‘O objetivo é sempre trancar a mulher em casa’, diz Míriam Leitão, que lança romance distópico feminista

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Fonte da notícia: Valor Valor

A jornalista Míriam Leitão, de 73 anos, ao assumir o papel de ficcionista, rejeita a ideia de buscar inspiração na própria biografia. É difícil, porém, negar a impressão de que a personagem Thereza Quintela, uma escritora à beira da cegueira, que enfrenta pela segunda vez um regime ditatorial, não lhe sirva de alter ego no romance “A dança de Elisa” (Intrínseca, 224 págs., R$ 69,90).

“Eu até coloco pedaços de mim em algumas narrativas, mas nunca cogitei a ideia de criar autoficção”, avisa a autora sobre seu oitavo livro. “No caso de Thereza, ela se torna uma conselheira das mais jovens por ter enfrentado outra tirania, e posso emprestar minha voz em alguns momentos.”

“A dança de Elisa” é o segundo romance de Leitão, jornalista com a bagagem de cinco décadas adquirida em veículos de comunicação como Veja, Jornal do Brasil, O Estado de S. Paulo e O Globo e que relutou em contar histórias inventadas.

O lançamento no Rio de Janeiro está marcado para a terça, dia 10, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, e, em São Paulo, ela distribui assinaturas na filial da Travessa do Shopping Iguatemi no dia 19. O primeiro romance, “Tempos extremos” (2014), escrito depois dos 50 anos, com “os medos bem resolvidos”, foi premonitório em relação à polarização política que dividiria famílias a partir de 2018.

Na trama, os irmãos Alice e Hélio explodem nas divergências ideológicas evidentes desde o começo da década de 70. “O Brasil nos últimos oito anos passou por outras emergências, e eu tinha recados mais urgentes para transmitir”, justifica, sobre o longo preparo da nova obra.

“‘A dança de Elisa’ trata de uma questão permanente, e as personagens me reencontravam em um vai e vem que me conduzia de volta ao trabalho.” No período, a jornalista equilibrou os expedientes nas redações de O Globo e GloboNews com a publicação de dois livros de não ficção, “A democracia na armadilha: Crônicas do desgoverno” (2021) e “Amazônia na encruzilhada: O poder da destruição e o tempo das possibilidades” (2023).

“O primeiro foi um alerta que precisava sair antes da eleição de 2022 e, com a floresta em chamas, o outro não podia esperar tanto tempo.” Em uma linguagem radicalmente oposta, “A dança de Elisa” aponta para uma distopia feminista ambientada em um futuro e um lugar indeterminado.

Desde que uma nova ordem assumiu o governo, as mulheres perderam progressivamente direitos básicos e considerados imutáveis, como a liberdade de sair de casa à noite, vestir a roupa que bem entender e até de se reunir em grupo nas ruas. Moral da história: liberdades podem ser revogáveis.

É na casa de Thereza Quintela que a protagonista, a bailarina Elisa, de 30 anos, encontra segurança para ensaiar uma rebelião com algumas amigas, como a jornalista Nina, a filósofa Helena, a engenheira Leila e a artista plástica Sandra. Em um regime democrático, Elisa seria apenas um talento reconhecido pela crítica e aplaudido pelo público que lotava teatros para ver suas performances.

Aos olhos totalitaristas, ela se tornou uma ameaça e foi impedida de seguir em seu ofício. “No livro, eu mostro lutas antigas e novas, como a repressão à dança que é um clássico, e o ódio virtual, representado por Nina, uma jornalista preta ameaçada nas redes”, explica.

A princípio, “A dança de Elisa” seria um conto, e a ideia surgiu logo depois de ofensas digitais sofridas pela jornalista durante o pleito de 2018 que a tiraram do eixo e a fizeram temer a máquina do ódio bolsonarista. Leitão, entretanto, brinca que a bailarina começou a trazer as amigas para visitá-la e, de repente, se viu diante de um livro de fôlego sobre a luta pela libertação feminina em permanente risco.

“Seja no tempo que for, o objetivo é sempre trancar a mulher em casa”, afirma. “Quem leu Simone de Beauvoir sabe que basta uma crise para que a gente volte a ser atacada.”

Leitão descobriu “O segundo sexo”, obra da filósofa francesa, aos 16 anos, quando ainda morava em Caratinga, a sua cidade natal, em Minas Gerais, pouco antes de se mudar para Vitória, no Espírito Santo, onde cursou a faculdade. Percebeu que tinha um comportamento feminista sem mesmo conhecer a teoria e que serviu de alavanca para a sua vida, inclusive para segurar as consequências da militância política na ditadura militar.

Em 1972, ela foi presa e torturada, tinha 19 anos e estava grávida do primeiro de seus dois filhos, o jornalista Vladimir Netto. Com a visão da maturidade, Leitão saudou quando viu despontar a geração Me Too, na segunda metade da década de 2010, como um reforço às lutas pela igualdade de gênero e contra o assédio sexual.

Ela identifica que entre as mulheres da sua idade e as de agora houve uma geração perdida, aquela que se confundiu entre estereótipos propagados pelo universo machista. “As feministas de hoje podem olhar para trás e não enxergar o quanto lutamos”, diz.

“Mas, pelo menos, ao contrário da geração anterior, não nega ou releva os abusos sofridos no dia a dia.” A distopia de “A dança de Elisa” não parece tão distante quando se comenta que, neste ano, um movimento contra o voto da mulher ganhou espaço nas redes e a deputada estadual Eduarda Campopiano (PL-SP), de 23 anos, bateu recorde nacional de votos com uma campanha apoiada no antifeminismo.

Para Leitão, o fenômeno é facilmente explicado por causa de um discurso capaz de servir de alento a muita gente. “Contestar uma estrutura é desgastante e sempre tem quem prefira se aliar ao opressor”, diz.

“Com as redes sociais, uma dinâmica assim gera visibilidade, é compartilhada por quem concorda ou discorda, e essa é a armadilha em que temos caído.”

Publicação Original Valor valor.globo.com
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