o Vidigal receberá o festival, que exibirá 24 curtas gratuitamente Fotos de divulgação/Cine Favela LGBTQIAPN+ Idealizado pela produtora audiovisual Karen Antunes, nascida e criada no Vidigal, o festival parte da ideia de que também é importante produzir e exibir cinema a partir do que vem dos territórios. — A proposta é fortalecer a comunidade LGBTQIAPN+ do audiovisual em seu todo, desde a idealização até a produção e a criação. Ter um festival com esse recorte é possibilitar que os realizadores falem em primeira pessoa — diz. A programação começa quarta, às 19h, com a exibição de “Salão de baile: this is Ballroom”, de Juru e Vitã, seguida de uma apresentação de passinho. De quinta a sábado, as sessões competitivas acontecem às 18h30 e às 20h. Os filmes disputam categorias como Melhor Filme pelo Júri Popular, Melhor Direção, Menção Honrosa, Melhor Filme de Cria, Melhor Filme Cunty e Melhor Filme de Afeto, além de prêmios da Petrobras, da TV Globo e do SescTV. Marcada para 1º de outubro: Mostra Morar Mais Rio ainda não teve nova sede divulgada, após revogação de licença para realização em casarão na Gávea No encerramento, domingo, a partir das 18h, serão anunciados os vencedores. Às 19h, o cinema dará lugar à pista para a The Reflection Kiki Ball — Brilhar e Se Espelhar, que celebra a cultura ballroom com disputas nas categorias face, runway, vogue, dance off e cine look, além de troféus e premiação em dinheiro. Para Karen, ocupar o próprio território com uma produção feita por quem vive nele é parte essencial da experiência. — Fazer o festival é fazer cinema de favela para a favela. É poder criar dentro de um território com o qual me identifico e onde vejo o quanto a cultura é fértil. Em sua quarta edição, o Cine Favela LGBTQIAPN+ representa uma realização coletiva da comunidade, que vem se firmando no audiovisual carioca, ampliando seu espaço e sendo cada vez mais exaltada. O desejo é que o festival se consolide também no calendário nacional, dialogando com outras favelas e periferias do Brasil e se conectando com diferentes corpos e histórias na tela — afirma. A programação completa está disponível noSympla, onde pode ser feita a retirada dos ingressos gratuitos. “Baú”. Curta será exibido na sessão das 18h30 da próxima quinta-feira Divulgação/Cine Favela LGBTQIAPN+
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O país em foco: festivais gratuitos na Zona Sul reúnem filmes que mostram o Brasil de diferentes ângulos
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O Globo
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